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Por Rodolfo Almeida, Marcelo Teixeira e Luísa Jubilut

Durante o início do século XV, no período da Idade Média – compreendido hoje como a “Idade das Trevas” por conta de um declínio na conscientização cultural clássica e de uma restrição à obtenção de conhecimento formal fora dos padrões de crença ou ideologia da Igreja Católica -, os únicos repositores de conhecimento e cultura formal na Europa ocidental eram os membros da Igreja Católica Romana: eremitas, monges, padres e clérigos em geral. Frente a um compêndio de informações difusas e desorganizadas provenientes das infindáveis bibliotecas eclesiásticas, estes clérigos submetiam-se à catalogação e organização sistemática de dados de diversas origens – que abrangiam desde a filosofia clássica até a arte sacra e tratados antigos sobre política.

Esta organização do conhecimento humano se faria, em grande parte, através das chamadas biografias: obras literárias encarregadas de sumarizar a existência pública e privada de certos indivíduos em suas esferas sociais, políticas, artísticas, culturais, etc. A partir da trajetória de vida, carreira e obra destas figuras chave da história de diferentes períodos, a compreensão dos fatos históricos, dos acontecimentos sociais e da experiência humana como um todo se faria muito mais lúcida e esclarecida. Pivôs de suas gerações, estes “personagens” da história reuniríam em sua própria existência uma série de valores simbólicos e culturais de seus tempos, servindo de exemplo do peso histórico de suas ações ou do contexto em que se inseririam, figurando, portanto, como um facho de luz na incerteza obscura de certos períodos da história passada – uma forma de compreensão das contradições de uma sociedade, das idiossincrasias de povos, grupos e sujeitos – em suma, uma efetiva forma de compreensão do ser humano na história.

Inicialmente desenvolvidas em torno das figuras de padres, papas, monges e santos, estas biografias buscavam apresentar uma narrativa da vida e obra de seus biografados em tom solene e inspiracional, atuando como um mecanismo de conversão dos indivíduos à fé católica. Por seu caráter “enviesado”, o tratamento dado a estas figuras era em sua grande maioria tendencioso, buscando a valorização de aspectos positivos à fé católica na vida dos biografados e a supressão ou omissão de características importantíssimas para a compreensão da trajetória de vida destes indivíduos, ainda que prejudiciais à integridade de sua fé ou imagem – e, portanto, passíveis de omissão. Esta modalidade específica de biografia seria mais tarde denominada de “Hagiografia”: biografias de figuras beatíficas, dedicadas à conversão à fé católica.

Apenas no período do Renascimento, em meados do século XVII, as biografias passaram a adquirir outra tônica e outros objetivos, diferentes daqueles atrelados diretamente à fé católica. Com as primeiras biografias em torno da vida de reis, cavaleiros, tiranos, artistas e poetas, o gênero passou a se caracterizar muito mais por um comprometimento com a verossimilhança histórica dos fatos, com a objetividade imparcial e a precisão na apuração de informações acerca da vida dos biografados do que com o respeito a integridade de suas imagens e reputações, primando por um secularismo laico no ponto de vista de descrição dos eventos e adquirindo um aproximamento muito maior do campo da historiografia do que da literatura. O fazer biográfico passou, a partir de então, a ser suscetível a questionamentos e críticas, posicionando-se não mais como um porta-voz da verdade inabalável acerca de figuras importantes da historia humana, mas como um processo literário e histórico, exercido por sujeitos empenhados em tal tarefa, dotados de metodologias e processos de apuração e investigação próprios e da subjetividade implícita (ou até mesmo notável) do crivo de seu autor – tornou-se, portanto, algo humano. E como tal, este fazer seria repleto de vícios.

Hoje, mais de quinhentos anos depois, a modalidade literária biográfica persiste como um dos mais importantes gêneros de registro histórico, de testemunho do tempo e de construção do conhecimento humano. Entretanto, ainda sofre com contradições estruturais carregadas de seu tempo de formulação. As biografias “dedicadas”, hoje chamadas vulgarmente de “chapa-branca”, dividem um espaço competitivo e acirrado com o fazer biográfico crítico, responsável pelo esclarecimento da história, e envolvem questões já hoje de complexidade incomensuravelmente maior, perpassando as esferas judiciais, de privacidade, históricas, culturais e sociais de diversos povos.

