Home

Por Marcelo Teixeira e José Renato Cardoso Simão

Um novo fenômeno da era digital tem chamado a atenção do mundo dos negócios norte-americano. O crowdfunding (financiamento coletivo no português) se trata do levante de uma alta quantia de capital de investimento a partir de varios pequenos investidores, ao contrario do modelo clássico dos poucos investidores “pesados”. O conceito não é novo (sua avó ja o conhecia com o nome de “fazer uma vaquinha”), mas foi potencializado pela facilidade, segurança e rapidez dos serviços digitais. Sites como o Kickstarter e o IndieGoGo, portais dedicados ao gerenciamento deste tipo de iniciativa, cresceram com rapidez no último ano e não passaram despercepidos pela imprensa ianque.

O funcionamento desses portais é simples. No caso do gigante Kickstarter, qualquer um pode lançar um projeto, a partir de um protótipo funcional e a confirmação prática de que poderá ser produzido, com um objetivo monetário e um período de arrecadação. Se o objetivo é alcançado, o projeto é levado adiante e o portal recebe de 3% a 5% dos lucros (somados a mais 5% do portal Amazon, que dirige as transações). Por outro lado, se não há sucesso, o dono do projeto não recebe nada e o dinheiro arrecadado fica para o portal. Os investidores (chamados de “backers”), recebem um incentivo para o investimento diferente para cada projeto, como o próprio produto em versão final, uma camiseta, o nome nos créditos finais, entre outros. Estima-se que cerca de 40% das iniciativas lançadas no portal tem sucesso.

Euforia é como pode ser definida a atitude com a qual se tem lidado com esse fenômeno. Principalmente depois da aprovação do “JOBS Act” no gabinete do presidente Obama em Abril, pacote de leis que ajudará a regulamentar e assegurar as transações de projetos com alto número de pequenos investidores diretos. Desde que esse tipo de investimento ganhou tamanha visibilidade, muitas iniciativas (algumas inusitadas) ja foram financiadas com variado sucesso. Por exemplo, o Pebble Watch (“relógio de pulso do século XXI”, que sincroniza com celulares e mostra notificações na sua tela), que apontou para um objetivo inicial de 100.000 dólares e terminou o período de arrecadação com 10 milhões de dólares investidos, tornando-se o projeto mais bem sucedido do portal. Prova do calor com o qual o mercado recebe essas iniciativas.

Imagem

Foto: divulgação

O método de financiamento coletivo pode servir para qualquer tipo de iniciativa que precise de dinheiro, como a campanha de um político ou mesmo um veículo de imprensa alternativa, mas é na indústria cultural que seu maior potencial mais se revela. O velho modelo norte-americano de criação, produção e venda de produtos culturais (filmes, músicas, livros, jogos, entre tantos outros) que tomou o planeta no séc. XX pode se ver seriamente ameaçado por esse novo modelo. Os grandes monopólios dessa indústria, os grandes estúdios de cinema, as gravadoras, as editoras (que, aliás, ja foram largamente abaladas por outros adventos da era do computador pessoal), antes uma absoluta necessidade, poderão agora ser simplesmente ignoradas por criadores e artistas que, através desse novo modelo, poderão, sozinhos, gerar os fundos que necessitam para suas obras .

Em primeiro momento é possível analisar o efeito do crowdfunding nos produtos culturais como similar ao efeito em outros tipos de produto, como os relógios de pulso: simplesmente facilita a criação de projetos ambiciosos e inovadores. Mas o buraco vai mais fundo. Desde as reflexões dos pensadores da Escola de Frankfurt (Benjamin, Adorno), em meados das décadas de 30 e 40, temos consciencia do papel e do poder que possui a Indústria Cultural. Pela sua onipresença popularidade, tornou-se, ao longo do século, uma instituição poderosa que redefiniu os conceitos de arte e cultura no contexto do imperialismo capitalista norte-americano, ganhou a capacidade de semear e reproduzir pensamentos e idéias nas grandes massas conforme bem entendesse. Todo esse poder nas mãos dos grandes monopólios, cujos donos são a mesma elite governadora do mundo capitalista.

Na prática, isso significou, por muito tempo, que toda essa maquinação, pelo seu tamanho e poder de penetração popular, era um “mau necessário” para os artistas e criadores. É nesse momento que o potencial crowdfunding se mostra revolucionário. Sem a necessidade desses poderosos intermediarios, a produção cultural poderá seguir livre da formatação em que se encontrava e depender apenas dos gostos e valores de seus artistas. Livre, portanto, da antiga reprodução vertical dos valores da elite do capital. Eis o sério golpe que esse imenso pilar liberal corre o risco de levar.

Mas isso tudo, por enquanto, não passa de especulação. Algumas obras ja financiadas e concluidas, como o curta “Incident in New Baghdad”, indicado para o óscar de melhor curta de documentário e o álbum “Theatre is Evil” da cantora Amanda Palmer são sinais da eficiência do crowdfunding na produção cultural, mesmo que não se mostrem revolucionários. São poucas as iniciativas artísticas ou culturais atualmente em circulação nos portais de financiamento coletivo.

Um grande destaque é a indústria vibrante e imatura dos video-games : 7 dos 10 projetos melhor sucedidos no portal Kickstarter são relacionados aos jogos digitais. O segundo projeto com o maior financiamento é o de um console de jogos caseiro (chamado “Ouya”), um luxo anteriormente reservado apenas às grandes corporações da área. Outras iniciativas de sucesso relacionadas aos games se referem a empresas consolidadas no mercado que buscaram no financiamento coletivo a liberdade para iniciar projetos ambiciosos sem a velha dependência das grandes editoras de jogos. A iniciativa “Double Fine Adventure”, vinda do famoso game designer Tim Schafer, bateu recordes de arrecadação, agregando o objetivo determinado de 400.000 dólares em apenas 9 horas. Terminou o financiamento com 3.3 milhões de dólares, arrecadado de um grupo de 80.000 investidores.

Imagem

Foto: divulgação

Seja uma completa revolução ou moda temporária, seja uma nova faceta no mundo dos negócios ou uma bolha insustentável, não há dúvida que o método do crowdfunding mostra potencial. Uma “vaquinha” poderosa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s