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Por Flávia Fernandes

“O cristianismo vai acabar. Vai se dissipar e depois sucumbir. Nem preciso discutir isso. Estou certo e o tempo vai provar. Atualmente somos mais populares que Jesus Cristo. Eu não sei o que vai desaparecer mais rápido – rock ‘n’ roll ou o cristianismo. Jesus estava certo, mas esses discípulos são ordinários. São suas distorções que transformam tudo em ruínas para mim.” Foram essas as palavras ditas por John Lennon durante entrevista concedida ao London Evening Standard em março de 1966. O artigo How Does a Beatle Live? John Lennon Lives Like This relatava uma conversa, repleta de devaneios e pensamentos aleatórios, que a repórter Maureen Cleave, amiga do Beatle, teve com Lennon na sua casa em Weybridge.

Discos dos Beatles sendo queimados em Waycross, Georgia (1966) Fonte: Reprodução

No mesmo ano, a revista americana Datebook publicou uma matéria sobre os Beatles, pois banda se preparava para realizar uma turnê mundial que passaria pelos Estados Unidos. Nela estava destacada, fora de contexto, a declaração de Lennon envolvendo Jesus Cristo. Assim como tudo relacionado ao quarteto britânico, a frase teve uma enorme repercussão e incomodou fundamentalistas cristãos que promoveram protestos ao redor do mundo:  no Alabama discos dos Beatles foram queimados em enormes fogueiras. Os sul-africanos baniram a banda de suas rádios por cinco anos. Na Europa, eles foram criticados pelo governo fascista espanhol e pelo Papa Paulo VI. Além disso, o grupo sofreu diversas ameaças de morte, inclusive da Klu Klux Klan que planejava realizar atos terroristas durante os shows da banda nos EUA.

Para os conservadores, o episódio provou que os Beatles eram a personificação de tudo aquilo que poderia influenciar negativamente a juventude. A vanguarda do quarteto incomodou até mesmo Elvis Presley. O astro do rock criticava a militância dos Beatles contra a Guerra do Vietnã e a favor da legalização das drogas. Acreditava que a banda era a raiz dos problemas que os jovenscausavam no Estados Unidos e chegou até a pedir ao presidente Richard Nixon impedir a entrada do grupo no país.

Contudo, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr fundaram, em 1960, na cidade inglesa Liverpool, aquele que seria o maior fenômeno da cultura pop. Como ícone absoluto dos anos 60, eles resumiam o ideal da chamada juventude libertária.  Essa foi a primeira geração a conquistar o direito de ser jovem. Através de movimentos de contracultura e revoluções sociais, ganharam espaço na coletividade, sendo agentes de grandes mudanças comportamentais.

Assim como a juventude dos anos 60 foi amplamente criticada, em mais de 10 anos de carreira, não faltaram controvérsias envolvendo os Beatles. Desse modo, para alguns fãs a banda se tornou um quebra-cabeça pronto para ser desvendado. “Sequer tocamos na obra se não a deixarmos falar sua própria língua. O princípio do quebra-cabeça acredita que um momento final onde tudo se encaixa. Dito de outra forma haveria uma única configuração apta a interpretar o fenômeno. Some-se a isso que o fenômeno musical é da ordem simbólica e artística. Ora, ao se aproximar da música dos Fab Four munidos de tais ferramentas a música só pode se calar! Em referência ao racionalismo do Descartes, Adorno escreveu que ‘os fanáticos da luz’, da razão que tudo vê, são insensíveis à sombra e às nuances” diz Gustavo Chataignier Gadelha, o professor do curso “Beatles: História, Arte e Legado” promovido pelo departamento de letras da PUC-Rio. Algumas análises tão absurdas que soam como verdadeiras teorias conspiratórias, como o boato que Paul McCartney havia morrido em 1966 em um acidente de carro e sido substituído por um sósia.

