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Por Amanda dos Anjos e Gabriella Justo  

Todos os sábados eles se reúnem naquela mesma sala dentro da Mesquita do Brás. No centro uma mesa, rodeada por uma lousa, estantes de livros e imagens do profeta e do Islã. Sentados estão de um lado os homens, e do outro as mulheres, que são sempre a minoria. Eles usam roupas comuns do dia a dia, jeans, camiseta e tênis, elas estão cobertas da cabeça aos pés. O respeito é pleno naquele ambiente, basta uma mulher se levantar, que todos os homens se levantam também. Na ponta desta mesma mesa, está sentado um Sheikh convidado, e seu tradutor ao lado. Os convidados são em sua grande maioria libaneses vindos do Irã, local onde estudam as doutrinas, uma vez que essa mesquita foi construída por imigrantes libaneses e segue o xiismo. E é dessa maneira que ocorrem as aulas de introdução ao islamismo para os brasileiros. As aulas começam com uma oração e logo após o Sheikh narra e explica algum evento ocorrido no Alcorão, muitas vezes recorrendo à ajuda do tradutor em seu Iphone. A aula dura aproximadamente uma hora e a maneira acolhedora com que eles recebem esses “curiosos” tem feito com que uma grande parte deles opte pela conversão.

A primeira mesquita no Brasil foi fundada em 1929, em São Paulo, mas a religião está presente por aqui desde a chegada dos escravos africanos no período da colonização. E essa presença está ficando cada vez maior de acordo com o último censo de 2010. Realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ele apontou que a população muçulmana no Brasil teve um aumento de 29% em relação ao último censo realizado há 10 anos, totalizando 35.167 pessoas. Esse crescimento, segundo os estudiosos, é justificado principalmente pela migração, pelo nascimento de descendentes e pelas conversões. Segundo Nasser, que não tem ligação nenhuma com o Oriente, mas é frequentador da Mesquita do Brás e seguidor da religião há cinco anos, o islamismo não cresce apenas devido a quantidade de filhos que o muçulmano tem, o que geralmente é apontado como um dos motivos principais. Ele diz que o muçulmano realmente tem muitos filhos, mas nos países fora do Oriente Médio a religião não cresce por isso, já que o brasileiro, por exemplo, tem em média 2 filhos. “São pessoas que saem de outras religiões, que não estão se confortando lá e vem pra cá. (…) Nós já somos a maior religião do mundo, e continua crescendo”.

O livro sagrado Alcorão foi escrito pelo profeta Maomé, e é a base da religião

O livro sagrado Alcorão foi escrito pelo profeta Maomé, e é a base da religião

O islamismo, cuja derivação vem da palavra islã (submeter-se, obediência à lei e à vontade de Alá – Deus em árabe), é uma religião monoteísta e baseada no livro sagrado do Alcorão, escrito pelo profeta Mohammed, conhecido por aqui como Maomé. Seus seguidores são os muçulmanos (Muslim em árabe), aqueles que se subordinam a Deus. Os principais ensinamentos encontrados no Alcorão são a onipotência de Deus e a necessidade de bondade, generosidade e justiça nas relações entre os seres humanos. Seguem também cinco regras fundamentais para sua crença: crer em Alá, o único Deus e em Maomé, seu profeta; realizar cinco orações diárias comunitárias (sãlat); ser generoso para com os pobres e dar esmolas; obedecer ao jejum religioso durante o ramadã (mês anual de jejum); e peregrinar à Meca pelo menos uma vez durante a vida (haji). Após a morte de Maomé, a religião se fragmentou em vários grupos, sendo os maiores os sunitas e os xiitas.

Os sunitas descendem dos seguidores de Abu Bakr, um dos primeiros convertidos ao Islã e discípulo de Maomé. Segundo eles, o chefe do Estado muçulmano (califa) deve governar com honra, respeito pelas leis e capacidade de trabalho, não estando livre de às vezes errar em suas ações. Por sua vez, os xiitas, descendentes dos seguidores de Ali Abu Talib, genro do profeta Maomé, acreditam que o chefe da comunidade islâmica (imã) é diretamente ligado a Alá e por isso jamais erra em suas ações. No Brasil, existem apenas três mesquitas xiitas, dentre os mais de 100 templos muçulmanos no país.

Os fatores para que a religião esteja crescendo no Brasil são muitos, mas o que tem levado pessoas criadas em um país cristão de origem para uma religião bem diferente é a questão central. Nasser justifica essa mudança da seguinte maneira: “As pessoas não estão encontrando resposta nas religiões que já existem aqui. Elas estão descobrindo o islã, e quando o descobrem, ele responde, completa essas perguntas, essas dúvidas que tem nas religiões, e isso atrai muita gente. Elas não negam aquilo que acreditavam antes, mas se sentem mais completas. […] É uma religião muito boa, é uma religião que não vem para derrubar ou dizer: ‘Somos donos da verdade’. Não, ninguém é dono da verdade, só Deus é. Respeitamos católicos, protestantes, espíritas, qualquer religião, desde que pratique o bem e desde que se respeite”.

