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Por Flávia Fernandes

“Ele disse que haviam coisas sobre ele que pessoas que nunca usaram psicodélicos – até pessoas que o conheciam bem, incluindo sua esposa – nunca poderiam entender” disse John Markoff, jornalista do New York Times e autor do livro What the Dormouse Said: How the Sixties Counterculture Shaped the Personal Computer. Lançado em 2005,  a obra reflete sobre a influência dos movimentos contra culturais na formação do mercado de tecnologia atual. Durante sua pesquisa, Markoff entrevistou vários personagens importantes desse cenário, inclusive Steve Jobs, fundador da Apple. Durante uma entrevista, Jobs declarou que usar LSD foi uma das duas ou três coisas mais importantes que ele já teria feito na vida.

Steve Jobs, co-fundador da Apple e o inovador computador pessoal

Dois anos anos após publicação do livro contendo essa declaração, Steve Jobs recebeu uma carta manuscrita enviada pelo cientista suíço Albert Hofmann – primeiro homem a sintetizar o lysergic acid diethylamide, em 1938. Nela, o senhor de 101 anos perguntava se Jobs tinha algum interesse em apoiar um estudo envolvendo o LSD e seu uso terapêutico. Além disso, o cientista  ainda mencionava sua curiosidade em aprender como a substância havia incentivado sua criatividade, sendo assim útil para o desenvolvimento dos produtos Apple.

Fundada em 1976, por dois amigos de infância, Steve Jobs e Steve Wozniak, a Apple Inc. sempre tentou refletir o espírito contestador da juventude dos anos setenta, apostando na inovadora proposta dos computadores pessoais. Em 1984 a empresa havia se estabelecido quando desenvolveu o Macintosh, o primeiro computador pessoal com mouse e interface digital. Nesse mesmo ano, veicularam a histórica propaganda dirigida por Ridley Scott e inspirada a obra 1984, de George Orwell. Ela mostrava um cenário dominado pela opressão onde uma mulher corria da polícia, mas no final conseguia fugir e derrotava o seu inimigo. A ideia da peça publicitária era apresentar a IMB – líder do mercado de informática na época – como opressora, pois produzia itens para as grandes corporações, e a Apple como libertária já que disponibilizava tecnologia ao povo.

Contudo, a empresa de Wozniak e Job representa um paradoxo: criou produtos libertadores que aprisionam, contribuindo para que haja um culto irracional a tecnologia. Em 2011, o publicitário dinamarquês Martin Lisdstrom, realizou uma pesquisa com 20 bebês de 14 a 20 meses de idade. Ele colocou nas mãos de cada uma das criança um aparelho BlackBerry, logo os bebê começaram a passar os dedos sobre a tela como se fossem sensíveis ao toque nos iPhones. Assim, toda uma nova geração está sendo condicionada explorar tecnologia a partir do ritual construído pela Apple. Lisdstrom ainda afirma a relação que as pessoas estabelecem com seus iPhones vai além do vício, mas sim amor genuíno. A pesquisa foi contestada por diversos neurocientistas que é impossível distinguir, através de análises de imagens do cérebro, a diferença entre amor e obsessão. Apesar disso, Jobs certamente extraiu de suas experiências com LSD o prazer proporcionado pela droga, além da sensação de conexão com o ambiente que está inserido e aplicou a confecção de produtos que fizeram da Apple uma das maiores empresas do mundo.

Jobs acreditava que era um artista e pressionava sua equipe de desenvolvimento a produzir sua arte. Apostando na inovação, a Apple usou há alguns anos frase “think diferent”, além de promover uma campanha publicitária com imagens de ícones vanguardistas que iam de Albert Einstein a Bob Dylan. Inspirado pela cultura alternativa, Jobs criticou sua concorrente Microsoft afirmando que a companhia não tinha ideias originais, além de não associarem cultura aos seus produtos. Porém, ao mesmo tempo que defende ideias revolucionárias, a Apple utiliza os velhos meios para garantir sua produção em grade escala: a empresa chinesa Hon Hai, responsável pela fabricação de diversos produtos Apple, registrou dez suicídios de funcionários em 2010. Em defesa da companhia, Steve Jobs declarou “Embora todo suicídio seja trágico, a taxa de suicídio na fábrica é bem menor do que a média na China”.

Mas não é só na China que os funcionários da Apple vivem sob pressão. “Assim como Jobs é extremamente exigente com seus subordinados diretos, os gerentes de médio escalão exigem o mesmo nível de desempenho do seu pessoal. O resultado é um reinado de terror” diz o jornalista Leander Kahney, autor do livro A Cabeça de Steve Jobs. Em 1987, Steve Wozniak, co-fundador da Apple, deixou a empresa pois estava cansado de ser pressionado por funções burocráticas. “Jobs fez a Apple ser diferente de todas as outras companhias daqueles anos, que hoje já estão esquecidas. Ele tinha uma paixão e uma intensidade como ninguém mais tinha. Queria fazer coisas importantes e não deixava ninguém ficar em seu caminho” afirma Wozniak. Mas a Apple não é a única a apostar em uma aparente postura alternativa para garantir o sucesso de sua companhia.

