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Por Luciene Sudré

João Pedro, 12 anos. Menino magro, cabelo enroladinho cor-de-graxa, mulato. Típica criança dessas que vemos nos comerciais de margarina, que chegarão a cursar uma faculdade e “crescer na vida”. Não. Na verdade não. Isso provavelmente não irá acontecer porque no caminho de João existe uma sociedade e seu descaso com aqueles que seriam seu futuro. Seu pai, nunca conheceu. Quando tinha 5 anos, perdeu sua mãe quando essa deu a luz a sua irmã. Com 8, sua avó materna o matriculou em um colégio, mas teve que deixá-lo, apesar de gostar do ambiente, largou a escola porque sua avó faleceu e alguém precisava cuidar da sua irmãzinha, na época com 3 anos. Joãozinho, como era chamado pela família, sabia fazer malabarismo pois tinha aprendido com um de seus primos um tempo atrás. Mas o resto dos parentes voltaram para o nordeste, pela difícil sobrevivência na capital antes da morte da avó, que levaria João e sua irmã as ruas. Foi pelo malabarismo, com sua irmã sempre ao lado, descalça, assim como ele, que João conseguiu suas primeiras moedas.

Reprodução

Com elas João comprava pão e voltava para o pequeno e humilde barraco onde viviam. Um dia voltou e tudo estava queimado. João não entendeu o porquê, só sabia que a partir dali seria mais difícil. Continuou com os malabarismos, enfrentando frio, fome e sono nas ruas e cuidando da pequena. Ao juntar mais dinheiro, João pensou em ir à vendinha próxima ao centro e comprar doces. Quem sabe conseguiria lucrar mais. E assim foi, para a sorte dos irmãos. Com um “farol fixo”, João e sua irmã vendiam os doces e conseguiam juntar alguma coisa para se alimentarem, e foram sobrevivendo de doações das pessoas que passaram por ali.  Atualmente, João tem 12 anos e sua irmã com 7, já ajuda muito nas vendas. Eles aprenderam a “lidar” com essa vida.

Quase sempre se depararam com alguns desses adultos estúpidos. Pior mesmo são aqueles que os ignoram. Hoje, João foi em direção a um carro e antes mesmo de colocar seu pacote de balas no retrovisor – com a correria do tempo preciso no semáforo – um homem que estava dentro do carro, abriu o vidro, e disse em alto e bom som: “Vai trabalhar, vagabundo. Para de ficar pedindo esmola. Seu bandidinho!”.  Ao fechar o vidro novamente, o farol abriu e o homem foi embora. Atônito com a grosseria, João chamou sua irmã e sentaram-se na calçada. Naquela noite, quando foi dormir, cobriu sua irmã com o maior pedaço de papelão, e com o menor, evitou que ele próprio fosse passar tanto frio. Mas pensou naquela frase: “Vai trabalhar, vagabundo”. Pensou, se vagabundo de fato seria. Mas se deu conta que a única coisa que faz, legitimamente, é trabalhar. O tempo todo. Não por opção, mas por necessidade.

Essa é uma história fictícia, com personagens que não poderiam ser mais reais. João e sua irmã representam milhares de crianças que por todo o país trabalham em faróis e vivem nas ruas. Não há como negar que crianças estão por todos os lugares: Pelas ruas, pelos parques, pelas lojas, acompanhadas de seus pais, de seus amigos ou até mesmo sozinhas. Essas são as crianças que a sociedade enxerga e reconhece. Mas existem outras. Crianças invisíveis. Crianças, que trabalham como adultos e que apesar da idade não usufruem da sua infância. Brincar na rua, jogar bola, brincar de boneca, e até mesmo frequentar a escola é algo que já não lhes cabe, pois nessa realidade as prioridades são outras. Em nosso cotidiano, passamos por “crianças-adultas” todos os dias, sem realmente refletir sobre a situação dessas e o que o descaso com o “futuro da nação” representa em nosso desenvolvimento social. 

