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 Por José Renato Simão e Rodolfo Augusto de Araujo Almeida

A reprovação de 54,5 % dos avaliados na prova do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo(Cremesp) teve grande repercussão na mídia. Por outro lado, as principais causas do problema, o método de avaliação aplicado e os supostos interesses escondidos pela proposta não foram discutidos.

Ao longo dos últimos anos, diversas faculdades, sem tradição na área da saúde, tiveram autorização concedida para abrir cursos de medicina. Entretanto, essas licenças foram liberadas sem um amplo estudo sobre a capacidade dessas instituições oferecerem um curso condizente com a qualidade exigida pela profissão. Para justificar essa facilitação, o governo tem utilizado como argumento a necessidade de suprir a carência de médicos no país. Em consequência disso, uma possível queda na competência profissional tornou-se inevitável, já que a quantidade teve prioridade sobre a  qualidade. Para, teoricamente, ter uma maior capacidade de avaliação dos cursos no estado de São Paulo, o Cremesp, tornou obrigatório o seu exame para aqueles que desejam obter o registro profissional de medicina, o CRM. Recém-formado em medicina por uma tradicional faculdade de São Paulo, Diego considera a prova uma medida ilusória: “Atualmente, qualquer faculdade tem medicina. O governo não se preocupou ao liberar o curso para essas faculdades. Agora, o Cremesp quer fingir que pode resolver a má-formação decidindo quem está capacitado para exercer a profissão ou não”.

Fonte: educacional.com

(Fonte: educacional.com)

            Um outro fator que contribui para uma formação deficiente são os serviços públicos de saúde. Durante os seis anos que passam cursando medicina, os estudantes, além das explicações teóricas em sala de aula, exercem algumas atividades práticas nos hospitais para, desse modo, se familiarizarem com a verdadeira medicina. Contudo, a falta de estrutura dos hospitais não permite o desenvolvimento de atividades médicas pedagogicamente eficientes, tornando essa construção do conhecimento falha.

            Aparentando desconhecer tais fatos, o Cremesp tornou obrigatória uma prova incapaz de avaliar os recém-formados, já que é improvável que algumas horas consigam determinar a validade de um curso de seis anos em período integral. Essa prática se demonstra muito mais como uma tentativa de subjugar os novos médicos por meio de sua responsabilização pelo fracasso do que como um método para se identificar problemas na busca por soluções. O ideal seria que os órgãos responsáveis pela Educação no país, como o MEC (Ministério da Educação), verificassem ao longo dos 12 semestres em que condições encontram-se as instituições de ensino, lembrando-as sobre suas obrigações perante o corpo discente e a sociedade, aplicando, inclusive, restrições em cursos e vestibulares se assim fosse necessário. Para Diego, a obrigatoriedade da prova não melhorará os cursos deficientes: “O que impede que no último ano de medicina as faculdades apliquem uma espécie de intensivão para a prova ? Fazendo isso os alunos poderão tirar uma nota alta sem o conhecimento de grande parte da Medicina. Ocorrerá uma falsa classificação pois algumas faculdades fracas serão consideradas excelentes. É um método burro.”

            Além disso, um outro problema pode estar sendo criado pelo Cremesp. Os baixos índices de aproveitamento dos últimos anos atrelados à  obrigatoriedade de uma prova para a obtenção do registro médico podem desencadear a criação de cursos preparatórios para o exame. Esses cursos, semelhantes aos existentes para a prova da OAB(Ordem dos Advogados do Brasil), não passarão de meras instituições mercadológicas interessadas no lucro, já que serão incapazes de preencher as lacunas deixadas por uma formação deficiente. Somente treinarão os estudantes para que eles tenham êxito no exame. É o que pensa Diego: “A criação de cursos preparatórios segue a mesma lógica do que pode ocorrer com o último ano da faculdade, uma mera preparação para a prova, um intensivão”.           Uma outra evidência de que a proposta é incoerente está na existência das provas de residência. Todo ano, cerca de 30% dos recém-formados em medicina não conseguem ingressar em residências médicas. Isso ocorre pois a demanda de médicos é muito maior do que a oferta de vagas. Assim, não são raros casos de estudantes de medicina que já no quarto ou quinto ano da faculdade frequentam cursinhos preparatórios para as provas de residência. No final do curso, a Associação Médica Brasileira(AMB), em parceria com associações de cada especialidade, aplica uma prova. Os médicos reprovados não ganham o título da área.

            Médica a mais de 20 anos, Fernanda acredita que a não liberação dos registros profissionais para aqueles que não forem aprovados pode aumentar o número de profissionais agindo na ilegalidade. “ O estudante passa seis anos assistindo aulas em período integral e com a cobrança dos responsáveis que pagam altas mensalidades. Se ele não conseguir o certificado, ele pode facilmente trabalhar na ilegalidade, como por exemplo, cometendo abortos em clínicas clandestinas. Além da necessidade de independência financeira, ele tem o conhecimento de diversos procedimentos médicos”.

            Uma maior fiscalização e intervenção do MEC na abertura dos novos cursos, nas avaliações das faculdades  e dos alunos seria o ideal pois compete a esse órgão, e não ao Cremesp, tais práticas. Decidir se alguém está apto ou não a exercer a profissão médica somente após seis anos de faculdade por meio de uma prova ineficaz é vender uma ilusão aos estudantes por um preço bem alto.

“Os pais pagam uma fortuna de mensalidade durante seis anos porque acreditam que estão dando o melhor para os seus filhos. O Cremesp não pode dizer apenas no último ano que a faculdade não forma seus alunos descentemente. Fazendo isso, eles não estão iludindo somente os alunos, como  também os pais. Se acham que uma faculdade não é boa, então que proíbam o curso de medicina na instituição”.

Exame

            Criada em 2005, a prova do Cremesp passou a ser obrigatória em 2012. Nesse ano, para ser considerado aprovado o candidato deveria acertar 60% das 120 questões de múltipla escolha. As áreas abordadas foram: Clinica Medica, Clinica Cirúrgica, Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Saúde Publica Epidemiologia, Saúde Mental, Bioética e Ciências Básicas (Fisiologia, Bioquímica, Microbiologia e Parasitologia, Biofísica e Biologia Molecular). Entretanto, nenhuma atividade prática ocorreu na avaliação. Os índices de acertos mais baixos foram encontrado em Saúde Mental (41%), Saúde Pública(46,1%), Clinica Médica(53,1%) e Ginecologia(55,4%).

            Apesar da obrigatoriedade do exame em 2012, os médicos que não tiveram bom desempenho na prova terão seus registros profissionais liberados normalmente. No futuro, o Cremesp  poderá impedir a obtenção do registro aos reprovados, obrigando-os a frequentar a faculdade por mais um ano.

Boicote

            Estudantes de faculdades tradicionais do estado de São Paulo organizaram um boicote contra o exame. Um dos métodos mais utilizados foi o de assinalar apenas a letra B na prova. Segundo o Cremesp, 99% dos 119 alunos que boicotaram o exame são de instituições públicas.

(Fonte: Estadão)

(Fonte: Estadão)

            Apesar de não existir uma nota mínima para a obtenção do CRM, o Cremesp tem atrasado a entrega do certificado aos alunos que boicotaram a prova, o que pode ser interpretado como uma forma de retaliação. De acordo com a instituição, porém, o atraso está ocorrendo pois “as provas apresentavam inconsistências e, por isso, seriam revisadas”.

* Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados

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