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Por Carolina Veneroso

“Tirar o Brasil do atraso”. Este era o projeto a ser realizado pelo governo Juscelino Kubitschek a partir de 1956 em Cubatão, município do Estado de São Paulo, localizado na Região Metropolitana da Baixada Santista, próximo à Serra do Mar. Surgiram, então, muitas indústrias, responsáveis por transformações no ramo petroquímico, siderúrgico e de fertilizantes. Começaram a interferir, direta e indiretamente, na cidade, sem se preocupar com o meio ambiente e com a saúde da população. Desde então, a fonte de renda de Cubatão é o pólo industrial. Essa despreocupação com o entorno rendeu à cidade o cognome de “Vale da Morte”, principalmente a partir do início da década de 80, quando muitas crianças começaram a nascer anencefálicas em Cubatão. A cidade vivia um caos quando, em 1983, a CETESB (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) começou a tomar atitude a fim de tentar recuperar a qualidade de vida na região. Hoje, Cubatão é conhecida como “Vale da Vida”.

Hoje, quando se pensa em Cubatão, muitas vezes se esquece de que lá vivem pessoas, crianças, adultos, idosos, e que lá não é uma cidade só de indústrias. No passado, muitas pessoas tiveram e têm até hoje a saúde prejudicada, muitas faleceram. Exemplo disso é o famoso “Caso Rhodia”.

Em 1966 a unidade da CLOROGIl começou a produzir em Cubatão solventes clorados e fungicidas clorados. O processo produtivo liberava cerca de 26 toneladas/dia de resíduos tóxicos. O Pentaclorofenol foi usado largamente como agrotóxico. Em 1974, começaram a ser produzidas cerca de 8.400 toneladas/ano de Tetracloreto de Carbono. Três mil e seiscentas toneladas/ano de Percloroetileno e 26.000 toneladas/ano de Ácido Clorídrico, gerando 500 toneladas/ano de resíduos tóxicos, principalmente hexaclorobenzeno – HCB – e hexaclorobutadieno – HCBD. Além disso, a produção gerava resíduos como o Tetraclorobenzeno, o Clorofórmio e o Tricloloetileno. Todos esses números são altíssimos. A indústria passou a ser chamada de RHODIA.

De 1966 até 1978 a unidade de Cubatão produziu Pentaclorofenol, mas foi apenas em 1978 que a população tomou conhecimento das intoxicações dos trabalhadores, embora já viessem ocorrendo há mais de dez anos. Os trabalhadores relatam que desde o primeiro dia na indústria já se sentiam mal, alegaram sentir dores de cabeça, tontura e ardência na garganta e no nariz, mas, com o passar do tempo, os sintomas foram ficando piores, manchas escuras na pele, alterações hepáticas e no sistema nervoso, muitos apresentavam hepatite crônica e feridas pelo corpo.

Os resíduos eram enterrados na própria área da RHODIA e, quando não houve mais espaço, os resíduos passaram a ser jogados fora da fábrica, nas águas do Rio Cubatão, até mesmo no meio das estradas. Áreas urbanas começaram a ser contaminadas. Moradores de São Vicente, Itanhaém e Vale dos Pilões foram contaminados diretamente com os resíduos que eram jogados pela RHODIA. Moradores que viviam em pequenos sítios, onde cultivavam grande parte de seus alimentos, tiveram tudo contaminado. Uma inspeção realizada nesses locais descobriu os “lixões químicos” feitos pela RHODIA. Até que ocorreu a morte de um funcionário da RHODIA, causada por cirrose hepática, que é provocada pelo Pentaclorofenol.

Só em 1986 a RHODIA atendeu as reivindicações dos funcionários, através de uma carta assinada na Delegacia Regional do Trabalho. Contam os funcionários que essa carta só foi assinada porque um funcionário, desesperado com a sua saúde, ameaçou se jogar da janela do edifício da Delegacia Regional do Trabalho.

Outra morte ocorreu em 1993, mas dessa vez a morte teria sido por intoxicação por hexaclorobenzeno. O químico pode prejudicar o fígado, tiróide e rins, bem como os sistemas endócrinos, imunológico, reprodutivo e nervoso. Começaram a ser feitas vistorias por toda a empresa, desde fotos até amostras do solo que confirmavam que o solo da RHODIA estava contaminado por clorofenol e hexaclorobenzeno, o que faz o terreno ser considerado um enorme lixão químico ao qual os trabalhadores estavam expostos.