Para a conversão é aconselhado que os interessados participem das aulas, pois é nelas que eles aprenderão um pouco mais sobre a religião, as tradições, os hábitos de se vestir, a maneira de se purificar para poder orar, os gestos das orações e um pouco de árabe – as orações são obrigatoriamente feitas nesse idioma, com exceção da súplica, quando se pede algo para Deus, que pode ser feita em português. Quando a pessoa se sente pronta, poderá dar o seu testemunho e pronunciar a shahada, “Acredito que Mohamed é profeta e mensageiro de Deus”, perante as duas testemunhas e o sheikh. Não é recomendável que a pessoa se converta caso não veja lógica no culto, “Para entrar no Islã, focamos mais qualidade e não quantidade. Se você crê em Deus, cumpra. Não é brincadeira crer em Deus, não é um joguinho. Aqui é sério. Quando a pessoa tiver convicção, ela vem e fala: ‘eu creio nisso, isso é o que eu quero, e eu quero seguir. Hoje estou pronta para me reverter’. Ela vem, fala com o sheikh e faz a shahada, ai vira muçulmana”, conclui Nasser.

Política

As diferenças políticas entre o Oriente Médio e o Ocidente são enormes. O Oriente Médio segue os preceitos do Islã em basicamente todos os aspectos da vida, inclusive na política, caracterizada por conflitos e pela forte instabilidade. O fundamentalismo islâmico prega o fim do Estado laico e das relações com o Ocidente. O Irã, por exemplo, é um Estado teocrático que considera o Ocidente decadente e responsável pelo afastamento dos valores religiosos, o governo cerceia meios de comunicação e nega as exigências internacionais de respeito aos direitos humanos e à liberdade de imprensa. Nasser diz que não se envolve com política aqui no Brasil, pois não se sente bem representado por nenhum partido. “Aqui no Ocidente, existe uma separação entre religião e política, o Estado é laico. E nós somos ao contrário, não há separação de religião e política, porque um político para estar lá em cima, ele tem que ser ético, tem que ser verdadeiro, tem que ser correto, digno. Não há como escapar, isso são coisas que Deus mandou pra gente, e que não vai sair de dentro da gente. Você sendo essas coisas que Deus mandou que a gente seja, sendo correto, sendo honesto, respeitando o próximo, ajudando, você vai ser um bom político”.

Mídia

A religião islâmica, normalmente é sempre associada ao terrorismo. Mas assim como todas as demais crenças, grupos de fundamentalistas existem em qualquer doutrina. Existem diversos fatos ao longo da história e que ainda estão muito presentes em nossa sociedade que comprovam esse fundamentalismo. Porém, para os muçulmanos em particular, esse estereótipo é muito mais marcante que para os demais, e quem mais contribui para que isso ocorra é a mídia. “No Brasil, na maioria dos países em geral, eles têm a opinião deles, e a opinião deles geralmente é crítica. Se eu perguntar pra qualquer brasileiro, que acompanhe o noticiário e revistas: ‘Me fale 5 coisas boas que a mídia fala do Islã’, ele não vai falar uma […] A mídia realmente influência, e geralmente é para o lado negativo”, afirmou Nasser.

A grande maioria das matérias que abordam questões relacionadas a essa religião, ligam seus seguidores a homens-bombas agressivos, capazes de destruir tudo em função da crença. Mas eles não citam o fato de que essa é uma minoria da parcela total de muçulmanos, e que muitos não concordam com as atitudes deles. “Eles só falam coisa ruim. Ai eu te pergunto: ‘O que existe no mundo que é 100% ruim?’Não existe nada 100% ruim, nem 100% bom. […] Eles só falam coisas ruins da gente. Lá vivem milhões e milhões de pessoas, aqui vivem milhares demuçulmanos, e todos vivendo, trabalhando, têm suas famílias, estão criando seus filhos, será que todo mundo aqui é ruim? Existe na religião certas coisas que acontecem, como você vê ai, terrorismo e tal. É um pequeno grupo, não se compara a maioria, você não pode tirar uma parte pelo todo, né?! Até porque têm cristãos que também não são boa gente, têm judeus que não são boa gente, espíritas, todas as religiões tem…Mas a mídia engrandece essa pequena parcela que faz coisas ruins, porém isso também é medo, porque a religião cresce e vai crescer.”, conclui Nasser.

Muitas mulheres muçulmanas seguem a religião por vontade própria. e não por pura e simples submissão

Muitas mulheres muçulmanas seguem a religião por vontade própria, e não por pura e simples submissão

As mulheres também são alvo de estereótipos, definidas como submissas e escravas de seus maridos. É verdade que muitas realmente o são, mas há outras que decidem por vontade própria se inserirem aos cultos. “Faz 13 anos que frequento a mesquita. O meu marido começou a vir, eu fiquei curiosa, vim também e gostei. Não fui obrigada a nada, aos poucos quis introduzir os costumes em minha vida”, confirmou uma seguidora da religião que preferiu não se identificar.

