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Por Natacha Mazzaro

    

     O Ministério da Saúde juntamente com a rede social Facebook lançaram há três meses uma campanha para a doação de órgãos. Os usuários tem a possibilidade se de declarar doador em sua linha do tempo onde outras pessoas podem visualizar e compartilhar. A iniciativa foi inspirada em uma campanha nos Estados Unidos que teve como objetivo engajar seus usuários e incentivar a doação. No Brasil, mais de 80 mil pessoas já compartilharam a campanha e se declararam doadores pela rede, mas é importante salientar que essa atitude não muda a responsabilidade da família de autorizar a doação.

     A Lei brasileira que dispõe sobre a remoção de órgão, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplantes, alterada em março de 2001, substituiu a doação presumida pelo consentimento informado do desejo de doar, ou seja, a realização do transplante só pode ser autorizada pela família, cabendo ao parente mais próximo a palavra final. Por isso, para ser doador de órgãos hoje no Brasil basta conversar e deixar claro para a família o desejo, não é necessário deixar por escrito.

     “O transplante de órgãos é feito após a morte encefálica, onde o cérebro não tem mais ‘função’, o núcleo respiratório, núcleo que controla a frequência cardíaca param e o indivíduo é considerado morto. Esse é o conceito mais difícil de explicar para a família para que eles efetivamente entendam e autorizem a doação”, explica o Agenor Spallini Ferraz, médico e coordenador do Sistema de Transplantes de São Paulo. Por isso a equipe que vai falar com os familiares deve explicar que a morte encefálica já caracteriza a morte do indivíduo, e os órgãos, exceto córneas, ossos e pele, precisam ser retirados enquanto ainda há circulação sanguínea, irrigando os órgãos. Um único doador pode beneficiar até 25 pessoas. Os transplantes mais comuns são: coração, fígado, rim, pâncreas, pulmão, intestino e estômago, sangue, córnea, pele, medula óssea, dura máter, crista ilíaca, fáscia lata, patela, costelas, ossos longos, cabeça do fêmur, ossos do ouvido, safena, vasos sanguíneos, válvulas cardíacas, tendões e meninge.

Órgão/Tecido Tempo/Reirada Tempo/Transplante
Coração antes da PC* 4 – 6 h
Pulmões antes da PC 4 – 6 h
Fígado antes da PC 12 – 24 h
Pâncreas antes da PC 12 – 24 h
Rins até 30´após PC até 48 h
Córneas até 6 h após PC 7 a 14 dias
Ossos até 6 h após PC até 5 anos
                   *PC: Parada Cardíaca

Sistema de Transplantes de São Paulo

     Embora o sistema de transplantes no Brasil envolva as esferas federal e estadual, no estado de São Paulo ele funciona de maneira diferente, enquanto nos outros estados a Central se concentra em Brasília, em São Paulo sua Central é em sua própria capital. “O Sistema Estadual de transplantes funciona um pouco diferente com o que acontece em outros estados que é chamado de CNCDO. A Central tem como função manter o cadastro dos receptores, as pessoas que precisam de transplantes são cadastradas pelas suas equipes médicas que atendem o paciente, constata a necessidade do transplante e inscreve o paciente no cadastro da Central via computador. E a nossa função, além de manter o cadastro dos doadores e dos receptores, é fazer a distribuição dos órgãos captados dentro do estado, se eventualmente sobrar algum órgão, este poderá ser enviado para outro estado”, explica o Agenor Ferraz.

     “O sistema de transplantes de órgãos funciona em São Paulo desde 1997 e sua estrutura para fazer as cirurgias está mais bem organizada, perto dos outros estados que começaram tarde e não se organizaram da forma devida”, comenta Agenor Ferraz e segundo o médico, São Paulo se destacou primeiro por ter sido pioneira em transplantes de órgãos, desde 1968 se faz transplantes de rins, coração, fígado, e segundo, porque houve vontade política de fazer que o Sistema de Transplante funcionasse, a Secretaria da Saúde uniu-se ao governo estadual sustentando os gastos das cirurgias.

     Por isso o volume de transplantes feito dentro do estado de São Paulo é muito grande, representa em média quase 50% dos transplantes feito hoje no Brasil, e a outra metade é a soma de todos os outros estados brasileiros. “Em São Paulo a fila de espera para transplante de córnea é praticamente zero”, afirma Agenor Ferraz.