A gravidade do problema, já que se verificou a absoluta impossibilidade para existência da vida humana no local, é apontada através do fato de que todos os empregados da RHODIA estão contaminados pelo hexaclorobenzeno. Tudo isso fez com quem, no dia 7 de junho de 1993, a justiça de Cubatão determinasse a interdição da unidade química da Rhodia.

O funcionário da RHODIA Marcio Mariano – hoje afastado –, membro da ACPO e contaminado por hexaclorobenzeno, afirmou que seu tratamento foi bem complicado e demorado. Ele engordou muito, e não podia emagrecer rapidamente pois o poluente iria para o sangue e ele iria morrer.

Para a ACPO, as mudanças contra a poluição e em favor da saúde pública aconteceram sim, mas de uma maneira “visível”, isso faz com que a situação de saúde no município seja muito mais grave do que a população percebe ou acha. João Ramalho, 65 anos, morador de Cubatão há 50 anos, afirma que não sofre com a poluição da cidade, diz que a poluição não interfere em nada na sua vida. Ele trabalhou na RHODIA e é um dos contaminados por hexaclorobenzeno até hoje.

Segundo Marcio Mariano, Cubatão é um caos à noite, porque nesse período não há controle sobre a poluição, o controle é feito somente à luz do dia, para que as pessoas possam ver, e achar que algo está mudando. Por exemplo, a instalação de filtros nas chaminés das indústrias, que fazem com que a fumaça tenha aquela cor branca, e que antes era preta, cinza. Trata-se de transformação visível, qualquer um que passa pela estrada que liga Cubatão a Santos ou ao Guarujá percebe a fumaça branca.

A instalação de equipamentos de controle de poluição, por parte das indústrias, os investimentos feitos nesta área, a propaganda maciça com fotos do guará-vermelho e a volta dos peixes ao estuário fizeram com que a população acreditasse que não há mais poluição na região da Baixada Santista. Moradores seriam “iludidos” por tal tipo de propaganda enganosa, pois a poluição de muitas décadas continua lá (no solo, no fundo do estuário, nos lençóis freáticos, no mangue, nos peixes, etc.).

É inegável que mudanças ocorreram, mudanças que fizeram Cubatão ser considerada “Cidade Símbolo da Recuperação Ambiental” pela ONU. No entanto, mudanças que parecem ter acontecido mas não aconteceram estão relacionadas aos funcionários contaminados. Só porque a RHODIA está fechada e não produz mais, não significa que inexistam pessoas contaminadas precisando de tratamento. A mudança é que a RHODIA fechou, mas os contaminados continuam lá, fazendo parte da saúde pública, pois todo brasileiro tem direito a uma consulta ao médico independente de sua renda.

João Ramalho está contaminado para sempre e sua saúde foi prejudicada, por isso, ele sempre vai aos postos de saúde da cidade. Postos de saúde os quais elogiou, afirmando que “antes não havia postos na cidade, mas hoje há em todo lugar”. No entanto, João alegou que, quando chega ao consultório e relata seus sintomas, dizendo que é um contaminado, muitos médicos têm “medo” de atendê-lo. Indicam-lhe outro profissional médico, ou simplesmente lhe dão uma injeção que dizem ser “a cura para tudo”.

Será que tal fato embute um “preconceito”? Segundo João o médico tem medo, medo de ser contaminado.  Contudo, sabe-se que não é esse tipo de medo que os médicos têm. Na verdade, trata-se do medo de “manchar” seu nome, de afirmar que um paciente está contaminado por hexaclorobenzeno e manchar o nome da empresa.

Muito foi feito para a melhoria de vida na cidade, da saúde pública e do meio ambiente. Mas ainda há muito o que ser feito. Hoje, as indústrias não podem despejar seus resíduos em qualquer lugar, isso é muito bem controlado, mas as indústrias continuam fazendo mal para as pessoas e para o meio ambiente, afinal, uma indústria que não traz danos ao meio ambiente ou ao ser humano ainda está bem longe de existir.

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