Não é difícil nos depararmos com cenas nas quais crianças pedem dinheiro ou comida pelo centro da cidade e são ignoradas. Ignoradas pelos cidadãos comuns e ignoradas pelas políticas públicas. Sem assistência social, muitos deixam sua infância e o estudo de lado, tornando-se adultos antes do tempo. É nesse contexto que encontramos crianças vendendo balas nos faróis, nos trens e nas avenidas em trocas de algumas moedas o dia todo. Da mesma forma, podemos encontrar crianças que usam o malabarismo como fonte de sobrevivência, sem o mínimo de reconhecimento, limpando vidros de carros.  Abandonadas pelos pais ou enfrentando as dificuldades econômicas e sociais com eles, muitas vezes esses trabalhos – quais não deveriam estar sendo feitos por crianças – não são suficiente para manter uma família ou a si próprio e as consequências são muitas.

Reprodução

São essas condições que configuram boa parte do quadro de prostituição infantil em nosso País, pois na mentalidade dessas meninas não há outra saída. Entre morrer de forme, e assistir seus irmãos mais novos passarem por dificuldades tamanhas, o ramo passa a ser a solução, primeiramente momentânea por mais que o momentâneo não se concretize posteriormente. Assim também se dá com a exploração do trabalho. Atrás de muitos pedidos ou sorrisos acompanhados das mercadorias que estão sendo vendidas, está um adulto que explora o trabalho infantil daquelas crianças, cobrando-as o pequeno lucro do dia e até mesmo as agredindo.

A dificuldade de trabalhar cedo, na rua, é um dos caminhos para que qualquer criança envolva-se com a violência ou com as drogas, por ser a única opção, ou então, por ser persuadida por outrem, o que leva a criminalização dessas crianças. Criminalização injustificável porque muitas vezes não estão envolvidas com nada disso e encontram os vidros dos carros sendo fechados quando andam em sua direção para oferecer um pacote de bala, amendoim ou uma flor, em um gesto singelo. O preconceito também passa por essa cena.  Os vidros dos carros fecham e os “vidros” das políticas públicas, dos governos também fecham e só aparecem em época de eleição com uma ou outra medida paliativa. Sem cometer crime algum, as crianças dos malabares, das vendas, “os pedintes” tornam-se menores infratores sem infringir nada, bêbados e drogados em um imaginário social coletivo e preconceituoso.

 Mas, quando infelizmente o quadro que vem se configurando é que cada vez mais crianças crescem e se envolvem com o tráfico e crimes. Francilene Gomes Fernandes, assistente social da Prefeitura, atua em Guaianeses e é supervisora das medidas socioeducativas aplicadas a esses adolescentes, afirma que esses não comentem crimes, e sim atos infracionais, conforme prevê o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Quando cometem estes atos, podem receber desde uma advertência a uma internação na Fundação Casa. A gravidade ou não desse ato infracional, julgada pelo juiz na Vara Especial da Infância e Juventude, irá determinar qual é a medida socioeducativa que o adolescente terá que receber ou cumprir. A assistente social também reitera que uma grande dificuldade que tem enfrentado para lidar e atender esses jovens são os atos preconceituosos que muitas pessoas ainda têm para com eles: “Não entendem que o problema é muito maior que isso. Antes de cometerem esses atos infracionais, houve uma cadeia de falhas, por parte de ausência do Estado, dificuldades das famílias etc”.

Foto: Reprodução. (Trabalhar ao invés de estudar)!

Além da discriminação a que essas crianças estão sujeitas, elas também correm perigo, pois estão expostas, dias e noites, a violência, a estupros, a exploração, a acidentes com carros e a problemas de saúde. Tem acesso a tudo isso, menos a educação, pois não há tempo para trabalhar com a finalidade de conseguir um prato de comida e estudar. Enfrentando essa realidade, daqueles que parecem poucos, mas são muitos, não há mais interesse da parte deles para frequentar uma escola, ou esse interesse só aparece quando o Governo aposta que para atrair o interesse das crianças e dos adolescentes o certo é proporcionar alimentação na escola, não como um apoio e sim como uma estratégia. Conscientização para que percebam que a educação é a base para uma transformação social que é bom, nada. Assim, talvez seja a hora de falar para os políticos responsáveis pela manutenção desse estado de abandono social em que vive as crianças de rua a mesma coisa que elas escutam dos motoristas.

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