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Por Luciene Sudré

             É bonito falar sobre um Estado democrático e sobre liberdade, mas a realidade na qual as mulheres vivem é o oposto disso. Parece que a primavera chega a todos os lugares, mas só parece. A estação tão usada como metáfora para preencher versos de poemas, não chegou para as mulheres. Nossa sociedade patriarcal e machista impede que isso aconteça a cada nova flor que venha a florescer. O conservadorismo é algo que não trata mulheres com igualdade, e, muito menos com delicadeza. Flores não são tratadas como flores.

Mulheres no Egito – Primavera Árabe

O machismo, a agressão e a desigualdade entre gêneros transbordam em diversos contextos: a política e a democracia não estão fora desse cenário. A “Primavera Árabe”, por exemplo, foi uma onda de protestos que se espalhou pelo Oriente Médio e norte da África, que derrubou quatro ditadores em um ano, onde o povo saiu às ruas e lutou pela democracia. Em um movimento legítimo, a democracia e a liberdade foram alcançadas por meio da massa, das mãos dos trabalhadores e estudantes, e, com certeza, isso é significante para a história mundial. Certo nível de conscientização política da população é notável.

Porém, mesmo quando um país passa por um processo como esse, outras mazelas sociais ainda se perpetuam. Independente do sistema político, seja um governo democrático representativo, um governo de direita ou de esquerda, o machismo existe. Luta-se pela democracia, pois todos têm direitos de votar e participar ativamente na escolha de seu governante. Mas, os demais direitos das mulheres, mais uma vez, são deixados à sombra da primavera, por mais que essas também tenham direito a voto.

Primavera não chegou para as mulheres egípcias.

Pode se imaginar que em um país, como o Egito, onde o presidente Hosni Mubarak, que estava no poder havia 30 anos, renunciou dezoito dias depois do início das manifestações populares, concentradas na Praça Tahrir (ou Praça da Libertação, em árabe), no Cairo,  seja um país onde a liberdade esteja instaurada para todos os gêneros. Não é bem assim. A Praça Tahrir, que se tornou um símbolo da Primavera Árabe egípcia, foi “palco” de uma tentativa de abuso sexual sobre uma jornalista francesa, enquanto essa estava em um link, ao vivo. Com homens ao redor, foi coagida até sair da frente da câmera. Nessa sociedade, a liberdade não é para todos.

Segundo o site espanhol “La Sexta”, mais de 80% das mulheres egípcias já sofreram abuso sexual, pelo menos uma vez. Assim como a jornalista francesa, que foi “salva” por um colega. A repórter dos Estados Unidos, Lara Logan, correspondente da CBS durante a caída de Murabak afirma ter vivido uma verdadeira agonia a cada dia, pois também sofreu por uma tentativa de abuso sexual. “Quando me tiraram a roupa, lembro de olhar para cima e ver como estavam fotografando com seus celulares”, relatou a jornalista. 

            Em abril desse ano, José Antonio Lima escreveu uma matéria para a revista Carta Capital, cujo título era: “A Primavera Árabe vai promover o direito das mulheres?”. A matéria desenvolveu-se analisando um artigo publicado pela jornalista egípcia-americana Mona Eltahawy na edição de maio/junho de uma revista chamada Foreign Policy, chamado “Porque eles nos odeiam?”, causando muito alvoroço entre as mulheres do Oriente Médio. No artigo, Mona atribui a delicada e desigual situação das mulheres no Oriente Médio pela mistura, tóxica, entre a religião e cultura somada a uma guerra entre homens e mulheres. Segundo a jornalista, a revolução das mulheres tem de ser a parte, uma revolução particular à Primavera Árabe e isso só acontecerá quando os ditadores machistas, sejam eles cobertos por “democracia” ou não, foram derrubados. Ditadores nas “mentes e nos quartos”.

Capa da Revista Foreign Policy. “Why do they hate us”?

A questão levantada é se o  embrião de democracia produzido pela Primavera Árabe fará florescer no Oriente Médio os direitos das mulheres. “Em seu artigo, Mona tenta comprovar a misoginia no mundo árabe com uma série de exemplos de violações cometidas contra as mulheres. Ela cita, por exemplo, a proibição de as mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Debate leis de países coniventes com violência doméstica contra as mulheres em “casos especiais”, e lembra que o assédio sexual é uma prática endêmica na região. Mona cita outras violações ainda mais atrozes, como a mutilação genital, proibida, mas ainda muito comum no Egito; os “testes de virgindade”, também realizados no Egito; as permissões de casamentos entre homens adultos e meninas de 10 ou 11 anos no Iêmen e na Arábia Saudita; ou de casamentos entre vítimas de estupros e seus algozes.” escreve o jornalista, que conclui a matéria dizendo “No Egito, no Brasil, na Europa ou no Japão, a histeria e a criação de uma guerra de gêneros contribui pouco para equiparar mulheres e homens. A única maneira de fazer isso de forma duradoura, em qualquer país do mundo, é institucionalizar os direitos das mulheres e colocá-los sob a proteção de estados democráticos, longe dos ataques de quem pretende fazer a sociedade, qualquer sociedade, retroceder”.

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