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Por Pedro Navarro Arbex e Leonardo Albuquerque
O conceito de liberdade é um conceito filosófico mutável e muito difícil de definir, e só o que se pode afirmar com certeza é que a liberdade, em seu estado mais puro e absoluto, é em si própria uma utopia. É o que pensa Guilherme Braum, professor de Filosofia do ensino médio. “Essa liberdade sem nenhum limite não existe ou, talvez, seja inalcançável. Afinal de contas, esse é um problema até conceitual. Você precisaria primeiro definir o que é a liberdade plena.” Essa definição, no entanto, está cada vez mais deturpada.

Com o desenvolvimento da sociedade de consumo e da ideologia capitalista, cada vez mais ela foi se esvaziando de sentido e perdendo sua essência, até o ponto de hoje em dia se limitar a uma mera mercadoria. “Isso é uma questão do nosso sistema político e do nível que nossa sociedade chegou. É uma questão de como se mede a liberdade. Chegamos a um ponto em que a liberdade está associada ao poder aquisitivo. É mensurável se uma pessoa é feliz, se tem sucesso, se é livre, através do poder de consumo que ela tem e pela quantidade de dinheiro que ela possui”, conclui Braum. No capitalismo a liberdade se limita a possibilidade de escolher entre uma mercadoria X ou Y ou na pior das hipóteses no próprio produto desse sistema.

Os publicitários e marketeiros se utilizam dessa noção de liberdade, do anseio inerente a todo ser humano de ser verdadeiramente livre para vender mercadorias que prometam essa ideia. Figuras icônicas como o revolucionário argentino Ernesto Rafael Guevara de la Serna, que ficaria conhecido como “Che Guevara”, representativas de uma luta por uma sociedade mais justa e livre, se transformam em camisetas e pôsteres, e podem ser comprados por qualquer um que tenha como desembolsar uma pequena quantia para tentar se expressar através dessas mercadorias.

Esse consumo sem limites invadiu de tal forma a existência de algumas pessoas que acaba se tornando o objetivo maior de suas vidas. “Atualmente o que mede a ascensão social é a possibilidade de poder comprar, o que se observa no crescimento que veem ocorrendo na classe C, que está consumindo muito mais ultimamente. É todo um desejo de consumir que ficou reprimido no interior dessas pessoas e agora que elas têm essa possibilidade entram com tudo nessa realidade. Você conversa com elas e quais são os desejos? Comprar um carro, ter uma casa própria, um tênis de marca. E não que isso seja errado, mas o problema é que o consumo acaba se tornando um objetivo de vida para essas pessoas”, explica a psicóloga Maria Alice Junqueira de Almeida.

Exemplos como esse são bastante recorrentes em nossa sociedade, e o que se percebe cada vez mais é uma dificuldade interna dos indivíduos de encontrar uma utilidade para sua liberdade, ainda mais nas grandes cidades. O sentido entre ser livre e estar livre parece criar confusão no modo como as pessoas lidam com esse conceito. A crença de que a única forma de ser verdadeiramente livre é através do poder é uma ideia que veem tomando forma na mentalidade do homem moderno, e parte das angústias e frustrações dos indivíduos provem disso. Muitos homens passam toda vida buscando poder e dinheiro para sentirem-se livres, e mesmo que consigam tudo isso, muitos se sentirão frustrados, na medida em que perceberão que não alcançaram o estado de espírito que procuravam. Caso não consigam, a situação só é pior, pois colocarão a culpa de sua infelicidade na falta de dinheiro.

A psicóloga observa diariamente essa realidade em seus pacientes e para ela “a sociedade em geral pressiona as pessoas a acreditarem que ter liberdade é ter dinheiro para fazer o que quiser. Ter dinheiro para poder viajar, fazer um cruzeiro, comprar um carro. Acho que as pessoas acabam comprando um pouco esse conceito, e na pratica acabam vivendo uma infelicidade, uma frustração, porque apesar de conseguir ter uma boa posição social, conseguir ter dinheiro e conseguir ter acesso a tudo que a sociedade pressiona a ter, no final das contas as pessoas continuam não se sentindo bem consigo mesmas, e acabam tendo muito mais dificuldade para encontrar o que fazer com toda essa liberdade que alcançaram”, explica.

Liberdade no existencialismo

Para Jean Paul Sartre, principal pensador do Existencialismo, o homem é quem constrói sua liberdade, na medida em que sua essência não surge em seu nascimento, mas sua existência, suas escolhas pessoais e os caminhos que ele percorrerá durante sua vida é que a definem. “A existência precede a essência”. Para o autor, o destino do homem está apenas em suas mãos, e não mais na natureza, o que faz da liberdade uma espécie de condenação para o homem. O homem está condenado a ser livre e a tomar total responsabilidade por todos os seus atos. Sartre enxerga a liberdade como uma condição do ser humano e não mais como uma conquista, como se todos os homens fossem capazes e obrigados a ser livres. Essa ideia parece muito bonita a primeira vista, no entanto é preciso analisar o contexto social e político em que esse homem está inserido.

Assumindo que essa teoria seja verdadeira, as limitações impostas pela sociedade capitalista já seriam suficientes para barrar essa suposta liberdade. O homem tem a liberdade para fazer suas escolhas e para seguir pelo caminho que bem entender, no entanto, dentro do contexto em que está inserido. Um indivíduo que nascer em uma família de baixa renda automaticamente já terá menos possibilidades de escolha do que um indivíduo de uma classe alta. No capitalismo a liberdade está intimamente ligada ao dinheiro e as posses.

Ainda segundo o professor Guilherme Braum, “a liberdade absoluta de que falam os existencialistas, não significa que você não é condicionado. Ou seja, não significa negar toda e qualquer determinação, mas sim negar uma determinação absoluta, onde fatalmente você está destinado a cumprir determinada missão. Esses pensadores creem ser obvia a influência do meio no cidadão”, afirma. Para eles uma pessoa que nasce em determinado conjunto de valores, em um primeiro momento irá reproduzi-los e aprende-los, o que não significa que esses valores existam desde sempre. Esses valores foram criados por essa comunidade. E outras comunidades criarão outros valores. Portanto, significa que eles não são criados em absoluto por alguém, por uma força maior, mas sim que foram criados pelos próprios humanos.

Essa é uma das muitas concepções de liberdade que surgiram ao longo dos anos, e dentre tantas, é muito difícil encontrar uma definição absoluta dessa ideia. As opiniões divergem, e esse conceito assume as mais diversas faces de acordo com o contexto em que se trata. No entanto, o que se vê atualmente é uma utilização cada vez mais voltada ao consumo e ao poder e um cerceamento cada vez maior da liberdade daqueles que não se encaixam nos padrões sociais vigentes.

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