Escritório do Google em Zurique
Fonte: Reprodução

O Google foi fundado em 1998 e é resultado do ambicioso projeto de dois amigos de organizar toda a informação mundial para torna-la útil. Larry Page e Sergey Brin tinham plena consciência que para atingir seu objetivo precisariam trabalhar duro por mais de 300 anos, assim não perderam tempo para transformar o Google em um enorme aspirador de dados digitais. Para assegurar seu crescimento, o Google adotou o procedimento de que a criatividade vem de empresários individuais  (todos os funcionários tem ações da empresa e podem pedir reembolso para aplicar em cursos ou até mesmo na decoração de seu ambiente de trabalho) envolvidos na empresa que tem uma ideia inovadora mas não têm tempo para trabalhar nela. Então, inventaram o “conceito dos 20%” em que os funcionários dedicam parte do seu tempo em projetos que consideram estimulantes. Porém, o desenvolvimento de projetos pessoais usufruto dos espaços de interação entre funcionários só ocupam 30% do dia, os outros 70% deve ser dedicado exclusivamente as atividades principais de sua função determinada pela empresa. Pautada pelo lema “don’t be evil” (não seja malvado), o Google sempre priorizou uma espécie de cultura interna, assim os funcionários deveriam ter a personalidade certa para trabalhar na empresa. A percepção que os recém formados tem do Google é de um paraíso geek, assim a empresa recebe mais um milhão de currículos por ano. Os Googleplax são moldados para que o funcionário, ou googlers, se sinta o melhor e mais brilhante trabalhador. “O ambiente é fundamental em todos os sentidos, o ambiente físico é importante. Quando você trabalha em um ambiente confortável e funcional, o seu humor fica melhor e a produtividade aumenta. O escritório onde eu trabalhava era completamente aberto, é bom porque você partilha muito. É importante lembrar é que o ambiente de trabalho é um espaço de convivência. Assim, aproximar fisicamente diversos setores da empresa é positivo, pois incentiva a colaboração entre os funcionários” diz a psicóloga Nilce Pacheco, que atuou durante anos no setor de Recursos Humanos de uma importante multinacional.

O escritório do Google em Zurique, na Suíça é o maior escritório da empresa fora dos Estados Unidos. Criado pela Camenzind Evolution com o apoio de psicólogos e dos próprios trabalhadores, a estrutura da sede foi projetada com o objetivo de atender as necessidades do funcionário. O resultado é um espaço colorido, criativo e tecnológico. Há diversos ambientes temáticos interligados entre sí e para deslocar-se de um lugar ao outro o googler pode optar por tobogãs e canos como os usados pelos bombeiros. Porém, o ambiente criativo abriga um raciocínio extremamente lógico e funcional, a cultura Google é a cultura técnica – a empresa foi concebida do ponto de vista mecânico de um engenheiro.

Cansados de criar soluções somente baseadas em estatísticas, muitos googlers deixaram a empresa e migraram para uma nova companhia que aposta no conhecimento de amigos para organizar a informação. O Facebook de Mark Zuckerberg teve sua primeira cede na suíte H33 da Universidade de Harvard. Hoje, a empresa possuí mais de 3500 funcionários que ainda se abrigam quarto de Zuckerberg. Os escritórios do Facebook preservam características de um alojamento de estudantes: copos de café e papeis amassados se misturam com vídeo games e arte pelas paredes. O objetivo do projeto é preservar a identidade da empresa através da criação de campus inspirados nas instalações da Apple, Google e Microsoft, que priorizam conjuntos de prédios baixos com amplos espaços de convivência à arranha-céus. Crentes em sua filosofia de conhecimento compartilhado entre amigos, o escritório da companhia foi projetado para promover a interação dos funcionários com seus colegas e com o ambiente que os cerca.

Escritório do Facebook na Califórnia
Fonte: Reprodução

Todos esses projetos alternativos de ambientes de trabalho e filosofias corporativas tem um objetivo em foco: manter a produtividade da companhia. Um estudo realizado por Jasdeep S. Chugh e Theresa Kline confirmou que a construção dos escritórios tradicionais estressam os funcionários, limitam as relações entre colegas e ainda criam um conflito entre o trabalhador e seu ambiente, gerando distração e queda do desempenho e da motivação.

Assim, grandes empresas de tecnologia cuja grande parte dos funcionários são jovens lidam com esse obstáculo implementando o modelo de escritório aberto . “Eu acho que os escritórios abertos são uma tendência forte. As grandes multinacionais trabalham nesse formato. A Google é a mais inovadora, mas pra isso a empresa deve estar muito madura, pois cultura da empresa muito influencia o ambiente. Esse modelo facilita a fluidez da informação e faz com que as pessoas se sintam mais livres, conhecendo mais as diversas áreas que fazem parte da empresa” diz Nilce. Eles reforçam o trabalho em equipe, permitindo que colegas ajudem uns aos outros, já que não há barreiras que impeçam conversas durante o expediente como nos escritórios tradicionais. Além disso, projetos permitem a identificação do funcionário com a empresa. Em estruturas mais ambiciosas, como a do Google e do Facebook, os funcionários podem até interromper suas tarefas e usufruir de um espaço de recreação. Trabalhadores satisfeitos e com baixos níveis de estres são produzem mais em menos tempo e dificilmente se rendem as distrações. Desse modo empresas que trabalham nutrindo o mudo com o que há de mais moderno no setor digital encontraram tais modos de produção vanguardistas uma forma adaptar para os dias de hoje antigas linhas do produção eficiente, criando uma nova forma de conseguir eficiência e produtividade que mistura criatividade, capacidade e tecnologia. “É claro que, mesmo com essa proposta alternativa, a pressão do mundo de trabalho está presente, mas é importante lembrar que empresas são composta por pessoas, e essa deve estar voltada para o desenvolvimento de seus funcionários, pois quanto mais tranquilas e realizadas mais eficiente é o trabalho. Mas estamos em um momento de transição. Há a geração mais antiga que está acostumado com limites. Porém, a nova geração é mais aberta, assim, a empresa que não estiver preparada pra receber esses novos profissionais está ultrapassada” complementa Nilce Pacheco.

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