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Por Flávia Fernandes

A marca inglesa Burberry inaugurou em junho deste ano a sua quarta loja no Brasil. Para celebrar o acontecimento, a grife trouxe ao país a plataforma virtual “Art of the Trench”. Exclusiva para os proprietários do trench coat, ela funciona como uma espécie de rede social onde os usuários podem postar suas fotos usando a icônica peça. Criado por Thomas Burberry em 1901, o casaco impermeável se tornou carro chefe da moda britânica. Através do projeto, o atual diretor criativo da marca, Christopher Bailey, pretende criar um documento vivo do trench coat. Assim, o “Art of the Trench Brazil” mostra que a Burberry não está somente interessada comercializar seus produtos no país, mas sim apresenta a identidade da marca aos brasileiros.

Além da Burberry, Valentino, Prada, Lanvin, Miu Miu e Hugo Boss inauguraram lojas no país esse ano. Essas marcas apostam no conceito de loja flagship, que proporcionam uma experiência que vai muito além da compra. A palavra flagship quer dizer, ao pé da letra, nau capitânia, mas para o mercado da moda caracteriza lojas que representam a essência da marca. Esses estabelecimentos costumam ser inovadores, demostrando o potencial criativo da grife, além de disponibilizarem toda a coleção já consagrada da marca.

Interior da flagship da Miu Miu em São Paulo.
Foto: Reprodução

O objetivo desses projetos é conquistar definitivamente o mercado de luxo brasileiro. Um estudo realizado pela Bridge Research, concluiu que nos próximos anos não haverá uma marca de luxo importante que não tenha aberto uma loja no Brasil. Limitados pela crise econômica, Estados Unidos e Europa não representam um mercado aquecido. Já no Brasil, espera-se que as classes A e B cresçam 29% entre 2012 e 2014. Isso representa novos 7 milhões de consumidores de luxo em potencial.

Além disso, o país já desponta como um dos maiores consumidores moda da América Latina. A Argentina enfrenta uma crise no mercado de produtos importados. Yves Saint Laurent, Ralph Lauren e Calvin Klein fecham suas portas no país devido inflação e restrita política de importação. Enquanto isso, a Tommy Hilfiger vende anualmente US$ 320 milhões no Brasil, maior número de vendas entre todos os países latinos.

Para investir no mercado nacional as empresas estrangeiras analisaram o cenário e perceberam grandes diferenças entre o comportamento de consumo dos brasileiros quando comparados aos dos mercados consagrados. O Brasil valoriza marcas que já se estabeleceram como ícones internacionais. “O grande erro que muitas marcas cometem quando vêm para o Brasil é não observar essa diferença. O brasileiro busca mais esse brilho, o prestígio. São tipos diferentes de luxo, mas o que posso dizer é que esse mercado no Brasil ainda tem muito para crescer” diz Paulo Al-Assal, especialista em tendências, em entrevista para Mundo do Marketing.

Contudo, o comportamento de consumo da nova geração dá diretrizes para uma mudança nesse cenário. A pesquisa da Bridge Research ainda apontou que os jovens que nasceram entre 1978 e 1990 estabelecem um relação diferente com a moda: para eles, é melhor consumir marcas do que ostentá-las, ou seja, eles não abandonam os modismos mas valorizam a qualidade e são incansáveis na busca por inovação.

Assim, o mercado nacional apresenta alternativas para esse novo tipo de consumidor. “O Brasil é cheio de energia, tem um monte de novos designers e duas semanas de moda, a São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio (…) a Europa está ficando velha, as pessoas na Europa estão ficando velhas e é muito excitante ver um mercado onde trabalham tantas pessoas com menos de 35 anos” disse a consagrada jornalista britânica, Suzy Menkes, em entrevista ao portal FFW.

As semanas de moda de todo o mundo têm apostado no potencial criativo dos novos designers brasileiros. Pedro Lourenço, é o único latino-americano a se apresentar na semana do prêt-a-porter de Paris. Filho dos renomados estilistas Glória Coelho e Reinaldo Lourenço, fez sua estreia na semana de moda parisiense em 2010, quando tinha apenas 19 anos e desde então já foi elogiado pelos críticos do “Daily Telegraph” e Style.com.

