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Por Marcela Millan

“Lance não tem espaço no ciclismo”. Essa frase, dita por Pat McQuaid, presidente da União Ciclística Internacional (UCI), marca a queda do esportista que teve sua carreira de conquistas destruída em questão de segundos. Acusado, em julho desse ano, de ter consumido substâncias ilícitas, o ex-ciclista Lance Armstrong foi desclassificado de todas as suas vitórias desde 1998, e, agora, encontra-se impedido de competir durante o resto de sua vida.

Considerado um ídolo americano, o antes clamado por ser heptacampeão do Tour de France, agora, transformou-se na maior decepção do ciclismo mundial. Além de perder todos os seus títulos, Armstrong foi obrigado a devolver à federação francesa da modalidade (FFC) 2,95 milhões de euros. Com uma fortuna estimada em R$ 251 milhões, Armstrong certamente não terá problemas para pagar o que lhe é exigido, mas esse não é o principal problema.

Mais do que um ciclista, Lance Armstrong era alguém para se ter como modelo. Já no inicio de sua carreira, com 22 anos, ele ganhara o Campeonato Mundial de Ciclismo, mostrando seu talento. Três anos mais tarde, a confirmação de um câncer no testículo, que havia se espalhado para o pulmão e cérebro, e sua difícil recuperação – os médicos acreditavam que Armstrong tinha apenas 40% de chances de sobreviver – vieram para torná-lo um modelo de superação e força. “Os médicos disseram que eu tinha um problema. Não acreditei. Como eu, com 25 anos de idade, sendo o melhor no meu esporte, poderia ter câncer?”, disse o atleta em uma entrevista ao Fantástico. Para ele, render-se à doença não era uma opção.

Depois de se recuperar, o ciclista criou a “Fundação Lance Armstrong” para a luta contra o câncer, e relatou, em vários livros, a sua história, mostrando que há meios de se superar tudo, desde que se empregue força nisso. Seu primeiro livro, “It’s not about the bike”, vendeu milhares de exemplares, e  sua biografia “Vontade de Vencer – A Minha Corrida contra o câncer”, não ficou atrás.

Apesar disso, todo esse prestígio não pareceu ser o suficiente para o atleta. Movido pela ânsia de sempre querer mais, Armstrong acabou se envolvendo com o doping, e toda essa imagem que ele havia construído foi perdida quando a ilegalidade foi descoberta. Até mesmo a figura de herói, que venceu uma doença grave, pareceu ser ofuscada pelo escândalo que a notícia provocou.

Armstrong é só um exemplo de um caso que se repete muitas vezes, até mesmo no Brasil. A dopagem já é bastante antiga – diz-se que tal prática começou a se desenvolver desde que se criaram eventos esportivos competitivos, que tinham a superação como regra. Nos jogos Olímpicos da Grécia, por exemplo, já havia uma fiscalização para impedir que os competidores tivessem o baço arrancado (acreditava-se que esse órgão podia prejudicar o condicionamento físico dos esportistas). Em 1904, Thomas Hicks ganhou a maratona recorrendo a doses de conhaque e estricnina, para conseguir aguentar o desgaste físico da corrida. Como resultado, desmaiou assim que ganhou a maratona.

Armstrong em uma de suas competições

Esse desejo humano de se superar continuamente, em todos os sentidos, é potencializado no esporte. O doping surgiu para auxilia-los à isso, transformando o corpo humano em uma verdadeira máquina de competir, sem levar em conta os limites éticos impostos. Ao longo dos anos, esse tipo de artimanha foi somente se sofisticando, apoiando-se no avanço da medicina. Mas o objetivo continua sendo o mesmo, da Grécia Antiga até os dias de hoje.

Cegos pelo objetivo de vitória a qualquer custo, alguns esportistas acabam recorrendo à meios ilícitos para se conseguir o que sempre, a cada dia, é mais cobrado. Hoje, o que vale é ser reconhecido socialmente como o melhor – basta ser o melhor, não importando os meios para se chegar a isso. Em uma sociedade que prega a competitividade, em que o egocentrismo está em alta, pensamentos assim raramente chegam a espantar – e é por isso que, quando escondido, o uso de doping parece ser quase aceitável.

Quando se discute a dopagem, o que deveria estar em pauta não é a culpabilidade dos atletas – como o que ocorreu com Armstrong. O escândalo que seu caso causou deveria ter gerado novos debates, sem fixar-se nas perdas que o ciclista sofrerá. O imperativo da superação, a competição desenfreada da sociedade atual – esses são os principais pontos que deveriam aparecer nas conversas diárias. Entretanto, nossa sociedade parece interessar-se mais com o fator de prestígio do que com o fator social e ético. Choca-se mais com a destituição dos títulos de Armstrong do que com os motivos que o levaram a recorrer a uma medida tão extrema quanto o doping. Quando o pensamento das pessoas continuar assim, a dopagem continuará a se desenvolver e se aprimorar, sempre as escondidas. Há espaço para ela em um mundo que se molda apenas em aparências, por vezes, falsas.

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