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Por Bruna Mello e Vanessa Ramos
“São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever (…)
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita”
 Trecho da música ‘Não existe amor em SP’ –  Criolo

Augusta não é mais lugar, é nome próprio, é personagem e diria mais, protagonista da cultura paulista.

Lá encontramos muitas das mazelas de nossa cultura, uma juventude entregue aos vícios, a luta de cada um para sobreviver como pode: o segurança da boate, a prostituta, os vendedores ambulantes.

É também palco de um grande fenômeno de união de tribos, é ponto turístico da cidade, porque além dos serviços, as ideologias se transpõem, na Augusta, paradoxais mas não contraditórias.

 História pra quem tem história

Foto: reprodução

No fim do século XIX, a Rua Augusta nada mais era que uma trilha ligando uma chácara – na região da Rua Dona Antônia de Queiroz -, à atual Avenida Paulista. No fim dos anos 50, a via se transformou na rua dos endinheirados, com um comércio de produtos finos. Nas duas décadas seguintes, os cinemas e lanchonetes da região viraram um atrativo para os jovens. Após o auge, veio a decadência. A região se tornou a rua da prostituição em São Paulo e, com isso, começou a desvalorização imobiliária. Com os baixos aluguéis se abriu um espaço para o surgimento das casas alternativas como o Der Temple.

Essa história é bem contada no curta-metragem de Carlos Reichenbach (1966 / 1968). O documentário registra, de forma irônica, o cotidiano de uma das ruas mais conhecidas da cidade de São Paulo e centro comercial

de classe média alta. O filme centra sua atenção no pintor naif Waldomiro de Deus, cuja irreverência da obra e comportamento, se chocava frontalmente com o universo burguês dos frequentadores do local.

A Paulista é, literalmente, um divisor de águas:

  •  ALTA AUGUSTA

Do lado ímpar encontramos lojas caras, marcas importadas, madames, choferes, jovens que bebem socialmente alguma cerveja especial artesanal, talvez vinhos em dias frios.

A rotina durante o dia é ver vitrines, atualizar-se com a moda, tomar um chá, comprar talvez um novo livro. A região da Alta está próxima a tão famosa Oscar Freire, que possui calçadas largas, seguranças por todas as lojas, socialites passeando com seus cachorros tranquilamente.

Foto: reprodução

Em setembro deste ano, o cantor Luan Santana em parceria com o empresário Marcos Buaiz abriu uma balada sertaneja na Augusta em meio a tantas outras baladas alternativas. A Rua que anteriormente se caracterizava por uma contracultura, atualmente está recebendo não só Outlaws, como também outros gêneros popularmente mais aclamados pela mídia. A Ballroom (balada de gênero eletrônico) é uma das novas casas que abriram recentemente na Alta Augusta e que envolve um público de classe média/alta devido aos preços elevados, que se justificam pelo capricho na decoração, repleta de dourado e belos lustres pendendo do teto em seus poucos ambientes.

Mesmo nesse padrão mais elitizado, a essência musical e de rebeldia trazida pela noite na Rua Augusta se mantém até mesmo em sua parte “alta”. Os frequentadores das lojas ainda são os alternativos. E tanto o design quanto as roupas que são vendidas se diferenciam das lojas que encontramos em shopping, por exemplo. A Galeria Ouro Fino é um point tradicional tanto na moda como na música que existe na Augusta. Foi inaugurada em 1961, e possui 110 lojas que vão desde tatuagens e CDs a roupas e acessórios.

A Augusta é o lugar dos exageros. Em muitos lugares podemos encontrar bebidas, drogas, prostituição, mas em nenhum deles você encontra naturalidade em tudo isso, e é este o motivo dos olhares tortos daqueles que têm tanto pudor.

  • BAIXA AUGUSTA

 Descendo a Augusta pelo lado par da Paulista, a realidade brasileira se apresenta: a baixa Augusta é um mix de tudo que pertencente à cultura dos excluídos. Ou pelo menos costumava ser, e talvez essa seja a maior crítica à mercantilização vivida na Augusta: fazer da contracultura um mercado.

“É a morte de uma ideologia” diz Laura T., que frequenta a rua desde os 16 anos, e hoje com 21, acredita que a Augusta passou por muitas mudanças que segundo ela, descaracterizaram a Rua: “A Augusta passou por muitas fases, e apesar da invasão da cultura de massa, que eu considero alienada, ainda temos o nosso recanto, o lugar onde encontro sempre meus amigos, onde só toca punk, rock… música da boa, sabe? De protesto”.

Foto: reprodução/fotolog

 A Rua concentra um grande número de pessoas, principalmente de jovens nos finais de semana. O público é alternativo, assim como as músicas que tocam nos lugares: rock – clássico, indie, punk – como no Beco 203, Bullet, Inferno Club, Outs , como Lab Club, MPB (Studio SP, Tapas Club). O rock é o gênero mais concentrado na rua, pois muitas bandas undergrounds tocam por lá, além de grupos punks, e skinheads. Aliás essas duas tribos frequentaram muito as páginas dos jornais no começo do ano dois mil, eram muitos os episódios de confronto entre eles, que resultavam em mortes, e causavam frisson nos possíveis visitantes, essas tribos de certo modo, homogeneizaram a Rua, estabelecendo-a como palco destes confrontos.

Há dois anos, Felipe Leme organiza eventos em casas noturnas da baixa Augusta (lugares como o Inferno) e a respeito da inauguração do espaço na Rua, Felipe diz que é difícil se estabilizar devida alta competitividade, são muitas as casas e clubes noturnos, é grande a oferta, mas trabalhando “um público especifico de uma forma massiva, dá pra ter bons rendimentos” afirma. Quanto às mudanças do público frequentador da rua, Felipe vê com bons olhos: “mudanças são sempre positivas, e a cada dia a rua engloba mais “tribos”, até sertanejo está rolando por lá… Essa ‘revitalização’ é bem legal” e conclui, “a cara da rua é a diversidade”.

A Rua plasticamente se adequada aos jovens que buscam a overdose (de drogas, sexo, bebidas); aos dinossauros do rock que ainda se veem meninos; aos homens e mulheres que precisam daquele meio insano pra ganhar a vida; aos artistas que visam quebrar barreiras − e não há meio mais propício ao novo, quanto a Augusta.

Muitas letras de punk e rock exaltam as proezas dos garotos classe média que saem pela Augusta, se divertindo, bebendo e voltam pra casa, pra zona sul provavelmente, de táxi ou naqueles carros importados; escapam das blitz, que age lugares fixos na madrugada.

Já os raps revelam a cultura dos que pouco se divertem, pra eles a Augusta já perdeu a “graça”, a Rua é um lugar de negócios, onde encontram possíveis compradores; voltam pra casa às seis da manhã quando os trens retomam a prestação de serviço.  São os coadjuvantes da Augusta, que tornam a diversão possível, “abastecem” os frequentadores da Rua. Na mídia esses personagens ganham destaque. É uma forma de marginalização da Rua, que reprime e fecha os olhos para os movimentos que nasceram ali, para importância dos choques ideológicos. São os dois lados de uma Rua, que une a pluralidade de uma nação, expressa pela junção dos povos na cidade das oportunidades.

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