Backstage Pedro Lourenço – Primavera 2013 em Paris.
Foto: Style Bistro

Lucas Nascimento, 31 anos, também é uma grande aposta brasileira. Seu trabalho com tricô já fez parte de coleções de marcas renomadas como Neon e Amapô no Brasil, e Basso & Brooke no exterior. Em 2010 ele apresentou a primeira coleção com seu nome na semana de moda do Rio de Janeiro e esse ano desfilou pela segunda vez na London Fashion Week.

Mas esse movimento não é tão recente. Há anos o reconhecimento da moda brasileira no exterior não se limita à moda praia. Em 2002, Francisco Costa, que sempre esteve presente no cenário da moda americana, foi nomeado diretor criativo da linha feminina da Calvin Klein. Além dele, estilistas como Alexandre Herchcovitch e Carlos Miele, grandes nomes da moda brasileira, já se destacavam na semana de moda de Nova York desde 2004 e 2007 respetivamente. “Ou você é um estilista novo e sem dinheiro, que eu não sou mais, mas que faz uma coisa que ninguém viu na vida todo mundo vai te ajudar. Foi o que aconteceu com o Gareth Pugh e com o Jeremy Scott. Ou você tem dinheiro para contratar o melhor assessor de imprensa e anunciar nas melhores revistas. Eu não estou nem lá nem cá: eu não tenho nem dinheiro pra anunciar e nem sou um novo criador, eu já estou desfilando lá fora desde 1998 – é muito tempo. Hoje eu estou numa posição neutra e sem grande alardes. O meu desfile obviamente é visto por pessoas importantes, mas não é o desfile mais importante que acontece em Nova York. Eu estou lá naquele meio de estilistas e marcas que se apresentam porque comercializam sua roupa lá fora, mas não chega aos pés do que acontece no Brasil, pois aqui todos conhecem o meu histórico e tem carinho pelo meu trabalho. Se eu quisesse ter, de fato, uma carreira internacional eu teria que mudar de pais quando eu comecei a lançar minhas coleções lá fora, e isso eu não consegui fazer” explica Herchcovitch sobre a recepção do seu trabalho fora do Brasil.

“As semanas de moda de for a estão bem saturadas. Há muitas marcas, de muitos estilistas desfilando. Mas acredito que haja, sempre, lugar para talentos. Nenhuma porta vai se fechar para quem tenha talento” diz Maria Prata, diretora de redação da Harper’s Bazaar Brasil. Assim, o mercado internacional ainda abre portas para designers já consagrados no Brasil que buscam o sucesso fora do país. Esse ano a Osklen fez sua estreia em Nova York. Fundada em 1989, no Rio de Janeiro pela atual diretor criativo Oskar Metsavaht, a marca agora olha para os Estados Unidos como oportunidade de crescimento. Com três lojas na Itália, duas no Japão, duas nos EUA e uma na Argentina, a Osklen quer divulgar no exterior sua proposta de moda sustentável. “Penso na atitude sustentável com a moda que Oskar Metsavaht, da Osklen, por exemplo, tem. Já estávamos desde o ano passado tentando achar um modo de falar sobre sustentabilidade e essas questões. E isso é muito mais presente no Brasil” aponta Suzy Menkes.

A invasão das marcas estrangeiras deixam a competição pelo mercado no Brasil mais acirrada, criando uma concorrência desleal. A moda brasileira é diretamente afetada pela crise no setor têxtil: valorização cambial, a elevada carga tributária e a concorrência com os tecidos asiáticos prejudicaram essa indústria. “Estamos vivendo um momento muto especifico. Nossos estilistas estão concorrendo com marcas muito poderosas, que fazem roupas de muita qualidade. Aqui no Brasil, devido a muitos impostos e dificuldades de mercado, a roupa de nossos estilistas acaba saindo muito cara. E, como a qualidade é pior, talvez algumas consumidoras prefiram comprar o internacional. Nesse sentido, nossos criadores terão de pensar em uma nova maneira de produzir, serem criativos nesse sentido” diz Maria. Desse modo, o produto final do Brasil se torna  pouco competitivo no mercado onde estão presentes marcas que recebem muito investimento e contam com fortes estratégias de marketing. Assim, os estilistas brasileiros encontram na inovação e criatividade a formula para superar esses obstáculos e ganhar destaque não só no Brasil como em todo o mundo.”Acho que manter no Brasil uma mão de obra criativa, fortalecer nossa industria, seria incrível. Mas, como hoje tudo é tão global, acho bom e fico orgulhosa quando um brasileiro tem sucesso lá fora” complementa Maria Prata.

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