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Por Carolina Piai

“O estresse é reconhecido como a doença do século 20 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e a maior epidemia mundial do século, segundo a Organização Mundial da Saúde. É estimado que cerca de 25% de toda a população irá experimentar os sintomas do estresse pelo menos uma vez na vida.”, introduz a pesquisa “Estresse em professores universitários da área de saúde”, de 2003, de Tatiana Rodrigues Corrêa Contaifer, Maria Márcia Bachion, Thaís Yoshida e Joaquim. As considerações das organizações certamente se estendem ao século XXI. Ao andar pelas ruas, o que não faltam são pessoas estressadas. Esse fenômeno não existe apenas na cidade de São Paulo, como, por vezes, imersos em nossa “bolha” social paulistana, possamos imaginar.

(Reprodução)

No Japão, por exemplo, foi criado o termo KAROSHI para designar as mortes decorrentes de excesso de trabalho. No site da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), esse conceito é definido como um quadro clínico extremo relacionado ao estresse ocupacional. Além disso, no portal da UFRRJ, é dito que o Ministério do Trabalho do país tem indenizado de vinte a sessenta famílias por ano por trabalhadores mortos dessa forma.

Já no território brasileiro, de acordo com pesquisas da International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), 30% dos profissionais sofrem de burnout, uma doença, ligada ao trabalho da pessoa, que corresponde a um nível de estresse devastador. Dentro do país, é comum imaginarmos que esses dados estão mais ligados às populações das megalópoles. Entretanto, a Dr. Carolina Borges, psicóloga clínica no Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS) em São Paulo, entidade pioneira na América Latina para o tratamento do problema sinalizado no nome, diz: “A gente fez alguns estudos em uma cidade chamada Santa Bárbara do Oeste e o índice de estresse da população local é igual ao das pessoas de São Paulo. O que muda? As fontes estressoras”.

Para definir a “doença do século 20”, a Dr. afirma: “Todo mundo tem estresse. Ele faz parte do ser humano e nada mais é do que uma reação psico-fisiológica do nosso organismo ao se adaptar a uma situação nova. A gente vivencia situações que precisam de adaptação frequentemente.”. Isso pode ser resultado de fontes externas, como a perda de alguém querido, ou internas, ou seja, a maneira como nos enxergamos, por exemplo. Portanto, esse tipo de comportamento é natural ao homem e só se torna preocupante após alguns estágios.

De acordo com Carolina, o estresse tem quatro fases: a primeira, a de alerta, corresponde à fase inicial e pressupõe um aumento de produtividade, libido e energia; a segunda se consiste na resistência em se adaptar, logo, o sono volta ao normal e a energia começa a se esgotar; a terceira, na qual o estresse passa a ser considerado negativo, resulta em prejuízos físicos mais contundentes, como o surgimento de doenças gastrointestinais, dermatológicas (uma das principais é a psoríase), entre outras; a quarta, por sua vez, é característica pelo aparecimento de transtornos (dentre eles a ansiedade e a depressão).

“O controle do estresse acontece através da alimentação, da atividade física (pelo menos cento e cinquenta minutos de atividade física por semana), do relaxamento (respiração diafragmática, que pode ser feita em qualquer hora do dia e em qualquer espaço físico) e das questões emocionais (da maneira como você percebe os outros a sua volta e você mesmo)”, explica a Dr. do CPCS. Quanto às questões emocionais, o controle sugerido é um tratamento psicológico.

Em relação à alimentação, há diversos itens que podem favorecer esse controle: o alface, que contém substâncias (como a lactucina e a lactupicrina) cujas funções são de calmantes; o espinafre e o brócolis,  preventores de depressão; a laranja, que funciona como relaxante muscular; a castanha do pará, auxiliar na melhoria dos sintomas de depressão; peixes e frutos do mar, que diminuem o cansaço e a ansiedade, juntamente com cereais integrais e chocolate (em quantidade moderada).

Gabriela Lerbach, 18 anos, mora em São Paulo e consome chocolate ao ficar estressada. Os motivos mais frequentes desse comportamento são, para ela, “cobrança excessiva, de você com você mesmo ou para com os outros, e muito trabalho na faculdade para fazer em pouco tempo”. Acrescenta ainda: “é óbvio que algumas coisas menores me cansam rotineiramente como o transporte público cheio e o trânsito. Ou seja, problemas de cidades grandes como São Paulo.”. Dentre suas consequências, encontram-se a gastrite e a enxaqueca.

(Reprodução)

Carolina se refere aos motivos mais constantes do estresse atualmente da seguinte forma: “Dentro dessa sociedade moderna em que vivemos, há muitas fontes de estresse. Existe uma pressão por estar sempre conectado e uma exigência interna de responder à altura todas as demandas – tenho que ter o corpo perfeito, o cabelo perfeito, uma boa maquiagem e tenho que ser um profissional excelente!”. Logo, demonstra que os motivos de Gabriela são contemporâneos.

Nota-se, então, a relação entre essas fontes estressoras e as autoridades (externa e interna) citadas por Freud, em “O mal-estar na civilização” (1930). Na obra, o psicanalista explica a consciência de culpa e, para isso, introduz essas duas autoridades. “À tensão entre o rigoroso Super-eu e o Eu a ele submetido chamamos consciência de culpa; ela se manifesta como necessidade de punição.”, é dito no livro.

O Super-eu corresponde à internalização da autoridade.  Para que isso seja entendido, é necessário expor que, para Freud, as pessoas são subordinadas às autoridades externas (seus pais, por exemplo), pois têm medo de perder seu amor. Assim, o conceito de “mal” é formado por uma influência externa, criada por essas autoridades. Portanto, quando um ser faz o mal, e é descoberto, é punido pela autoridade externa. Entretanto, no momento em que surge o Super-eu, até a consciência do ser humano passa a ser vigiada, de modo que não só mais pelos seus atos maléficos ele é castigado, como também pela sua intenção de fazê-los.

O fundador da psicanálise, no livro em questão, complementa: “a consciência mais rigorosa e vigilante é justamente o traço característico do ser moral”. Ou seja, quanto mais forte for seu Super-eu, mais adequado você estará aos padrões morais da autoridade externa, que, com tempo, de acordo com o pensador, deixa de seu seus pais e se torna a sociedade humana. Com isso, percebe-se o mecanismo pelo qual essa exigência interna, a qual Gabriela e Carolina mencionaram, surge.

Quanto ao trânsito, citado pela estudante, e à qualquer que seja o problema, a psicóloga diz: “tudo depende da maneira como você encara”. É nessa “maneira” que o controle estressor é exercido. “De acordo com a OMS, a cada dez doenças, 7 tem algum vínculo de alguma maneira com o estresse. Logo, aprender a manejar isso é de extrema importância.”, conclui a jovem.

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