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Por Bruna Mello e Patricia Zylberman

Em algum momento de nossas vidas, sempre teremos algum tipo de adversidade, seja física ou emocional. No segundo caso é bastante comum as pessoas procurarem uma palavra amiga, alguém com quem possa se aconselhar, ou até mesmo alguma leitura que seja sobre o assunto – ou seja, respostas rápidas para problemas desesperadores, como fim de relacionamentos amorosos, problemas familiares, falta de dinheiro e até mesmo problemas espirituais. Com isso, os livros de autoajuda são um fenômeno na área comercial da literatura, pois milhões de livros são vendidos e esse número tem aumentado cada vez mais. As pessoas consomem esses manuais por encontrar neles uma forma de se reciclar profissionalmente e até suprir lacunas de formação.

No Brasil, inclusive, é cada vez mais comum se ver editoras que se sustentam somente com as vendas de livros deste gênero. Por este motivo, torna-se extremamente interessante para o âmbito da comunicação e do consumo procurar compreender as razões que proporcionaram o sucesso deste tipo de livro. Vale lembrar também que a autoajuda é um ramo que movimenta bilhões de dólares por ano e não se remete apenas a obras escritas, mas também a comerciais, catálogos, fitas de áudio, palestras motivacionais e etc.

O termo autoajuda pode ser empregado como um indivíduo ou grupo de apoio que procura se aprimorar econômica, espiritual, intelectual ou emocionalmente. O primeiro livro desse gênero foi lançado no ano de 1859 e leva o nome de “Auto-Ajuda”. Nele, seu autor, Samuel Smiles, afirma que “o Céu ajuda aqueles que ajudam a si mesmos”, uma máxima repetida após por diversos autores de diferentes áreas do conhecimento.

A publicação de livros de autoajuda surgiu da descentralização da ideologia, do crescimento da indústria editorial usando novas e melhores tecnologias de impressão e no auge do crescimento, com as novas ciências psicológicas sendo difundidas. Igualmente, serviços de autoajuda legalmente cresceram em torno da expansão do acesso às tecnologias de proteção de documentos.

A Internet, e a sempre crescente seleção de serviços comerciais e de informação que ela oferece, é um exemplo do movimento em torno da autoajuda em grande escala. Essa integração produziu um novo tipo de instrumentos, como livros com um código único impresso em cada cópia para garantir que o leitor possa realizar um teste “on-line” que quantifique onde as suas habilidades se comparam nos conceitos ditados pelo livro. Mas na literatura foi com Dale Carnegie em 1930 que deu origem a categoria nas livrarias.

A expansão da autoajuda se deve, ainda, à popularização da psicologia. Em seus primórdios, os autores equilibravam-se entre o discurso místico e teorias calcadas no controle da mente. A autoajuda também dá continuidade a uma tradição que remonta às origens da filosofia – aquela que reflete sobre a natureza da “boa vida” e os caminhos que levam a ela. Com alguma licença, pode-se até dizer que Sócrates e Platão já faziam auto-ajuda ao discutir o que era uma existência feliz.

         Assim como as bilheterias de cinema em todo o planeta são lideradas pelos filmes de Hollywood, as tendências mundiais da auto-ajuda surgem e ganham força primeiramente nos Estados Unidos. Trata-se de um mercado imenso. O estrondoso sucesso do livro “O Segredo”, de Rhonda Byrne, é um exemplo disso. Quando foi lançado, em meados de 2007, o livro ficou diversas semanas nas listas dos mais vendidos, em todo o mundo, todos queriam saber qual era o grande segredo, a chamada “Lei da Atração”, que a publicação procurava desvendar e, para tal, até filmes e documentários foram lançados sobre o assunto.

         Outro livro desse gênero que foi um sucesso digno das grandes trilogias ficcionais, foi “Comer, Rezar e Amar”. A publicação narra, quase como uma biografia, as aventuras, que resultaram na mudança do modo de viver e ver a vida de sua autora Elizabeth Gilbert, durante um ano que tira para repensar sua existência. O sucesso foi ainda maior que o de “O Segredo”, sendo lançado após uma continuação do livro e um filme estrelado por ninguém menos que Julia Roberts.

Julia Blanque no lançamento de seu livro “Reencontro Com Você”: Foto: reprodução

É muito comum que os livros de autoajuda tenham um teor autobiográfico, como foi o caso de “Reencontro com Você”, da autora Julia Blanque. Ao ser questionada sobre o assunto ela afirma que: “um livro autobiográfico e baseado em fatos reais cria uma maior identificação com o público”.

O lema do negócio é que simplicidade e clareza são fundamentais no formato de um bom livro de autoajuda. É por isso que os capítulos não costumam ter mais que três páginas e, em cada uma delas, encontra-se pelo menos um intertítulo ou uma frase em destaque que resume a idéia que se quer transmitir.