Na medida em que se dedicam à “aprovação” de seus biografados, em certa forma, as biografias chapa-branca – inclusas aqui as autobiografias, sejam autorais sejam por meio do ghostwriting (prática em que a escrita da biografia depende de biógrafos profissionais, porém a obra é publicada creditando o texto ao próprio biográfo) – exercem um papel não apenas limitado e restrito no processo de construção da história humana, mas danoso ao próprio registro da cultura dos povos. Sob o crivo de seus biografados, o conteúdo real de suas histórias, a verossimilhança perseguida pelas biografias críticas, vê-se diluída e prejudicada em nome de certa reputação, honra ou moral vigente a qual o biografado se ancore, causando graves consequências ao conhecimento geral, agora influenciado e construído “conforme o desejo dos biografados”.

Desta forma, “podres” ou vícios de suas trajetórias pessoais são encarados não de forma altiva e serena, como características inerentes a toda a espécie humana e plenamente compreensíveis em seus contextos históricos e sociais, mas como acontecimentos dignos de vergonha, supressão e omissão, em uma tentativa perigosamente perversa de reescrever suas histórias – que são não apenas suas, mas de todo o coletivo, vista suas importâncias para seus contextos sociais. Desta confusão entre a “história privada” e a “história coletiva”, surgem polêmicas recorrentes em torno das questões de privacidade, de vida pública e vida íntima e do que é, de fato, a informação verdadeiramente pública.

A obra “Noites Tropicais”, do biógrafo e jornalista Nelson Motta (foto: divulgação)

Recentes exemplos destas polêmicas são as decisões judiciais em torno das biografias “Estrela Solitária”, sobre a vida do icônico jogador de futebol Garrincha, escrita pelo biógrafo e jornalista Ruy Castro e “Noites Tropicais”, obra do também jornalista Nelson Motta sobre a vida artística de grandes nomes da MPB.

Enquanto Castro enfrentou uma longa batalha judicial com os herdeiros de Garrincha, preocupados com a imagem e os feitos atribuidos ao jogador, Motta sofreu um processo por sua obra. Em um de seus capítulos, Motta conta um episódio que ganhou as páginas dos jornais nos anos 1960: uma investigação policial a respeito do suposto envolvimento de artistas da música popular brasileira com menores de idade – história que, ainda que fora descartada e os artistas inocentados, causou litígios processuais a Nelson e sua editora, a Objetiva, condenados em primeira instância segundo a tese da juíza de que apenas o envolvido poderia contar sua própria história”.

A partir desta lógica, a existência pública e conhecida de importantes figuras e protagonistas da história, passa a ser propriedade privada destas de forma que, não disposta a contá-las, podem alegar, com amparo jurídico, que tais acontecimentos jamais ocorreram e não merecem ser mencionados ou buscados, em uma claro movimento em direção ao obscurantismo e à negação da história digna do período de enclausuramento informacional vivido durante as mais densas ditaduras militares.

A solução que tem sido encontrada por biógrafos e suas editoras tem sido a de firmar acordos com os herdeiros, familiares e envolvidos diretamente com as figuras biografadas, garantindo um percentual dos lucros da tiragem e uma espécie de supervisão sobre o conteúdo publicado, seguindo o exemplo de Motta em sua biografia “Vale Tudo – o Som e a Fúria de Tim Maia”, sobre a controversa vida do cantor carioca.

“Estrela Solitária”, biografia do jogador de futebol Garrincha, de autoria de Ruy Castro (foto: divulgação)

Tais impedimentos mostram-se, lamentavelmente, resquícios de um pensamento de individualismo e de negação ou reconstrução da história humana – feita a partir de figuras que, mais do que suas existências privadas, carregam consigo a memória de todo um inconsciente coletivo, patrimônio este digno de ser compartilhado e rico ao entendimento das sociedades e comunidades. Aliada a este individualismo, uma dissolução barata do senso crítico e uma prevalência do desejo de dominação do curso da históra levam questões que, nitidamente, pertencem ao campo da literatura e da historiografia às laudas de extensos e desgastantes processos judiciais e litígios desnecessários.

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