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Por Júlia Paolieri e Thaís Folgosi 

As eleições municipais nos 345 municípios do Chile no dia 28 de outubro apresentaram surpresas: aparentemente o eleitorado está descontente com a frente de direita do presidente Sebastián Piñera e procurando mudanças. Além disso, esta foi a primeira eleição com voto facultativo, e registrou 70% de abstenção, além da vitória da oposição centro-esquerda, o que mostra as tendências eleitorais para os anos seguintes.

Eleições municipais

Propagandas eleitorais das eleições municipais chilenas, deste ano

As eleições de 2012 para se definir os prefeitos e vereadores que governarão as comunidades do país nos próximos quatro anos, marcou a perda da direita de importantes prefeituras por todo o país. Segundo os números divulgados, a oposição que reúne socialistas, social-democratas, democrata-cristãos e, em alguns distritos, o Partido Comunista obteve 43% dos votos, contra 37% do partido de direita, no poder com o atual presidente Sebastián Piñera.

Cristián Labbé que era prefeito da comunidade de Providencia há 16 anos perdeu-a para Josefa Errázuriz. O polêmico ex-militar que defendia publicamente o ditador Pinochet, não reconheceu a vitória da candidata da oposição. Além disso, outra derrota de destaque foi de Pedro Sabat, do partido direitista, Renovación Nacional, que estava no poder da região de Ñuñoa por mais de uma década, para a socialista e neta de Salvador Allende, Amaya Fernandéz. Assim como também ocorreu na prefeitura da capital, Santiago, obtida por Carolina Tohá, do PPD. Enfim, claros exemplos de que a população está insatisfeita com os partidos de direita.

Abstenção

Esta é a primeira eleição em que as leis de inscrição automática e voto voluntário entraram em vigência. A primeira significa que todo cidadão chileno, ao completar 17 anos está automaticamente capacitado a votar, e a segunda, refere-se que os aptos a votar não são obrigados a fazê-lo.

Propaganda governamental para incentivar o voto

Um alto nível de abstenção foi verificado, isto é, houve uma ínfima participação da população, em que mais de 55% dos 13 milhões de eleitores preferiram não exercer seu direito de votar. Outros dados estatísticos apontam que a cada 10 pessoas, apenas 4 votaram, sendo que na última eleição (para presidente) e em que o voto era obrigatório, a cada 10 pessoas, quase 9 votaram.

Segundo especialistas, o eleitorado chileno se mostrou com apatia desânimo, o que indica outra evidência de como o povo chileno está aborrecido com o seu cenário político. A estudante chilena, de 18 anos, Valentina Salomé Cornejo que não votou, vê a situação como “um caso que iria acontecer no país, já que como todos sabemos a política chilena deixa muito a desejar”. Portanto, a perda de interesse pela vida política e de exercer um direito e um dever de todo cidadão, o de votar, era um resultado iminente.

Eleições presidenciáveis

A ex-presidente, Bachelet, e o atual, Piñera: a velha disputa entre esquerda e direita

Em 2 anos (2014), o Chile volta as urnas para eleger outro presidente. Os possíveis candidatos já estão quase certos, e são eles: o economista Franco Parisi, a ex-presidente Michelle Bachelet, o ministro da Mineração Laurence Golborne e o 3º colocado nas últimas eleições presidenciáveis E. M. Ominami.

As eleições municipais foram um teste para o atual governo, por terem sido as primeiras ocorridas desde que o atual presidente venceu, em 2010. O próprio presidente Sebástian Piñera, que tem 57% de rejeição, reconheceu a importância delas em entrevista ao jornal chileno La Tercera, em dezembro de 2011: “a eleição municipal é um desafio, um passo prévio aos presidenciáveis”. Fato consumado é que as últimas escolhas municipais, em 2008, em que a direita triunfou, foram primordiais para sua vitória na presidência, em 2010.

Como dito anteriormente, mesmo a singela porcentagem de 30% da população que fez questão de votar nas eleições municipais, elegeu candidatos da oposição e de centro, derrotando os partidos conservadores. O que evidencia uma direita desgastada e materializada na figura de Piñera. Os próprios candidatos desta preferiram não se vincular ao presidente em suas propagandas eleitorais, com receio de se prejudicarem. Conseqüentemente, a continuidade de sua coligação no poder parece ter um final marcado para 2014.

