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Por Cristiano Síndici Hernandes e Heloisa Ramos

Cine Belas Artes

No dia 17 de março de 2011, às 21h, foi a derradeira sessão do Cine Belas Artes. Clientes chegaram, entre câmeras, microfones, filas e pipocas, e assistiram à película La Doce Vita, de Federico Fellini.  A introdução foi um discurso apaixonado, do sócio do Cine Belas Artes , André Sturm, dizendo que o Cine Belas Artes e todos os que participaram do movimento pela sua preservação, tinham perdido a luta, mas não desistiriam da guerra. Ele falou o intragável; mas o fechamento do histórico cinema era inevitável. Da fila da pipoca e chocolate, ao bilheteiro, os sentimentos eram de tristeza. “É triste demais”, diziam todos. Para todos os que frequentaram o Cine Belas Artes, ou até mesmo para quem estava ali pela primeira vez, fazia-se impossível não entender o valor daquelas salas. Segundo a Rolling Stone, foi oferecido o valor de R$ 1 milhão como pagamento anual de aluguel, mas a quantia não foi aceita.
Cinema de Rua
Para o Dr. Fernando de Jesus Giraldo Salinas, professor de cinema da Universidade Presbiteriana Mackenzie, isso é um processo histórico. “Isso é daquelas coisas inevitáveis da humanidade. Você não tem como parar a história. A história vai acontecendo, e as cidades são vivas”, disse, “aquela história de que a cidade é uma entidade viva, aquele papo bonito dos arquitetos, e é de fato”, completou. 
Então, segundo o professor Salinas, o cinema de rua teve um tempo, teve um momento histórico, em todas as grandes cidades, e o processo histórico levou a que esses cinemas fossem sendo fechados lentamente, ao ponto de que, aqui, em São Paulo, houvesse pouquíssimos cinemas de rua. E muitos dos grandes cinemas de rua viraram igrejas. “Havia um aqui, no centro da cidade, na avenida São João, Comodoro Cinerama, onde cabiam, sei lá quantas pessoas, 1400, alguma coisa brutal! Cheguei a ver filmes lá no Comodoro, e era espetacular… Uma sala de 70 milímetros, e virou uma igreja.”
Segundo o professor do Mackenzie, outros foram divididos em várias salas,”que foi o que aconteceu com aquele que fica no Conjunto Nacional”. O Conjunto Nacional era uma sala; fecharam, reformaram e fizeram várias salas pequenas e um centro comercial. A própria sociedade vai preferindo os lugares novos. Os lugares novos hoje são os shoppings.
O shopping oferece mais coisas: trouxe o carro, o estacionamento – no cinema de rua, o cliente vai ter que estacionar longe, ou vai ter que ir de metrô, ou ônibus, ou vai ter que ir caminhando; então, o cliente pode ir de carro – ; trouxe comida, praça de alimentação; você pode fazer compras antes ou depois. O shopping virou o lugar das pessoas ou, como é chamado, a praia do paulistano. Óbviamente, o cliente vai preferir o cinema dentro do shopping ao cinema de rua. E isso leva a que o cinema feche. Alguns, porque eram muito grandes, não era possível sustentar nem como cinema pornô. Segundo o professor, muitos deles viraram cinemas pornôs durante anos, esses cinemas de rua, mas nem isso os sustentava. Sem público, não é possível manter. “Fechou, acabou! Fechou, acabou a história. Isso é básico na história da humanidade.”
“Agora, você entra no território do saudosismo”, continuou ele, “eu não sou saudosista; mas aí sou eu. Pode ser que outra pessoa pense o que quiser. Eu sou daqueles que olham a história como ela caminha. E caminhou, passou! Eu não tenho saudade disso. Os mesmos filmes que tinham naquelas salas que foram fechadas no HSBC Belas Artes, vou encontrar nos shoppings. Tem pelo menos dois ou três shoppings que passam cinema de arte, chamado cinema de arte.”