Nasser acredita que aos poucos isso mudará, pois muitas pessoas tem se convertido e visto que a realidade não é bem essa. Que eles são apenas seguidores de um culto, como qualquer outro religioso. “Então isso também chama a atenção de muita gente, a pessoa vem pra cá, estuda, ora, analisa e vê que não é assim. E ao mesmo tempo isso é uma faca que atinge eles mesmos, eles criticam, criticam, criticam, a pessoa vem aqui e vê que não é isso, e já sabe que eles estão errados, ele estão mentindo. […] na prática é que você vê a realidade”.

Preconceito

No Brasil, que abriga pessoas com diferentes tipos de crença, mas que historicamente sempre foi de maioria católica, o islamismo sofre um choque quando encontra as outras religiões. Visto como uma religião radical, o Islã enfrenta preconceitos e generalizações, principalmente por parte da mídia. A principal razão disso tudo, é o fato das pessoas não conhecerem o mundo islâmico, a falta de informação e os estereótipos criados reforçam os preconceitos e a falta de respeito que muitas pessoas demonstram com muçulmanos. Quando questionado sobre o tratamento que recebe de outras pessoas pelo fato de ser muçulmano, Nasser diz que infelizmente há sim muita hostilidade. “Na empresa onde trabalho há pessoas que só por saber que sou muçulmano já olham diferente, não querem nem conversar, sem sequer saber nada, sem ter conhecimento nenhum, e sem eu ter feito nada”, completa Nasser.

‘Inocência dos muçulmanos’

Em setembro deste ano, um vídeo postado no Youtube causou diversos protestos em países do mundo islâmico. Trata-se do trailer do filme Innocence of Muslims (Inocência dos Muçulmanos), produzido nos Estados Unidos, que retrata a religião de maneira ofensiva. No filme o Islã é mostrado como uma religião de violência e ódio, e o profeta Maomé é ridicularizado, sendo mostrado em posições sexuais com sua mulher e depois com outras. Em uma das cenas do vídeo, Maomé diz a seus seguidores que eles podem usar as crianças da maneira que quiserem, uma clara referência ao abuso sexual, e em determinado momento o profeta revela-se homossexual. Personagens do filme recitam versos supostamente tirados do Alcorão, mas claramente inventados, falando de matar e extorquir pessoas.

Cena do filme "Inocência dos Muçulmanos", onde a religião é tratada de maneira ofensiva (Foto: Reprodução/Youtube)

Cena do filme “Inocência dos Muçulmanos”, onde a religião é tratada de maneira ofensiva (Foto: Reprodução/Youtube)

Com características amadoras, o filme foi produzido durante 5 dias num estúdio da Califórnia em agosto do ano passado. O trailer foi colocado no Youtube pela conta do usuário “sambacile”, identificado mais tarde por autoridades norte americanas como sendo Nakoula Basseley Nakoula, um egípcio cristão que vive na Califórnia e pode ser o autor do filme. Condenado a 21 meses de prisão por fraude bancária em 2010, após cumprir um ano em regime fechado, saiu sob liberdade condicional. Ele foi preso após a divulgação do vídeo, por violar as condições de sua liberdade condicional, de que não poderia utilizar a internet por um período de 5 anos sem autorização prévia. Em entrevista, Nakoula disse que a produção foi financiada com US$ 5 milhões levantados a partir de doações de judeus. Os atores que participaram do filme alegaram terem sido enganados a respeito do filme, dizendo que o projeto original não tinha nenhuma relação com o Islã e que em momento algum o nome de Maomé foi citado no set de filmagens.

O vídeo foi postado em junho, e foi pouco notado, só depois de ser traduzido para o árabe e recolocado no Youtube dias antes do 11 de setembro é que atraiu quase um milhão de visualizações, iniciando uma onda de violentas manifestações em países como Egito, Iêmen, Afeganistão, Paquistão, Indonésia, Líbano e Irã. Em Benghazi, na Líbia, um ataque durante um protesto matou o embaixador dos Estados Unidos e outros três americanos. Mesmo após uma solicitação da Casa Branca para retirar o vídeo do ar, o Google decidiu mantê-lo na internet, e apenas bloqueou o vídeo em países como Índia, Indonésia e Egito, por ordens judiciais e dos governos.

Durante um discurso, em Nova York, na abertura da 67ª Assembléia Geral das Nações Unidas, a presidenta Dilma Rousseff repudiou o preconceito contra a religião muçulmana e a onda de ataques às embaixadas dos Estados Unidos, geradas pelo filme. “Registro o nosso mais veemente protesto contra o preconceito ao islamismo (…) Também repudiamos os atos de terrorismo que vitimaram os diplomatas norte-americanos”, declarou Dilma.

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