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Por Marcela Millan e Patricia S. Zylberman

“Eu não sou como uma boneca, as bonecas são como eu”. Essa frase, dita por Anastasiya Fukkacumi Shpagina, parece resumir a essência de uma tendência que surgiu na internet, a das meninas bonecas.  Com corpos absoluta e estranhamente magros, rostos que parecem ter perdido a expressão devido à grande quantidade de maquiagem e plástica, essas mulheres trazem em si o reflexo de uma sociedade que tem como padrão o modelo “Barbie”.

Anastasiya, mais conhecida como Nastya, de 19 anos, tem 1,58 metros de altura e pesa apenas 39 quilos – o que não parece ser o suficiente para ela, que diz que ainda não se encontra satisfeita. Em sua rotina, leva mais de duas horas para maquiar apenas seu rosto, o que a faz pensar em investir em cirurgias para agilizar o processo. Em jornais ucranianos ela afirma que algumas pessoas se assustam com sua aparência, mas isso não parece ser um freio para ela.

Assim como Nastya, outras meninas bonecas surgiram na internet em um curto espaço de tempo. A mais famosa – e que gerou muita polêmica nas redes – é a ucraniana Valeria Lukyanova. Se Nastya se inspira nas bonecas orientais, Lukyanova parece, realmente, uma réplica viva da boneca Barbie. Com mais de 450 mil seguidores no facebook, ela parece ser uma nova celebridade, atraindo olhares não somente por sua beleza, mas por sua aparência única, que causa estranheza para muitos.  No primeiro momento, muitas pessoas a acusaram de não ser real, mas as inúmeras fotos e vídeos no youtube acabaram por abafar esse boato. Diferentemente de Anastasiya, Valeria Lukyanova admite ter se submetido a algumas cirurgias plásticas, divulgando o vídeo de uma delas.

Em todo o mundo, a busca por esse padrão de beleza quase irreal parece ser pauta diária para a maioria das mulheres. Dados da Sociedade Internacional de Cirurgiões Plásticos Estéticos (ISAPS) afirmam que o Brasil é o segundo país no ranking mundial de cirurgias plásticas. Atualmente são realizadas mais de 1,7 mil cirurgias plásticas, ou seja, a cada hora, são 71 operações estéticas em pessoas que objetivam com o procedimento a busca do corpo e do rosto perfeitos. O país só perde em número de plásticas para os Estados Unidos, o primeiro da lista em todo o mundo.

 “É um padrão artificial que exclui a vasta maioria das mulheres”, afirma Ilana Zylberman, psiquiatra e professora de Nova York. “Barbie é praticamente inatingível para a maioria das mulheres e meninas”. Apesar disso, a moda parece exigir cada vez mais de seus modelos um corpo magro, dito “perfeito”, fazendo com que muitas pessoas acabem desenvolvendo doenças com distúrbio da auto imagem. “Em ‘Body Dysmorphic Disorder’ a percepção do corpo ou de uma parte desse não representa a realidade”, conta Ilana. “Há uma preocupação com um defeito imaginário na aparência, ou se há um pequeno defeito, a percepção é exagerada”, continua. Body Dysmorphic Disorder é uma doença mental que faz com que as pessoas se preocupem excessivamente com sua imagem corporal, focando-se em alguma parte específica de seu corpo – seja seu nariz, seios, ou até sua fisiologia. Diferentemente do que se acredita, essa doença pode surgir também em homens. “Uma variante nos homens é o desejo de desenvolver uma massa muscular excessiva”, expõe Ilana.

Um dos modos dessa doença se manifestar é por meio da Anorexia Nervosa, muito comum nas modelos de atualmente. “O paciente se sente gordo, mesmo que esteja caquético”, diz a psiquiatra. Não é a toa que a modelo Ana Carolina Reston morreu, em 2006, com 21 anos. Ela tinha apenas 40 quilos para 1,74 metros de altura. No inicio de sua carreira, foi considerada obesa, com 51 quilos.

Frente a isso, muitos sites na Internet parecem exaltar tal condição. Como o que acontece com http://mileycha.wordpress.com/dicas-pro-ana/, que é, assumidamente, um site pró-anorexia. Em seus textos,  Mileycha Valverde traz até mesmo dicas para aquelas que querem emagrecer. “Se puna se tiver compulsões, seja por meio de exercícios, vômitos, laxantes, etc”, escreve.

         Seguindo uma ditadura da moda, essas pessoas parecem não medir esforços para chegar às medidas desejadas, prejudicando, até mesmo, sua saúde. Procurando se opor a esse padrão, nos Estados Unidos foram lançadas as bonecas “mini me”. “São bonecas loiras, morenas, com cores de pele e olhos variadas, gordinhas, etc, que as vezes vestem as mesmas roupinhas da dona. É exatamente o inverso do conceito de Barbie, e ajuda a auto-estima”, comenta Ilana. Com esse novo conceito, não são as pessoas que devem se transformar em bonecas, mas as bonecas que precisam se espelhar nas pessoas.  

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