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Por Bruna Bravo

 

Eles são mais de 600 mil no Brasil, esquecidos na história do país, excluídos socialmente, desconhecidos na cultura nacional. Muitos têm preconceito contra eles, poucos os conhecem de verdade, quase ninguém os representa. Não são de lugar nenhum e, ao mesmo tempo, do mundo todo. Aqueles que chamamos de ciganos são, na verdade, não uma, mas várias nações.

O conceito de nação é muitas vezes associado ou até mesmo confundido com o de Estado. No entanto, eles não só se diferem como são igualmente independentes um do outro, ao passo que existem tanto Estados que abrigam diversas nações (a exemplo da Espanha), como nações sem Estado próprio, que é o caso das comunidades ciganas. O Estado se refere a uma organização política em que há uma entidade soberana que age sobre os cidadãos subordinados a esse poder central em um determinado território. Já por nação entende-se uma identidade coletiva de valores; o compartilhamento de uma língua, de uma história, de hábitos e de costumes, formando uma tradição cultural única que se reproduz nas gerações de um povo.

A falta de território não tira da cultura cigana a unidade. É justamente pela maneira única de “atuar” em qualquer que seja o país de estadia ou a forma de Estado a que está sujeito, que o cigano mantém o sentimento de nacionalidade. “Nós somos a exceção, somos uma cultura de 5000 anos sem escrita, mas com língua própria; sem pátria, mas com uma forma característica e inconfundível de ocupar qualquer território em que estejamos”, diz Pitris Claudino, 36 anos, brasileiro, profissional da área de vendas no mercado de Tecnologia da Informação e cigano descendente de Zíngaros Romaniís e ciganos Kaloh.

Entretanto, apesar de haver o sentimento de unidade, Pitris ressalta que o que generalizamos como ciganos, não é um grupo só. “A cultura cigana não é uma única, somos diversas nações diferentes, com certa unidade, mas que pouco se misturam”. Dentro do “ser cigano” se ramificam outras subdivisões étnicas: os Senti, os Kaloh, os Romaniís, os Kaldeirash, os Cintó, os Matchuaia e outros. Não se pode ignorar, portanto, as diferenças de costumes e interesses que formam cada nação cigana diferente. Mas é possível definir uma base na qual todas se sustentam. “Em linhas gerais há alguns pontos em comum entre estas diversas nações que podem ser considerados como questões elementares da cultura cigana”, explica Claudino.

História e cultura

“Era um acampamento cigano! No centro, mulheres com vestidos floridos cantavam agachadas ao redor da fogueira. Em volta dela, uma jovem dançava em círculos, de braços erguidos serpenteando acima da cabeça, as mãos graciosas girando no alto. Os homens, absortos em conversas, nem reparavam nas brincadeiras das crianças, que corriam por entre suas pernas. Os ciganos eram um colorido”. O trecho do livro de contos “Palavra Cigana”, de Florencia Ferrari, pode descrever um lado da cultura cigana, uma essência, essa “cor” que ela diz o povo ter, com tanta música e festa. Mas é também a imagem que todos fazem desse povo. Não que deixe de ser uma verdade e parte da cultura cigana, mas também não é seu todo. Os ciganos são um povo de história, tradição e luta.

A falta de escrita dificulta a recuperação da história da cultura cigana e, portanto, as fontes de informação e base de estudo são análises linguística e genética. A teoria mais aceita é de que a origem é indiana, possivelmente da região de Punjab. Um motivo para se acreditar nisso foi descobrir as semelhanças entre o romani (ou romanês) e o híndi, língua derivada do sânscrito e falada na Índia. A emigração teria começado há milhares de anos atrás. O nomadismo, ao contrário do que muitos pensam, não é somente cultural; grande parte deve-se essencialmente à dificuldade de integração social, à exclusão e até mesmo perseguição.

Claudino, que está em seu vigésimo primeiro endereço, afirma: “Não somos nômades, temos razões para estarmos sempre mudando, creio que a necessidade de trocas comerciais e o preconceito contra os ciganos são as principais; faz 5000 anos que somos expulsos dos lugares. Esta é a desinformação mais comum, não somos exatamente nômades”.

Além da língua, outros fatores dão unidade aos diversos subgrupos, formando o que é a cultura cigana. São eles, por exemplo, as comidas típicas que tem como base, principalmente, a carne de porco (Bulô em romani); as danças, que geralmente denunciam a origem e nação do cigano; as caravanas, que é a lógica das trocas comerciais feitas por eles; a devoção à Santa Sara Kali, a única Santa cigana do mundo; “e acima de tudo a música, a música e a música”, completa Pitris Claudino.

