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Bianca Benfatti e Thaís Folgosi

Imagine 5 mil pessoas vivendo em um mesmo espaço, com suas diferenças religiosas, étnicas e socioeconômicas que poderia perfeitamente representar a estratificação social de um país como o Brasil. E quantos funcionários são necessários para mantê-lo em ordem. Só mesmo o edifício Copan, com seus 1160 apartamentos para acomodar tal contingente de pessoas, além dos 104 empregados que ali trabalham, conseguiria a proeza.

Como cartão postal da cidade de São Paulo, o Copan, é uma das edificações mais curiosas do Brasil, seja pelo seu estilo arquitetônico inovador ou pelo interesse que atrai acerca de seus moradores. Não é a toa que a mídia busca, constantemente, fazer matérias e reportagens sobre ele.

O edifício Copan e suas curvas

Cobertura da mídia

O Copan, por ser um prédio histórico e reunir muitas pessoas de diferentes classes sociais em um mesmo local, desperta com frequência o interesse da mídia em geral. Programas de televisão estão constantemente à procura de novas pautas que serão gravadas nos corredores do Copan. Recentemente a atração “A Liga” da Bandeirantes, realizou uma reportagem no edifício com o enfoque em alguns excêntricos moradores. Entre eles estava uma bruxa (seguidora da seita wicca), uma modelo fotográfica, um fotógrafo dono do maior apartamento do prédio, o estilista das famosas, Valério Araújo e um grupo de pessoas adeptas ao amor livre. O síndico do Copan, Affonso Celso, foi um dos entrevistados pelo programa, porém não gostou da imagem que este trouxe. Comentou: “aquilo não foi um programa, foi um pesadelo. Não tem nada a ver com o Copan. Inclusive, a pauta feita era do melhor nível, mas o que fizeram ficou longe”. Ele prosseguiu relatando sua insatisfação em relação a escolha dos personagens: “o Valério é realmente o designer que mora no edifício. O restante não tem nada a ver. Como a parte do amor livre, o que as pessoas fazem dentro de quatro paredes, não sou obrigado a saber. Se isso afeta a área comum, já é outra conversa”. Concluiu: “o programa foi de um profundo mau gosto”. A respeito da imagem que “A Liga” passou Affonso analisou como negativa e chegou a recusar a gravação de uma segunda parte.

Affonso Celso expressou ainda sua opinião sobre o papel da mídia ao retratar o Copan, falando que nunca se perdeu a ênfase ao se fazer matérias sobre o edifício, porém a princípio eram todas negativas, “houve um programa de escândalo que se chamava “Aqui e agora”, do SBT, e que tinha como apresentador o ex-candidato a prefeito Celso Russomanno. Eles estiveram aqui uma ou duas vezes, mas sem sucesso nenhum. A partir daí as coisas começaram a mudar. Hoje, as mídias que recebemos são em sua maioria positivas”. A Globo também já fez suas visitas pelo prédio, o “Fantástico” realizou inúmeras vistas ao Copan por vários motivos. Afonso chegou a revelar “nós estamos preparando mais um programa que vai chamar a atenção do Brasil inteiro. Mas não posso falar o que será”.

Vida de síndico

A história do síndico Affonso Celso Prazeres de Oliveira e do Copan é uma relação de longa data. Há 20 anos ele se dedica diariamente ao edifício, sendo que mora ali, há 49 anos, desde que se graduou em engenharia química e administração de empresas. O que explica tamanha devoção? “Fazer aquilo que se gosta, e eu gosto daquilo que faço”, diz Afonso que continua, “abandonei tudo para me dedicar, mesmo porque eu tenho quase 50 anos da minha vida aqui dentro. Sou aposentado e não preciso disso, mas faço por amor, é dedicação total”. Claramente, Affonso sempre gostou de viver no prédio e nutre um amor que se reflete nos anos de dedicação pelo lugar.

As eleições para síndico ocorrem a cada 2 anos, e como em qualquer reunião de prédio, não é preciso estar presente a maioria dos moradores. Foi no ano de 1992 que ele se tornou, acidentalmente, o responsável pelo edifício, em um momento crucial para o futuro deste último. “Compareci a uma ou duas assembleias [de condomínio], tentando mudar as coisas, que estavam caminhando para algo como o fechamento do prédio. Já não havia extintor, os elevadores funcionavam precariamente. O prédio também estava sem segurança”, conta.

Affonso prossegue, “participei a pedido de um grupo, e como eu era neutro, nem a favor da administração na época e nem a que pretendia entrar, eu fui apenas para fazer a leitura das procurações”. Em uma votação que começou por volta das 20h e terminou às 4h da madrugada, os condôminos chegaram a eleger um síndico na época, mas o eleito permaneceu no cargo durante 3/4 meses. “Depois disso, ele viu o tamanho do problema e abandonou. Então me pediram para que eu assumisse como síndico, como administrador do prédio. E até agora, não consegui sair”, comenta o Affonso Celso.

Também, devido ao tamanho do prédio, seria sensato imaginar que Affonso divide o trabalho com outros, como se houvesse subsíndicos. Porém, ele afirma que “dirijo o prédio sozinho. Sozinho é uma força de expressão, há uma equipe que trabalha junto comigo, mas o comando é uníssono”.

Patrimônio da cidade

“O mais importante não é a Arquitetura, mais a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar”, frase de Oscar Niemeyer / Foto: Bianca Benfatti

A importância arquitetônica e sociocultural do Copan é evidente. O edifício é símbolo da prosperidade advinda do desenvolvimento dos anos 50 em São Paulo e também do Modernismo, tendo sido projetado pelo arquiteto mais celebrado do país, Oscar Niemeyer. Ele está em processo de tombamento, inclusive, a pedido do próprio arquiteto.

