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Por Lucas Turco e Igor Corá

A noite chegou no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo, e todos os moradores se reuniram em suas respectivas casas para jantarem em família e depois se deitarem para descansar. Nem todos. Mariano, um rapaz de 23 anos, tem uma rotina completamente diferente da maioria da população.

Mariano é operador de computadores no Hospital Santa Marina, seu turno começa às 22h e termina às 5h, período em que o movimento no hospital é menor. Ele nunca planejou trabalhar de madrugada, mas a competitividade do mercado de trabalho e a necessidade de sustentar sua família fizeram do trabalho noturno não uma opção, mas uma consequência.

A realidade de Marino é muito semelhante à de outras 15 mil pessoas, que trocam o dia pela noite. Essa parcela da população enfrenta uma série de dificuldades e correm severos riscos de saúde, mas descartam largar a profissão, pois existem outras pessoas que dependem do trabalho delas.

Diversos empregos, por inúmeros motivos, exigem que os contratados trabalhem no período noturno. Seguranças, porteiros, policiais, lixeiros, médicos, DJs, motoristas e técnicos de computadores, como Marino, precisam alterar completamente a realidade de suas vidas para se dedicar ao trabalho na madrugada.

Quando pensamos no trabalho noturno logo surgem adversidades óbvias, como a dificuldade para dormir de dia devido à claridade do sol e ao barulho da cidade em horário comercial ou os obstáculos para se relacionar com a família e amigos, já que as rotinas são completamente opostas. Mas os problemas vão muito além disso.

“Desde que comecei a trabalhar à noite me sinto muito mais cansado do que de costume. Antes tinha disposição para jogar futebol com os amigos, viajar para a praia nos fins de semana e curtir as baladas, agora não passo nem perto disso. Meus amigos dizem que desapareci, namorada ficou difícil encontrar e no meu tempo livre tento descansar o máximo que posso”, disse Mariano.

A declaração de Mariano vai de encontro com a opinião dos médicos, que buscam comprovar as consequências: “O sono diurno nunca compensa em quantidade e qualidade as horas não dormidas à noite”, comentou Flávio Aloé, neurologista e especialista em medicina do sono do Hospital das Clínicas da USP.

Os trabalhadores noturnos têm mais chances de desenvolver doenças ligadas à baixa imunidade como gripes, obesidade e cefaléia. Isso ocorre por conta da alteração da atividade metabólica somada a piora do sono. Apnéia, depressão, envelhecimento precoce, e problemas cardíacos e gastrointestinais são outros problemas que afetam essas pessoas.

Existem ainda pesquisas que constatam o alto nível de câncer ginecológico e infertilidades entre os trabalhadores da madrugada. “Ainda não está provada a relação direta entre as doenças e o regime de trabalho, mas há indícios” explicou Marco Túlio de Mello, médico e pesquisador do Hospital das Clínicas.

Recentemente, a professora Cláudia Moreno, do departamento de saúde ambiental da faculdade de saúde pública da USP, elaborou um estudo com cerca de 10 mil caminhoneiros que realizam serviços noturnos. A pesquisa mostrou que 25 % deles têm alto risco de desenvolver apnéia do sono (parada respiratória súbita durante o sono) e 15% já dormiram dirigindo. Embora a proporção de acidentes à noite nas rodovias seja menor do que durante o dia (40% contra 60%, muito por conta do fluxo de veículos), a gravidade dos acidentes noturnos é maior: 60% são fatais.

Além da saúde, atividades cotidianas como pagar contas no banco, fazer compras no supermercado e malhar em academias de ginástica se tornaram mais complicadas. O problema se agrava quando os trabalhadores tentam usar o fim de semana para normalizar suas vidas, sair com os amigos, visitar parentes etc. “O corpo fica louco, não é possível estabelecer uma rotina com o corpo e as chances de doenças são ainda maiores”, completou Flavio Aloé.

Por outro lado, trabalhar no período noturno não apresenta só desvantagens. A Constituição Federal, no seu artigo sétimo, inciso IX, estabelece que a remuneração do trabalhador noturno deve contar com um adicional de 20% sobre o valor da hora trabalhada e a hora extra será 50% maior do que o valor do trabalho diurno. Além disso, uma hora é reduzida para 52 minutos e 30 segundos e o turno deve ser das 22h às 5h. Quando tratamos da zona rural os números mudam um pouco: na pecuária o turno de trabalho é das 21h às 4h e na agricultura é das 22h às 4h, isso porque o trabalho no campo já costuma ser iniciado mais cedo.

Além do salário turbinado, o trabalhador da madruga obtém algumas vantagens em relação aos profissionais comuns. Como a procura não é tão alta, arrumar um serviço no período noturno se torna um desafio mais fácil. A falta de contato com o chefe resulta numa maior autonomia do empregado. Caso tenha filhos, o trabalhador terá mais facilidades de arrumar algum familiar que possa cuidar dele durante a noite. O trânsito congestionado também deixa de ser um empecilho quando o trabalho é realizado à noite.

“Trabalhar de madrugada surgiu como uma opção para mim devido à concorrência no mercado de trabalho. Eu tenho que ajudar a arcar com as contas de casa e já estava sem emprego há muito tempo, fazia entrevistas e testes, mas nunca dava certo. Então fui alertado por amigos de que à noite haveria muito mais vagas e seria muito mais fácil arrumar um trabalho na minha área. Não poderia perder a oportunidade. Entre as vantagens do meu serviço, com certeza, a maior delas é o salário, que é consideravelmente superior à quantia que recebia quando trabalhava de dia”, avaliou Marino.

Existe uma série de recomendações que são feitas por especialistas para que se minimizem ao máximo os efeitos que atenuam os problemas de dormir durante o dia. As pessoas que dormem em horários não convencionais têm, por natureza, o sono mais curto e menos profundo, por isso, é necessário manter um ambiente tranquilo e sem claridade para dormir. Isso evitaria interrupções e manteria um descanso contínuo. É recomendável até o uso de óculos escuros no trajeto de volta do trabalho para reduzir a exposição à luz do sol. É importante também que seja estabelecida uma rotina para que o horário de dormir seja regular mesmo em fins de semana ou dias de folga.

A alimentação também é peça fundamental para a manutenção de uma vida saudável, mesmo com o trabalho noturno. Esses trabalhadores têm 40% mais chances de ter doenças digestivas, então uma dieta equilibrada se torna essencial. O quadro perfeito seriam três refeições por dias. A primeira antes do serviço, para se manter acordado, a segunda uma espécie de lanche da madrugada e a terceira depois do trabalho e antes de dormir, para evitar interrupções no sono.

Trabalhar à noite pode causar riscos graves à saúde, portanto é necessário exigir da empresa em que trabalha os direitos reservados a essa parcela de profissionais. Procurar um médico especializado no assunto também é essencial caso seja inevitável uma rotina diferenciada.

Em suma, o sono não é uma moeda de troca e respeitar as regras naturais do corpo, como acordar com a luz do sol e dormir no escuro da noite, são práticas fundamentais. A vantagem econômica de se trabalhar à noite não paga o preço de uma saúde debilitada e da falta de contato com parentes e amigos. Trabalhar de madrugada pode ser uma solução momentânea, mas deixar toda vida de lado para seguir essa rotina não é o melhor recurso.

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