Essa leitura fácil e sem complicações é um dos motivos pelo qual esse gênero é chamado de “cultura inútil”. Julia Blanque afirma que um dos motivos para que os romances de autoajuda sejam intitulados como inúteis é que: “Leitores mais elitizados, que leem Nietzsche, Freud, a própria história das civilizações, a psicologia, que gostam de antroposofia- ciência que busca o conhecimento do ser humano entre outros conteúdos teosóficos, os quais dão informações acerca do porquê das buscas humanas – estarão encontrando respostas e formulando as suas próprias chaves de autoconhecimento. O problema é que, em se falando de autoajuda e não se conhecendo história, conceitos de psicologia, filosofia e antroposofia, que dei como exemplo, escrever teses de autoajuda é de certa forma algo excepcional e inédito, para os leigos. Já, para os mais elitizados, temas de autoajuda não trazem novidades à sua bagagem cultural. É importante diferenciar autoajuda de autoconhecimento, este sim, um tema bastante forte, inserido desde as culturas antigas.

A terapeuta Vanessa Ritzel, declarou para o site Cyberdiet que “a proposta dessas obras é fazer com que as pessoas se sintam melhor, independente da conquista, seja profissional, ou pessoal. Mas na prática, não é bem assim. Todas as pessoas que buscam um método terapêutico para enfrentar um problema recebem a orientação de sempre pensar positivo para alcançar o sucesso, mas, dependendo do nível de estima da pessoa, essa prática pode ser desastrosa”, afirma.

Tabela da Veja em 2002 sobre os livros de AA / Foto: reprodução

Para analisar o sucesso crescente desses livros, a revista Veja fez uma análise em 2002, e concluiu que uma parte dos autores dos livros de autoajuda conseguem sintetizar um assunto complexo numa linguagem acessível. Já uma outra parte consegue sintetizar com uma boa metáfora o sentimento exato para aquele problema.  Sobre o assunto, Julia Blanque acredita que o sucesso dos livros do gênero de autoajuda são provenientes: “do próprio perfil do brasileiro, que por sua cultura e história, busca encontrar respostas, muitas vezes na religião, no misticismo, na espiritualidade, nas fórmulas e regras para ser feliz. Em outros países, cujas culturas são mais antigas, temas voltados ao conhecer-se tem procura reduzida, pois há muito embasamento filosófico e cultural enriquecendo e norteando valores como, disciplina, seguir horários, ter responsabilidade, cumprir regras. O resultado disso é uma população consciente, que sabe votar, as instituições públicas funcionam onde dificilmente existe o “dá-se um jeitinho”.

Desta forma,  temas de autoajuda e autoconhecimento permitem que valores importantes sejam resgatados e assimilados, além de transmitir esperança para um povo cheio de fé, como o brasileiro. Penso que a tendência mundial é, em uns três anos, temas como autoconhecimento (e não autoajuda) terão maior procura, principalmente pelos autores brasileiros.

Entre todos os motivos que levam os brasileiros a procurar um livro de autoajuda, o mais forte é a demanda por conhecimento. Uma pesquisa sobre os hábitos de leitura patrocinada em 2001 pelas principais entidades do mercado editorial mostra que a maioria dos brasileiros, ao contrário dos franceses, por exemplo, não visita uma livraria em busca de um livro que os entretenha. O público nacional deseja antes de tudo livros que lhe tragam informações úteis para o trabalho e a vida prática. A mesma pesquisa revela que o típico leitor do gênero cursou o ensino médio ou a faculdade (muitas vezes incompleta) e é quase sempre um assalariado pertencente às classes B e C, com rendimento familiar na faixa dos 500 aos 3.000 reais.

Ou seja, são pessoas em busca de ascensão social. Num país em que a qualidade do ensino nem sempre é das melhores, uma parcela desse público encontra nos livros uma forma de preencher suas lacunas de formação. Isso explica inclusive as vendas expressivas de obras que a rigor não são de autoajuda, mas cumprem um papel de enriquecer o repertório de seus leitores. Como é o caso de livros como “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos” ou “O Plano da Virada”.

Dentro do contexto pós-moderno, o grande sucesso dos livros de autoajuda se torna facilmente compreensível. Num período em que reinam os medos e as inseguranças, a autoajuda passa a ser o lugar no qual estes medos podem ser dissolvidos e os indivíduos podem encontrar elementos que os ajudem a pautar as suas vidas e criar suas identidades.

Na pós-modernidade se vive uma crise dos fundamentos. As pessoas não mais sabem no que acreditar e em que se embasarem para construir as suas filosofias de vida. As incertezas econômicas agravam ainda mais este problema. Se na modernidade havia ao menos uma tentativa de se criar um projeto coletivo aos quais os indivíduos podiam se inserir e gozar de uma tranqüilidade relativa em relação ao seu futuro, hoje os esforços devem ser unicamente individuais.

 

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