Icônica capa do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band

Aqueles que acreditam na teoria encontram na obra dos Beatles diversos sinais que  comprovam a morte de Paul. A capa do disco de 1967, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, elaborada por Peter Blake, mostra várias celebridades que já morreram, ou tiveram experiências de quase morte, em frente ao que supostamente seria uma cova aberta, demostrando a estreita relação que os britânicos tinham com a morte. Em 1969, os Beatles lançaram o álbum Abbey Road cuja capa representa a banda atravessando a rua onde está localizado o estúdio Abbey Road em Londres. Na cena, Paul é o único integrante do quarteto que está descalço, além disso, um dos carros ao fundo está na contramão indicando a suposta causa da morte.  Além das capas de álbuns, A Day In The Life e She’s Leaving Home são apenas algumas das várias músicas que contém mensagens que poderiam evidenciar a morte de Paul McCartney.

A lenda urbana foi levada tão a sério que já foi até objeto de estudos científicos. Henry Truby, pesquisador do departamento de linguagem e linguística da Universidade de Miami, fez uma análise das músicas dos Beatles e diz ter encontrado três registros vocais diferentes correspondentes aos trechos das gravações em que Paul McCartney canta.Já a cientista forense italiana, Gabriella Carlesi, observou imagens dos anos 60 e imagens atuais do Beatle e encontrou alterações na estrutura do crânio, maxilar e arcada dentária. Apesar de toda essa investigação, até hoje nenhuma suspeita foi oficialmente comprovada. Contudo, algumas das polêmicas envolvendo os Beatles ultrapassaram o plano da conspiração infundada e chegaram aos tribunais.

Charles Manson nasceu em 12 de novembro de 1934 em Ohio. Filho de uma prostituta e de um pai ausente, teve uma infância e juventude conturbadas. Em 1967, comestrutura do crânio, maxilar e arcada dentária. Apesar de toda essa investigação, até hoje nenhuma suspeita foi oficialmente comprovada. Contudo, algumas das polêmicas envolvendo os Beatles ultrapassaram o plano da conspiração infundada e chegaram aos tribunais.  33 anos e passagens por diversas prisões em todo o território americano, ele se refugiou em uma fazenda abandonada em São Francisco durante o auge do movimento hippie. Lá criou a seita “A Família” cujos integrantes acreditavam que Mason era uma espécie de messias. Seus seguidores defendiam a eugenia e tinham o hábito de saquear residências e supermercados, além disso, realizavam frequentes orgias regadas a LSD.

Mais tarde, o sociopata encontrou nos Beatles uma inspiração para sua estranha filosofia. Ele acreditava que os integrantes do quarteto eram cavaleiros do apocalipse e que suas músicas tinham como objetivo anunciar o fim do mundo. Na concepção de Charles Mason, a grande obra-prima dos britânicos era o álbum de 1968, popularmente conhecido como White Album (Álbum Branco) cujo auge seria Helter Skelter – uma representação de uma série de acontecimentos que culminariam em uma catastrófica guerra racial. “É evidente que as músicas do Álbum Branco, em particular Helter Skelter, não foram criadas para inspirar violência. Por sinal, o nascimento desta música é bem conhecida e já foi relatada pelo Paul em diversas ocasiões. A motivação principal foi gerar uma música barulhenta” explica Eduardo Brocchi, professor da PUC-Rio e coordenador do curso sobre Beatles.

Mas Charles Manson era convicto de seus ideais e para difundi-los pretendia gravar um disco. Porém, o produtor musical Terry Melcher se negou a lançar o álbum do líder da seita. Assim, em 9 de agosto de 1969 Manson e “A Família” planejaram invadir o apartamento do produtor e assassiná-lo. Contudo, quem estava na casa naquela noite eram Sharon Tate, esposa do cineasta polonês Roman Polanski que estava grávida de oito meses, Abigail Folger, Wojciech Frykowski, Jay Sebring e Steven Parent. Todos eles foram brutalmente assassinados a facadas. Com o sangue das vítimas foram escritas pelas paredes da casa títulos de músicas dos Beatles como Helter Skelter, Pig – referência a faixa Piggies, e Arise –referindo-se a música Blackbird. Os assassinatos figuram entre os crimes mais violentos da história dos Estados Unidos. O mentor, Charles Mason, foi condenado à pena de morte, mas devido a uma mudança na lei californiana teve sua sentença alterada para prisão perpétua.

