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Por Harumi Visconti

               Oh grandes patriotas, levantemo-nos em silêncio e respeito / Saudando nossos mártires, cujo sangue / Cimentou nossa fundação nacional / Juramos proteger nossa Nação.

 O hino do Sudão do Sul reflete sua recente trajetória como um país independente: no dia 9 de julho de 2011 o então território do Sudão – país com aproximadamente 45 milhões de habitantes, localizado no nordeste da África – se emancipou.  Mas essa recente  independência custou a vida de mais de dois milhões de sudaneses ao longo de extensos anos de guerra civil. Permeada por conflitos políticos, étnicos e religiosos, a história do Sudão é marcada pela violência, pobreza e fome. Assim como muitas nações africanas, o país foi colonizado por ingleses durante o século XIX e esteve também sob o domínio egípcio. Somente na segunda metade do século XX, o Sudão tornou-se um país de fato independente.  Entretanto, marcas do período colonial ficaram eternizadas na história da nação.

Os atritos entre as regiões norte e sul do Sudão estão fundamentados na eterna competição entre as duas: enquanto o governo concentrava-se no norte, na capital Cartum, os sulistas, por outro lado, sofriam com o descaso e abandono das autoridades na região. Além disso, a população nortista é majoritariamente muçulmana e fala árabe; no Sul, é composta em sua maioria por cristãos e animistas e por diversos grupos étnicos que se opunham à imposição do islamismo no sul. Os dois grupos rebeldes do Sudão, SPLA (Exército de Libertação do Povo Sudanês) e o JEM (Movimento para a Justiça e Igualdade) – representantes da população negra do sul – entravam em constantes conflitos com grupos árabes, do norte, pró-governo.

Para o professor de História da África no curso de Relações Internacionais da PUC-SP, Acácio Almeida, a grande questão que atinge todo o continente é a ausência de uma união africana. A balcanização – o fracionamento de um Estado – tem se tornado uma alternativa equivocada para a resolução de conflitos no continente. “Há duas grandes questões hoje: o perigo dessa balcanização, porque ela anima pensar que isso pode ser uma saída para resolver os grandes conflitos e a outra é o fortalecimento da União Africana como um espaço para o debate, de criação de propostas e saídas para resolver as questões do continente”, explica.

Entretanto, parecia ser contraditória a preferência do governo pela região norte: afinal de contas, o sul detém 75% das jazidas de petróleo do Sudão, enquanto o território do norte é ocupado pelos desertos da Núbia e da Líbia. O primeiro, ao contrário, tem clima tropical e é caracterizado pelas savanas e florestas tropicais.

O professor ainda afirma que a oposição entre o norte e o sul, tão frequentes em tantos países tal como Itália, EUA e o próprio Brasil, é uma construção fantasiosa. “O confronto entre o norte  e o sul é uma ideia fantasiosa. são  convenções dadas por nós mesmos, que vêm ganhando contornos de realidade porque é efetivamente construído para ser manipulado politicamente”. Para ele, uma solução diferente da tomada pelo Sudão do Sul seria a distribuição equitativa das riquezas. “Está na história dos estados essa oposição entre norte e sul. E isso tem sido usado para explicar os problemas. Se esse sul ou norte tem reservas estratégicas, alimenta ainda mais esse confronto, que é muitas vezes imaginário. A discussão é do estado-nação. E como a África herdou muitos estados sem nação, cabe a eles decidir como e se vão dividir as riquezas. Tivemos isso no Brasil com o pré-sal: a questão era se se dividiria a riqueza por todo o estado ou uma parte dessa riquezas devesse ficar no lugar que o produz, como se a riqueza fosse local.  A questão norte e sul é uma ideia fantasiosa que vem ganhando contornos de realidade porque é efetivamente construído para ser manipulado politicamente”, explica.

Após a independência, o Sudão do Sul, apesar da enorme importância no ramo petrolífero, é um país subdesenvolvido, com altos índices de mortalidade infantil e com um dos piores sistemas de saúde do mundo. Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, menos de 25% dos 8,2 milhões de sul-sudaneses tem acesso aos serviços básicos de saúde. A falta de saneamento básico, de moradia e de água também assolam o 193º país do mundo.

Com as frequentes guerras civis, estima-se que mais de um milhão de sudaneses tenham se refugiado nas regiões próximas ao país. Com a emancipação, o retorno dessas pessoas é esperado. Mas a nova pátria não está preparada para abrigar a enorme quantidade de pessoas que, amedrontadas com a violência entre os grupos étnicos, decidiram finalmente voltar para casa. Como disse o professor Acácio em entrevista, “tem-se apenas mais um  novo país, mas com os mesmos problemas de antes”.

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