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Por Carolina Piai

Amanda Todd, uma adolescente canadense de 15 anos, cometeu suicídio em outubro deste ano. É essa a jovem que contou sua história no vídeo acima, publicado alguns dias antes de sua morte. Quando estava na sétima série mostrou seus seios na internet, pela webcam, para um desconhecido. Depois de um tempo, ele lhe mandou um recado no Facebook avisando que caso a garota não se expusesse a ele novamente, iria divulgar a imagem de seus seios. O homem tinha diversas informações dela, como seu endereço e sua escola. A foto se espalhou pela internet. Com isso, o bulling contra Todd se tornou uma constante, levando-a a cometer suicídio. Pensar no fascínio da exposição midiática dos tempos atuais se torna imprescindível quando um caso desses acontece.

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, autor de “Amor Líquido”, entre outros, explica a atualidade com o seu conceito de “modernidade líquida”. Segundo a entrevista que concedeu à Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, para a Folha de S. Paulo, hoje em dia “Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da ‘liquidez’ para caracterizar o estado da sociedade moderna, que, como os líquidos, se caracteriza por uma incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades ‘auto-evidentes’”. Desse modo, explica os relacionamentos, por exemplo. Ao falar sobre as amizades de Facebook, como as chama, explica que atualmente é muito fácil se conectar e se desconectar. Ou seja, é tão simples se tornar “amigo” de alguém, como se desvincular dessa pessoa. O caráter “líquido” desse tipo de relacionamento é evidente, ele é incerto e flexível.

A relação entre seu pensamento e o que aconteceu com a jovem canadense se estreita quando o pensador explica, em entrevista para o “Fronteiras do Pensamento”, que “Ehrenberg, sociólogo Frances, afirmou que, em sua opinião, a revolução pós moderna começou em uma quarta feira à noite, num outono da década de 1980, quando uma certa Vivienne, uma mulher comum, na presença de 6 milhões de telespectadores, declarou nunca ter tido um orgasmo durante seu casamento, porque seu marido, Michel, sofre de ejaculação precoce”, isto é, a revolução começou, de acordo com Bauman, quando “as pessoas começaram a confessar coisas que eram a personificação da privacidade, a personificação da intimidade”.  Assim, entende-se que Todd é um fruto dessa sociedade que expõe e debate sua intimidade constantemente. Portanto, discute-se muito menos as questões públicas do que as privadas.

(Reprodução)

O que se vê é uma exposição exacerbada dos indivíduos. Quer-se compartilhar tudo pela mídia, desde o

estado emocional das pessoas até o que almoçaram no dia. O fenômeno de “explosão” do aplicativo Instagram é uma demonstração clara disso, as pessoas postam fotos até de quando acabaram de acordar – as das refeições, por sua vez, são as mais frequentes. Com algumas dessas fotografias, percebe-se uma vontade imensa de mostrar aos outros como sua vida é, na maior parte das vezes, maravilhosa. Há ainda aqueles que mostram a tristeza de suas vidas.

A questão é que, como disse Bauman, “nós instalamos microfones nos confessionários”. E, em alguns casos, as pessoas não sabem como lidar com eles. Foi o que aconteceu com Amanda. Os “microfones” (e a sociedade do preconceito e da rejeição), de certa forma, mataram-na.

Entrevista de Bauman para “Fronteiras do Pensamento”:

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