Home

agenda 4

Por Renata Baboni

A produção do jornalismo cultural brasileiro é comumente reduzida às programações e agendas de shows e espetáculos, o que caracteriza a lógica mercantilista inerente ao ramo. Com isso o jornalismo cultural produz uma cultura de massas regida segundo normas de fabricação industrial. O resultado é que o comunicador, imprensado entre o poder burocrático e o poder técnico, desenvolve bens culturais ordinários, padronizados e despersonalizados, ao gosto da grande massa, que é tratada como homogênea.

Tais aspectos caracterizam o teor das pautas relacionadas ao gênero, que atingem o âmbito do estético, do intelectual, do social e/ou do espetacular. Sendo assim, muitas vezes a cultura é reduzida ao entretenimento, à cobertura de eventos pontuais, focados na indústria e as questões relativas a políticas culturais são deixadas de lado.  Dentro dessa perspectiva, parece cada vez mais que o emissor da notícia (jornal) vê no receptor (leitor) um indivíduo passivo, sem potenciais críticos, o que faz juz à teoria estímulo-respota da comunicação.

Sabendo que o jornalismo influencia o comportamento dos indivíduos, este meio executa um controle mental das ações dos outros como forma de poder, especialmente quando a audiência é pouco ciente desse controle. Ou melhor, a indústria cultural, muito divulgada pelo jornalismo cultural, contribui para essa alienação e para o ocultamento desse exercício de poder através da divulgação de manifestações artísticas, que teoricamente possuiriam um caráter de resistência e de lazer, mas que são usadas na prática para atender uma ideologia de consumo implícita. Portanto, o aspecto performativo do jornalismocultural vai além da função referencial e informativa do fazer jornalístico. Ele constrói mapas cognitivos para seus leitores, orientando-os para a ação e dirigindo suas formas de ler, situando-os performativamente em certas posições de sujeito receptor. O ato performativo parte do pressuposto de que dizer é fazer. Assim, a informação deixa de ser jornalística e passa a ser comportamental. Cria-se um mundo da agenda cultural, materializa-se um manual de conduta, um modelo e um mapa cognitivo de comportamento e tendência, através de um discurso manipulador na mente das pessoas, induzindo-as ao ato e iludindo-as a vislumbrar um novo capital cultural através desse ato. Conforme Bourdieu relatou, a força ilocucionária não está apenas na linguagem, mas também se encontra no poder social, na força ritual que gera reconhecimento por parte dos que ouvem o proferimento.

Tendo em vista que nem sempre é o jornalismo cultural que define as suas pautas, mas que ele próprio também é pautado por conteúdos submissos à lógica de consumo do jornal, encontramo-nos então frente a uma crise (ontológica) da crítica no jornalismo cultural brasileiro.

Para aprofundar a discussão é preciso considerar a multiplicidade de conceitos sobre cultura existentes. Apesar de pouco valorizada e disseminada, também existe uma visão antropológica de culturamanifestada na produção do jornalismo cultural atual, embora não seja predominante, que reconhece o que difere dos comportamentos sociais padronizados.

Uma carência nesse sentido conceitual pode ser notada na história do jornalismo cultural que durante muito tempo se ateve à chamada ‘cultura erudita’ ou ‘alta cultura’ ou ainda cultura das elites, que na melhor das hipóteses mantinha, apesar de muito pouco, a sua função de democratização dessa (de alguma) cultura aos demais. Por outro lado, colaborava para a afirmação da hegemonia da classe oucultura dominante sobre as demais dominadas. Tudo isso culminava ainda mais em um aumento da desigualdade social/cultural e da disseminação do desejo consumista de eventos e produtos de elite por parte dos que não pertenciam a essa classe. Apesar de essa concepção (oposição entre alta e baixacultura) já ter sido aparentemente superada dentro do jornalismo cultural, pelo menos em partes, é preciso retomar a um dos fatores que contribuíram para a causa, que foi os estudos culturais, que introduziram um novo conceito de cultura que engloba uma “rede de práticas e relações que constituem a vida cotidiana, na qual o papel do indivíduo está em primeiro plano”. Ou seja, cultura é tudo aquilo que uma pessoa faz na sua vida diária, que inclui o seu modo de agir, seu comportamento, suas ações e pensamentos, o que legitima a cultura das classes populares. .