Um trabalho tradicionalmente conhecido como da cultura cigana é a quiromancia e a leitura de cartas. Essas práticas fizeram com que muitos ciganos fossem repudiados pela Igreja Católica e pelas diferentes religiões cristãs, sendo até mesmo perseguidos acusados de bruxaria e magia. No entanto, não se pode generalizar. “É um costume, mas não significa que todo cigano é vidente; pra nós é muito importante manter as tradições da sua família, por exemplo, meu primo Rodrigo é perfumista, sua família faz perfume há mais de 200 anos”, afirma Claudino. A própria família de Claudino é repleta de videntes e ele mesmo sabe fazer a quiromancia e leitura de cartas, apesar de não ser comum entre homens. “Quando for a hora, eu ensinarei ao meu filho; fazemos questão de preservar a tradição”, completa. Os casamentos arranjados também compõem o mosaico cultural da vida cigana. Para Claudino, são eles que preservam a cultura até os dias de hoje. Um homem só pode ser cigano se nascer cigano, uma mulher pode se tornar cigana se casar-se com um cigano e aceitar nossos costumes. O casamento entre ciganos é o que mantém as tradições e ritos fortes, sem que se desfaçam, se misturem ou percam a força de geração pra geração.

Preconceito e exclusão

No Brasil não vemos muita referência, notoriedade e respeito à cultura cigana, como se essa não existisse aqui. Acredito que muitos brasileiros, inclusive, nem devem saber da existência de população cigana no país. Mesmo entre as minorias, ela é uma das menos citadas. Até mesmo na história a cultura cigana é esquecida e excluída. Na história do mundo, quase quinhentos mil ciganos europeus também foram exterminados nos campos de concentração nazistas; na história do Brasil, fizeram parte da construção da nação juntamente com negros em índios, no século XVI. O povo cigano claramente sofre com problemas de inclusão na sociedade. Muitos os olham com desprezo, acreditando ser vagabundos, ladrões, prostitutas e desocupados. Como lembra Claudino, “nem todos ‘nômades’ de saia colorida pedindo para ler a mão no Centro da cidade é cigano de verdade. No Brasil muitas pessoas adotaram a forma de vida cigana, mas não tem o conhecimento dos costumes, dos ritos, da língua ou da música”.

Certamente é a falta de informação e de conhecimento que alimenta o preconceito, os estereótipos e a desconfiança. Muito é dos Estado que não os protege, muito é da falta de divulgação, da pouco interação e mistura entre culturas, muito também é por falta de interesse dos demais. Porém Claudino lembra que parte da culpa são deles próprios, ciganos: “o preconceito é sempre fruto da ignorância, mas no nosso caso, tenho impressão que contribuímos para isso, na medida em que nos mantemos muito fechados”, admite.

“Isso está mudando, tenho a impressão que as novas tecnologias fez com que os filhos das famílias tradicionais estão mais propensos à divulgação de nossas atividades. Algumas coisas permanecem fechadas e permanecerão, como a língua, que não possui uma publicação conhecida de estrutura gramatical ou dicionário, mas que é usada amplamente no dia a dia da colônia”, completa ele.

A divulgação da cultura, especialmente com a ajuda das novas tecnologias, é fundamental para acabar com a ignorância e desinformação, que geram o preconceito e a exclusão. Nesse sentido, ciganos têm colocando seus filhos em escolas, o que permite a eles a interação com demais culturas e com a nação na qual vivem, desde pequenos. “Temos nos unido e nos organizado no sentido de buscar, mais do que uma reparação, uma forma de garantir maiores oportunidades e possibilidades para os meus filhos e os filhos dos meus filhos”, garante Claudino.

Representatividade

A assistência e cuidados com a cultura cigana devem se dar também por parte de órgãos maiores de representatividade da comunidade, inclusive em termos nacionais e até mesmo mundiais. Ou seja, ter forte atuação junto ao poder público, a fim de garantir direitos que propiciem aos ciganos o exercício da cidadania no país que estão. Como exemplo, Claudino ressalta: “posso destacar a ajuda de três parlamentares em Brasília, Paulo Paim, Erika Kokai e Tiririca, que se preocupam com as causas ciganas”. Entre essas causas estão a garantia de que as crianças ciganas em idade escolar possam realizar transferência de escola fora dos períodos padrão; o atendimento no Sistema Único de Saúde sem documentos; e também tem se buscado e revindicado terrenos que são utilizados pelas caravanas ao longo dos últimos dois séculos, no interior do Brasil.

Há também aquelas entidades e associações que estão mais próximas do povo cigano, como é o caso, por exemplo, da APRECI-SP (Associação de Preservação da Cultura Cigana do Estado de São Paulo). Essa, entre muitas outras, tem como o objetivo, assim como relata em seu Estatuto Social, no capítulo I, artigo 4˚: “zelar pelos interesses coletivos, morais, culturais, sobretudo para a formação, ampliação e difusão da cultura Cigana em todo Estado de São Paulo”. Faz isso, por exemplo, melhorando a integração do povo cigano com a sociedade e assim diminuindo a discriminação e marginalização; auxiliando ciganos menos favorecidos; facilitando o acesso aos órgãos governamentais; ajudando com benefícios médicos, odontológicos e até descontos em universidades. Isso tudo tirando o cigano da marginalidade, exclusão e preconceito e fazendo o que mais necessário: a geração de conhecimento.

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