O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) é a autarquia encarregada do trabalho de preservação de todos os tipos de patrimônio do Brasil. Portanto, é a quem o síndico Affonso presta contas, mas ele lamenta “não existe no país uma filosofia/política voltada para o restauro, para a manutenção do patrimônio”.

Entre as dificuldades que enfrenta para a preservação, a maior está na questão de encontrar parceiras para ajudar nos custos de restauro e reforma. Ademais, Affonso comenta que diferente do Edifício Martinelli (localizado também no centro de São Paulo), não recebe ajuda da prefeitura de São Paulo.

Para não falar que jamais recebeu o auxílio da municipalidade, nos últimos anos, o síndico conta que, “o único apoio que recebemos foi do prefeito [Gilberto] Kassab, ao mudar o artigo 50 da lei da Cidade Limpa, com o decreto que assinou em 2010”. A lei consiste na proibição de todo e qualquer anúncio publicitário em imóveis, na cidade de São Paulo, mas a alteração do artigo favoreceu os prédios tombados que podem receber investimento através de propagandas em suas fachadas.

O projeto de restauração consiste na limpeza ou na troca das pastilhas que adornam a fachada. “Eu tenho que apresentá-lo, no Iphan, em Brasília, com dados históricos e físicos, como vai ser a restauração e apresentar os custos. Eles vão me ajudar a contratar [uma empresa]”, explica o administrador. Entretanto, para isso, é necessário financiamento, o que é difícil de se arranjar.

Segundo o síndico as reformas não afetam o bolso dos moradores, isto é, o pagamento do condomínio não aumentará devido à restauração da fachada, e relata: “como os 20 elevadores novos, que estão me entregando os dois últimos, os condôminos não pagaram um centavo. Colocamos gás encanado, com leitura individual, para todos os 1160 apartamentos, e foram 45 mil metros lineares de tubo de cobre que passam por dentro do condomínio para poder alimentar o gás das unidades, isso também não foi cobrado. Então as parceiras que eu consigo, ficam a favor do condomínio”.

Saiba mais:

O nome dado ao prédio significa: Companhia Pan-Americana de Hotéis, seguindo a ideia original de construir um hotel com 600 apartamentos. A sua construção começou em 1953 e terminou somente oito anos depois, em 1961. A forma sinuosa tem a marca do seu criador, Niemeyer tem paixão pelas linhas curvas, admiração que pode ser percebida em suas obras arquitetônicas na capital Brasília. Alguns números do Copan, os quais comprovam sua grandiosidade: são 1160 apartamentos no total divididos em seis blocos com aproximadamente 5 mil moradores, contando com uma área comercial de 72 lojas. O tamanho varia de acordo com o bloco, no A existem 64 apartamentos com dois dormitórios, no C e D têm 128 com três quartos e B, E, F têm 968 com um apenas. O preço do condomínio vai desde 160 até 640 reais, “Nós temos dezenove tipologias, tenho desde unidades com 26 m² até unidades com 240 m²”, comentou Afonso. Como são muitos os que habitam o consumo de energia e a quantidade de lixo acumulado é exorbitante. Segundo o síndico a média do consumo é de 600 mil litros, “chegou a ser de 1 milhão de litros, mas com os trabalhos que nós fizemos, conseguimos reduzir esse valor. Estamos em uma segunda etapa para diminuir até 460 litros.”

Em relação ao lixo, o problema é ainda maior. Affonso Celso afirmou que antes de começar sua administração, o número acumulado foi de três toneladas. Para diminuir essa quantidade ele resolveu optar pela coleta seletiva: “Comecei a realizar parcerias com algumas entidades, ONGs, dei sempre preferência para dedicação à área social. Tudo aquilo, com exceção do lixo orgânico, é destinado à reciclagem, não através dos órgãos públicos, mas sim de entidades particulares.” Atualmente são coletados no máximo 1600 kg, retirados uma vez por semana, todas as quintas feiras, sendo que pilhas e baterias são recolhidas uma vez por mês.

Como o prédio, além de habitacional, também possui uma parte comercial, a circulação de pessoas pelo local é muito intensa. Portanto a segurança precisa ser reforçada, “Nós temos atualmente funcionando 128 câmeras, e estão sendo ampliadas para mais 156. Possuímos uma sala de segurança, a qual controla tudo o dia todo.”, conta o síndico. Morar em um prédio assim não deve ser fácil, as reuniões de condomínio, por exemplo, acontecem uma vez por ano e reúnem em média 160 moradores. Uma quantidade muito ínfima se for pensado nos 5 mil existentes no total, para isso Afonso tem uma explicação: “O pessoal da preferência pra ver futebol, e se tiver alguma novela boa no dia da reunião estou perdido, porque as pessoas vão preferir assistir a novela.” Problema bem comum na maioria dos edifícios, porém acontece em maiores proporções no Copan. Aliás, tudo ocorre com essa magnitude neste populoso imóvel, inclusive como relata seu administrador o que mais incomoda são as brigas de vizinhos, as quais ocorrem frequentemente.

O síndico, Affonso Celso, e seu grande amor, o Copan

Uma curiosidade interessante sobre o Copan é que ele já ganhou dois prêmios do Guinness Book o livro dos recordes. O primeiro é por ser o maior prédio habitacional do Brasil com 115.000 m² de área construída, e o segundo por possuir o maior conjunto de apartamentos residências do país.

Entrar no Copan e entender tudo o que acontece dentro de suas sinuosas curvas, não é uma tarefa simples. Desvendar os mistérios de um prédio que reúnem tantas pessoas de diferentes classes sociais e modos de vida, fazendo-as conviver mesmo que só se encontrem no elevador, é complexo. Entender como um edifício com 5 mil pessoas é administrado por apenas uma há mais de 40 anos, é quase impossível.

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