Em entrevista concedida para revista Playboy em setembro de 1980, John Lennon afirma que os Beatles não têm nenhuma culpa nos assassinatos “Não. Isso não tem nada a ver comigo. Mason é somente uma versão extrema daquelas pessoas que inventaram a história da morte do Paul, ou daquelas que perceberam que as iniciais de Lucy in the Sky with Diamonds eram LSD e concluíram que eu estava escrevendo sobre ácido”. A entrevista realizada pelo jornalista David Sheff com Lennon e Yoko Ono foi publicada em 6 de dezembro de 1980. Dois dias depois o ex-Beatle foi assassinado.

Diversas hipóteses cercam a morte de um dos maiores ídolos da cultura pop. A mais aceita é que David Chapman teria acertado quatro tiros à queima-roupa em John Lennon para ganhar seus 15 minutos de fama. Mais tarde, o assassino afirmou que pretendia divulgar o livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Porém, o fato da vida de Lennon ter sido monitorada pelo FBI durante anos fez surgir teorias muito mais polêmica, como a do britânico Fenton Bresler, autor do livro Who Killed John Lennon? (Quem Matou John Lennon). Ele afirma que na Chapman não realizou o crime por contra própria, mas sim que foi induzido pelo FBI e pela CIA a cometer o assassinato.

Cartaz do evento que protestava contra a pisão de John Rally
Fonte: Reprodução

John Lennon foi durante anos investigado pelo serviço secreto da Grã-Bretanha, que acreditava que ele estaria envolvido com o Exercito Revolucionário Irlandês (IRA). Já o governo americano afirmava que Lennon era em extremista de esquerda muito perigoso, pois tinha grande influência entre os jovens. A perseguição se intensificou quando o John Lennon promoveu, em 1971, o concerto Free John Now Rally, em que clamava pela libertação do poeta John Rally que havia sido preso por porte de maconha. As investigações do FIB produziram um dossiê com mais de 300 páginas. Contudo, quando os republicanos perderam a eleição de 1976 e o democrata Jimmy Carter se tornou presidente, foi dada uma trégua ao músico. Mas quando os republicanos reassumiram o poder em 1980, havia chegado a hora de eliminar o ex-Beatle, assim como havia sido feito com outros líderes comunitários. Fenton Bresler afirma que naquele momento William Casey, chefe da CIA, recebeu carta branca do governo para matar John Lennon. Então, entra em cena David Chapman: seu trabalho seria balear o músico na frente de testemunhas que provassem sua culpa integral no crime. “A hipótese de uma ‘ação orquestrada’ não me parece a melhor forma de se compreender a morte de John Lennon. Mesmo que os Beatles tenham sofrido ameaças nos EUA e mais tarde John tenha sido vigiado por serviços de inteligência, a culpa deve, sim, recair em Chapman. Podem-se fazer ilações de como o star system, aliado a vivências traumatizantes, pode ensejar sujeitos extremamente violentos assim. Há ainda que se somar o azar de Lennon de estar ali naquele momento” menciona Gustavo Gadelha.

Por mais improváveis que todas essas teorias possam soar, uma coisa é fato: somente a enorme relevância que os Beatles tiveram para a sociedade contemporânea poderia intrigar tantas pessoas e levá-las a investigar cada detalhe sobre a suas vidas e obra. “Os Beatles estavam na hora certa no lugar certo. O mundo estava precisando de alguns novos conceitos e valores, consequentemente, de mudanças comportamentais. A diferença é que os Beatles se fizeram presente no cenário musical com muito talento e originalidade e através desta participação foram ocupando outros espaços, por vezes até mesmo ao acaso. Em suma, os Beatles se fizeram presente não apenas artisticamente, mas também, assumindo posições. Portanto, para uma geração, os Beatles foram mais do que músicos, mas uma fonte de inspiração, alegria e conscientização do poder (até então ofuscado) dos jovens” menciona Eduardo Brocchi.

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