A ex-presidente do país, Bachelet, que governou o país de 2006 a 2010, hoje diretora da ONU Mulheres, tem 76% de aprovação do povo e apesar da não ter se manifestado é provável que volte dentro de meses ao Chile para assumir a candidatura presidencial. Já o ministro da Mineração Laurence Golborne, tem 14% de aprovação, foi o principal líder do resgate dos 33 mineros soterrados na mina San José, em 2010. Franco Parisi, candidato de menor expressão, ficou conhecido por suas análises econômicas na televisão e na rádio. Já Ominami, é ex-deputado federal, que após se desvencilhar do Partido Socialista fundou o Partido Progressista, e que concorrerá mais uma vez ao cargo de presidente. Apesar disso, a estudante Valentina acredita que “ainda assim falta muito para haver um presidente decente. Talvez sejam necessárias caras novas na política chilena”.

Histórico político

O ditador Augusto Pinochet

A história governamental do Chile foi marcada pelo longo período de ditadura militar que o país sofreu a partir do golpe de estado de 11 de setembro de 1973 pelas Forças Armadas do Chile, chefiada pelo general Augusto Pinochet, com apoio dos Estados Unidos.

O então presidente Salvador Allende, eleito em 1970 representando a Unidade Popular, agrupamento formado por socialistas, comunistas, setores católicos e liberal do partido Radical e do Partido Social Democrata, que contava com grande apoio dos trabalhadores urbanos e camponeses, pretendia “construir uma sociedade socialista em liberdade, pluralismo e democracia”.

No entanto, três anos depois que Allende assumiu a presidência, reações conservadoras ganharam forças. O ataque ao Palácio de La Moneda, onde Allende resistiu e acabou assassinado, completou a vitória da extrema direita com apoio da CIA sobre as forças populares chilenas, colocando Pinochet como o novo Presidente da República em 1974.

O governo de Pinochet ficou marcado como um dos mais violentos regimes ditatoriais latino-americanos, com cerca de 60mil pessoas mortas ou desaparecidas.

Depois de 14 anos no comando do país, Pinochet foi derrotado em plebiscito que rejeitou o prolongamento da sua presidência através dos protestos “no” (não). Com o fim da ditadura militar, o Chile teve em 1989 suas primeiras eleições desde 1970, e o novo presidente eleito foi o representante de centro-esquerda, Patrício Aylwin. O país entrou em um processo de redemocratização marcado pela denúncia e punição dos militares envolvidos com crimes políticos.

Isolamento econômico

 Durante o período militar, o Chile adotou um modelo neoliberal, focado na política econômica que foi mantido pelos governos seguintes, e tornou a economia chilena conhecida internacionalmente como a mais sólida da América Latina.

O Chile mantém uma política de redução de tarifas e de eliminação de barreiras comerciais, assim é o país com maior número de tratados de livre comércio, e devido ao seu caráter exportador, fixou acordos comerciais com vários países, entre eles a Comunidade Andina e Mercosul (Acordo de Complementação Econômica), Nafta (Tratado de Livre Comércio), União Europeia (Acordo de Associação Política), entre outros. Basicamente, a economia chilena caracteriza-se por ser voltada para as exportações.

Conforme explicação de Cairo Junqueira, mestrando em Relações Internacionais, mesmo não fazendo parte efetivamente de nenhum mercado comum, o Chile participa não como membro associado de blocos econômicos de cooperação multilateral como o APEC que reúne a África e Pacífico, mas, são principalmente os tratados de livre comércio e de cooperação bilateral (entre dois países) que fazem com que a economia chilena seja uma das mais estáveis da América do Sul.

Cairo explica que se no ano de 2013 o novo presidente for de centro esquerda, uma ‘mudança’ previsível no cenário e mercado interno do Chile será um diálogo mais fácil entre o governo central e a maioria das prefeituras, que são em grande número de esquerda também.

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