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Por Isabella Amaral

“A fortuna das nossas vidas é a rotina”. Essa é a fala de uma das personagens do filme “O Gebo e a Sombra” de Manoel Oliveira e resume a história melhor do que qualquer resenha será capaz de fazer. A mais nova obra do diretor português de 103 anos foi capaz de esgotar os ingressos da sessão de estreia na última quarta-feira apesar de ser um filme lento, de falas longas e complexas e estética sombria. Filas de cinéfilos esperavam para se acomodar nas dependências do Cine SESC, na Rua Augusta, para conferir o filme com quadros de 24 minutos – algo praticamente instinto no cinema contemporâneo.

Manoel é o mais velho cineasta em atividade e, com mais de 80 anos de carreira, já ganhou quatro prêmios em Cannes, cinco Globos de Ouro e seis Leões do Festival de Veneza, entre outros prêmios. Já trabalhou com célebres atores internacionais como Catherine Deneuve, Marcello Mastroianni, John Malkovich e Lima Duarte.

Desta vez ele fez parceria com as grandes Claudia Cardinale e Jeanne Moreau, além de Leonor Silveira, uma de suas atrizes preferidas, ícone de sua filmografia, que veio ao Brasil para a apresentação do filme na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Após a sessão a atriz e o jovem produtor, Luís Urbano, conversaram com o público.

“O Gebo e a Sombra” surgiu a partir de um pedido feito ao cineasta: “Queriam que ele fizesse um filme sobre a miséria, mas ele achou que seria extremamente complicado, praticamente impossível” conta a atriz “No meiodo processo ele leu a peça de Raul Brandão, escrita em 1923, e resolveu adaptá-la para o cinema”. No final das contas Manoel diz não ter feito um filme sobre a pobreza e sim sobre algo muito mais profundo: a condição humana.

Por ter quase um século de experiência, o diretor domina toda a técnica disponível para a realização de um belo filme. Une-se a isso os textos complexos que são característicos de Manoel. Leonor explica que o diretor é extremamente minucioso “É tudo respeitado ao milímetro. A movimentação entre as janelas, o enquadramento estático, as vozes. Ele controla tudo”.

Luís comentou, brincando: “Você dá uma câmera digital, das mais modernas para o diretor mais experiente da atualidade: ele vai fazer maravilhas, mas vai ser trabalhoso”.

Manoel é atencioso em todos os momentos da filmagem, da preparação do elenco à luminosidade na transição de cenas. Segundo o produtor a base principal de seu trabalho é a confiança nos atores que ele escolhe. Leonor explica que o mais complicado é manter-se motivado e concentrado durante as longas filmagens “Nós fizemos quadros de 24 minutos, apenas conversando. É preciso que o ator esteja preparado para ir da página 1 a 80 de uma vez só”.

Ao final da conversa Leonor suspira e diz “É muito bonito. Ele se apoia na parte instintiva do ser humano, segue a palavra e movimento com muito respeito. Afinal é por isso que ele é Manoel Oliveira”.

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