“Então os mesmos filmes que eu ia encontrar aí, eu vou encontrar no shopping. Eu caminho com a história. Me perguntaram na época, quando fecharam o HSBC Belas Artes: ‘Ah! Você não acha triste, não tem que manifestar?’. Eu não vou fazer nada. Ele está fechando por um problema econômico. Ponto! ‘Ah! Você não acha que a prefeitura deve…’ Nada! Não deve fazer nada. Isso não é um problema da prefeitura. É um problema de negócios. ‘E a cultura?’. Isso não é um problema da cultura. É um problema de negócios. ‘Mas e os filmes, eles não vão se perder?’. Não: Eu vou continuar vendo os filmes no espaço itaú de cinema, no cine bombril. A mostra de cinema de São Paulo continua acontecendo: 400 filmes continuam passando.”
Então, segundo o professor Salinas, é um processo histórico. Negar o processo histórico é bobagem. Senão nós estaríamos nas cavernas ainda. Fica para a história. Nos últimos dez anos, 30 salas de rua abriram; dentro de shoppings, 50 salas.
A cada mês, mais ou menos, está sendo inaugurado um shopping, em São Paulo. Uma das coisas que há em qualquer shopping, em São Paulo, é sala de cinema: 3, 4, 5, 6, 7, 14 salas de cinema. E elas continuam tendo público; e, em algumas delas, continua chegando o cinema chamado de arte, e há umas especializadas, especialmente, o espaço itaú de cinema, que é especializado nisso. É um espaço criado para ter salas para ganhar dinheiro. Aí o cliente vai encontrar o lançamento hollywoodiano da semana, bastante dinheiro, ou o lançamento da Globo Filmes, com aquelas comédias brasileiras, da moda, Qualquer Gato Vira-Lata, com Cleo Pires. E do lado, na “salinha” do lado, continua havendo o filme que ganhou Cannes, o filme que ganhou veneza, o filme que ganhou berlim, o filme “paquistanês”, feito com uma câmera; vai continuar isso. Não se perde, porque há público. Continua havendo público. Quando não haver público para esse cinema de arte, acabou. Não vai mais haver público para o cinema de arte. Mas sempre vai haver, porque sempre vai haver cinéfilos que gostam de arte. E os cinéfilos que gostam de arte sempre foram minoria, sempre, na história da humanidade, sempre.
A maioria gosta de “pão e circo”. A maioria vai assistir a “pão e circo”; então, bastante pipoca, “pão e circo”. Filme de explosão: Os Mercenários. Os Mercenários é um filme de “pão e circo”. É pra ir lá , 2 horas, e deixar o cérebro em casa, foi o que recomendou o crítico da Folha. É um crítico da Folha. Ele recomendou: “Você deixa o cérebro em casa e vai se divertir, e esquece do mundo por 2 horas”.
Mas, do lado, lá no espaço itaú de cinema, o cinéfilo vai encontrar o filme “paquistanês”, o filme… o único filme de um cineasta da Índia. Ele vai ver o filme lá. “O grande documentário sobre as formiguinhas que estão sendo extintas na Malásia” ele vai ver lá. Só vai haver ele lá.
Então, fechou o cinema de rua. É um processo histórico, segundo o professor do Mackenzie, Salinas. “‘Ah! O cara, o dono, não tinha dinheiro para pagar o aluguel’. Sinto muito! É negócio. A prefeitura tem que pagar? Nem pensar! Já é dado muito dinheiro para o cinema neste país para ainda ter que manter sala de projeção de cinema. Não, isso não é problema da prefeitura. Isso é problema de negócio.”

Cine Belas Artes pode ser reinaugurado

No dia 15 de outubro, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) tombou a fachada do HSBC Belas Artes, no n. 2.423 da Consolação. Mas a decisão não obriga o proprietário do imóvel, Flávio Maluf, a reabrir o imóvel como um cinema. O Belas Artes pode ser reinaugurado na Teodoro Sampaio, Pinheiros.

“Não existe fim, não existe início, apenas a infinita paixão da vida.”
(Federico Fellini)

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