Receptores

     Para entrar na lista de espera de transplante, a equipe médica precisa cadastrar o paciente na lista única do Sistema. Os pacientes, também chamados de receptores, são separados em ordem cronológica de acordo com o órgão que será transplantado e também pelo tipo sanguíneo. O médico Agenor Ferraz explica que “a perfeita compatibilidade é necessária só para transplantes de rins, outros órgãos como o coração e o fígado são poucos antigênicos no organismo, ou seja, induzir muito pouco a produção de anticorpo”, por isso o rim é o único órgão que não respeita a ordem cronológica da lista única, pois vai de acordo com a compatibilidade das células do doador e do receptor, “a lista do rim é instável, uma pessoa pode receber no mesmo dia que foi cadastrada no Sistema, ou demorar mais de 5 anos para receber um rim compatível”.

     Porém, o pareamento de idade, o tamanho do corpo, o tipo de atividade física que o doador estava acostumado a fazer são levados em consideração, e é o próprio Sistema que compatibiliza esses fatores. “Se você pegar um doador sedentário e colocar em um receptor que é atleta, não dará certo, ele não vai funcionar” explica Agenor Ferraz.

     O universitário João Marcos Previattelli relatou que aos 12 anos ele recebeu uma válvula pulmonar do coração, devido a um estreitamento da válvula aórtica. Sobre sua permanência na fila de espera ele diz: “como recebi de imediato (em torno de 15 dias), não me lembro de ter ficado mal, ou tenso. Para me cadastrar, o hospital do coração (Hcor) tem parceria com outros hospitais, eles solicitaram e receberam de um hospital de Curitiba”.

     Entretanto, o jovem Juliano Dias do Prado que aos 14 anos precisou transplantar duas vezes a córnea, devido uma doença chamada Ceratocone, que afeta a espessura da córnea, dando a impressão de visão desfocada e distorcida. A doença que vai progredindo resultou na perda quase total de seu olho esquerdo, enxergando somente 10% de um olho e do outro 75%. No primeiro transplante, Juliano esperou 4 meses na fila, porém em poucos dias detectou que a córnea havia sido rejeitada pelo seu organismo, necessitando de outra cirurgia, mas desta vez ficou apenas um mês na fila de espera. “É claro que quando o meu médico disse que iria fazer um transplante, imaginei uma fila quilométrica, pensei que ficaria uns 10 anos na fila”, confessa.

Doações de órgãos no Brasil

     Apesar do Brasil ter batido o recorde ao registrar 13,6 doadores por milhão de população (pmp), registrando nos primeiros quatro meses de 2012 a realização de 7.993 transplantes – um crescimento de 37% em comparação ao mesmo período de 2011, quando foram notificados 5.842 transplantes – as doações ainda são insuficientes, e permeiam ainda um receio, principalmente por parte da família, de permitir as doações.

     “A recusa gira em torno de 40% das famílias que recusam a doação de órgãos, o que precisamos é aumentar as notificações de doadores, para posteriormente falar com suas famílias”, explica Agenor Ferraz. Dentre os fatores estão: as religiões que impedem que seus fiéis permitam à doação, a falta de informação, a dificuldade de fazer com que a família entenda o conceito de morte encefálica e o mito de que o corpo fica deformado. Porém, sobre a questão da aparência física a lei é clara: os hospitais autorizados a retirar os órgãos têm que recuperar a mesma aparência que o doador tinha antes da retirada.

(O gráfico é baseado em 3.200 entrevistas feitas em 2010)

     De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo, com 95% das cirurgias feitas no Sistema Único de Saúde (SUS), que cobre todos os gastos, “é uma das coisas do SUS que é bem paga, por exemplo, se for comparado a um parto que os gastos são em torno de 300 reais, perto de um transplante que pode chegar a 60.000 reais”, afirma Agenor Ferraz. Porém, os entrevistados realizaram seus transplantes pelos seus convênios.

     Agenor Ferraz enfatiza também a importância da mídia sobre a doação de órgãos: “a imprensa pode ajudar muito a doação de órgãos, mas ela também pode acabar com as doações durante um período, se ela veicula uma notícia ‘bombástica’ e negativa. E isso faz as doações caírem até que sejam esquecidas pela população, esse tempo que as doações demoram a se recuperar, é o tempo que as pessoas que estão na fila esperando um transplante morrem”.

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