A visão antropológica de cultura pressupõe a abertura de espaço e a legitimação de novas formas de cultura, sem distinções hierárquicas, seguindo o caminho dos estudos culturais.

Ampliar a noção de cultura é ampliar o entendimento da sociedade e das relações sociais. É reconhecer no ‘receptor’ da noticia um ente ativo complexo, um ator que contribui para a construção e ressignificação dessa notícia através do seu repertório cultural, dotado de um caráter lógico (funcional), mas principalmente mítico (cultural, imaginativo, trágico). A compreensão do processo torna-se, portanto, uma experiência coletiva. Por esse lado, é preciso olhar com as perspectivas da teoria dos estudos culturais, que são voltados para os fatores que moldam o pensamento e o comportamento dos indivíduos na sociedade contemporânea, enfatizando o reconhecimento e a manifestação de cada subgrupo social e contrapondo a ideia de uma sociedade composta de um grupo homogêneo de pessoas. A aceitação de vários subgrupos sociais provoca mudanças também na identidade do sujeito pós-moderno. Um mesmo indivíduo pode pertencer a diferentes subgrupos e todos compõem uma cultura nacional. Cada nação é constituída de subgrupos muito diferentes entre si. Nesse sentido caminhou o jornalismo alternativo brasileiro na época da ditadura e ainda mantém adeptos atualmente, com as dificuldades de se fazer um jornal independente. Alguns jornais foram resistência contracultural em sentido amplo, como o ‘Coojornal e o Pasquim’. Outros ainda lutaram pela autoafirmação de seus grupos sociais, como o ‘Lampião’, o ‘Brasil mulher’, o ‘Nós mulheres’, em questões feministas, o ‘Porantim’, em questões indígenas, o ‘Greve’, em questões trabalhistas, o ‘Movimento Negro’, o ‘Ticão’, o ‘A voz da raça’, em questões raciais, entre outros.

Barbero nos aponta que para entender a diversidade cultural brasileira é preciso compreender as suas relações, as possíveis redes de comunicação e culturas cotidianas. São as identidades locais que compõem uma identidade nacional diversa, complexa e rica. Barbero chama de mediações os espaços de crenças, costumes, sonhos, medos, as formas de comunicação, tudo o que configura a sociedade cotidiana, que está entre o estímulo-resposta. Essa espessura cotidiana regrada por uma vida festiva, religiosa, familiar, muito rica na América Latina, deve ser levada em conta como bagagem de mundo e de vida dessa população. Esse espaço espesso de culturas funciona como um filtro no momento em que o receptor recebe a informação.

Ampliar a noção cultura é também considerar o caráter participativo para o qual as novas tecnologias nos aponta. É entender que a cultura midiática pertence a uma lógica colaborativa, participativa, que trata o leitor como um ser ativo, contribuidor dessa cultura. O meio digital democratiza, de certa forma, não só a informação, que pode ser compartilhada, mas o acesso a ela, dando voz a culturas populares da mesma forma que a culturas eruditas e a acontecimentos cotidianos, através de plataformas colaborativas como as redes sociais, blogs, etc.

Estes são potencialmente relevantes na concepção coletiva de cultura devido ao seu alcance social e reconfiguram o jornalismo cultural atual, que se equilibra através da cultura de massa em conjunção com a cultura do compartilhamento.

É apenas considerando esse contexto lógico, mítico, moderno, atrasado, liberal, conservador no qual estamos inseridos, ou seja, as partes fragmentadas dentro de uma totalidade, que poderemos compreender o paradoxo cultural brasileiro e consequentemente melhorar a nossa leitura da realidade e postura crítica enquanto jornalistas. É preciso retomar o espírito contracultural da época áurea de revistas e jornais como a ‘Realidade’, o ‘Opinião’ e o ‘Movimento’. Talvez esse seria um bom motivo para se repensar em um novo jornalismo cultural.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s