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Por Julia Teixeira

Com o mundo de hoje totalmente globalizado e tecnológico, os indivíduos acabaram acostumando suas mentes a pensar de forma mecânica, em que tudo que se faz deve visar uma escala larga, grande, de projeção internacional. O que quase nunca se pensa é que nem tudo acontece dentro desses padrões, muitas pessoas de diversos lugares, inclusive aqui no Brasil, não veem o mundo dessa maneira veloz, como se ele fosse uma grande fábrica.

Um exemplo disso pode ser observado na pesca brasileira. Mesmo com a maioria dos barcos observados no mar atualmente sendo de grande porte e pertencendo a grupos renomados nesse meio (não só brasileiros, mas de empresas interessadas em exportar nossas mercadorias), ainda existem embarcações pequenas, que realizam essa atividade como forma de sustentar os próprios navegantes e suas famílias. Nesses casos, a venda de peixes e outros frutos do mar capturados só ocorre quando uma grande quantidade sobra, após a distribuição doméstica.

Embarcação usada na pesca da lagosta.

A maioria das “disputas” marítimas entre os pequenos e os grandes acontece nos povoados e vilarejos espalhados pelo litoral brasileiro. Um exemplo desse tipo de localidade é Guajiru, uma vila de pescadores localizada a 210 quilômetros de Fortaleza, capital do estado do Ceará. Habitada por mais ou menos 800 habitantes, a comunidade tira seu sustento de atividades como o artesanato, o comércio, o turismo, a agricultura familiar e, a mais importante, a pesca.

Praia de Guajiru, localizada no Estado do Ceará.

O tipo artesanal da última é o que mais se destaca entre a população. As aproximadamente 140 famílias ainda se dividem por sexos na hora de distribuir as tarefas de casa. Enquanto as mulheres “tomam de conta” (como se diz lá) do lar e dos filhos (as mais ousadas possuem seu próprio comércio), os representantes masculinos entram em suas jangadas e saem mar adentro a procura de comida para os que ficaram em terra firme.

Quando retornam, após mais ou menos quatro dias tendo somente sua jangada para abriga-los da chuva e dos “ataques de fúria” marítimos, uma verdadeira festa é montada em volta da comida trazida. Todo esse alvoroço foi motivado pelo fato de que o peixe, artigo tão tradicional da região, não tem sido encontrado em tamanha abundância como era antigamente. O motivo? O aumento da credibilidade do Brasil internacionalmente no ramo de fornecimento alimentício. Os produtos do país vêm sendo cada vez mais comercializados no mundo todo, o que aumenta um problema bem preocupante atualmente que é o da pesca predatória. Ela se define por retirar do ambiente uma quantidade maior do que a que ele consegue repor, ao contrário da artesanal, que visa somente o auto sustento. Sua prática é majoritariamente realizada pelas navegações comandadas por grandes empresas do ramo (tanto nacionais quanto internacionais), que visam também à exportação.

Um exemplo da amplitude das consequências desse pensamento tão grandioso sobre os povoados menores é o chamado Festival do Camurupim, evento realizado pelo povo guajiruense todos os anos, mais especificamente no mês de outubro. O nome escolhido é uma homenagem a uma espécie de peixe bastante frequente na região. Neste ano de 2012, ocorreu a quinta edição das festividades, porém com uma pequena diferença das edições passadas: o tão tradicional campeonato de quem pega o maior camurupim não aconteceu por conta da escassez desse peixe ultimamente.

Outro exemplo de como a pesca industrial afetou o Nordeste brasileiro é a chamada temporada de pesca da lagosta (estabelecida entre os meses de junho e novembro). Nessa época, os pescadores de todo o País tem permissão estatal para capturar esse fruto do mar, enquanto nos meses restantes, durante o denominado período do defeso, as lagostas teoricamente ficam livres da pesca, podendo realizar seu processo de desova em paz. Os pescadores cadastrados no sistema estatal recebem, enquanto estão parados, certa quantia referente ao tempo em que não se encontram no mar.

O Ceará é considerado um dos maiores produtores de lagosta do Brasil, e é por isso mesmo que possui certos limites mesmo dentro do tempo determinado para a pesca. Uma das regras formuladas para os pescadores cearenses é que essa atividade só pode ser realizada utilizando os manzuás, armadilhas artesanais construídas pelos próprios usuários. As redes do tipo caçoeira estão proibidas desde 2007. A outra restrição é que os animais capturados, independente da época do ano, devem ter no mínimo 13 centímetros quando forem do tipo vermelho e 11 centímetros quando se trata da lagosta verde.

O manzuá, armadilha construída pelos próprios pescadores.

Essa última frase contém, no trecho “… independente da época do ano…”, uma expressão utilizada frequentemente no ramo da pesca. Isso acontece porque, mesmo sendo proibido capturar lagostas entre os meses de dezembro e maio, uma boa parte das embarcações (a maioria pertencente a grandes empresas) perfura o sistema e realiza a pesca ilegal nesse período. Um dos motivos mais importantes para essa ocorrência é o de que a indústria (não só do âmbito pesqueiro, mas de todas as áreas) nunca para, não importa o que aconteça.  É preciso atender a demanda tanto nacional quanto internacional o ano inteiro, sem interrupções, caso se queira ter um bom lucro.

É possível notar que, mesmo existindo medidas estatais que tornam a pesca predatória ilegal, mostrando o quanto ela é destrutiva para a sociedade, esse tipo de atividade ainda predomina sobre a pesca artesanal, realizada apenas por pequenas localidades do litoral brasileiro. Um grande trabalho de conscientização tanto da população quanto das grandes empresas deve ser realizado antes de qualquer coisa, para que depois os padrões da atividade pesqueira se modifiquem em nosso País.

Um pensamento em “Pesca do Bem

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