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Por Renata Baboni

A experiência da modernidade é dotada de paradoxos e contradições consideráveis. Essa apreensão de sensações foi definida por Berman como um tipo de experiência de tempo e espaço, de si mesmo, dos outros, da possibilidade e dos perigos da vida que é compartilhada por homens e mulheres de todo o mundo. E a modernidade instala-se como a experiência simbólica e sensorial da modernização, que está atrelada ao desenvolvimento tecnológico, o grande mediador desse turbilhão de experiências e possibilidades de acesso à informação para quem está inserido na modernidade. Com isso, o tempo torna-se escasso para a absorção de um conhecimento efetivo nos mais variados assuntos, inclusive na questão contraditória que abarca a modernidade.

Ser moderno nos tempos atuais é estar em um ambiente que promete a emancipação do homem e, ao mesmo tempo, ameaça destruí-lo. É ser ludibriado pela lógica capitalista em todos os âmbitos da vida, inclusive nos que a propaga e potencializa, como os discursos de sustentabilidade por um mundo melhor, que tornam o cidadão porta voz de bons costumes e ao mesmo tempo controlado por um poder disciplinador que o faz cumprir regras e não pensar nelas. É ser refém da ideologia de ética pregada nas empresas, que ignora a noção plena de ética enquanto o exercício da consciência, da liberdade e da responsabilidade e a reduz a um regulamento imposto, a um conjunto de normas, regras, preceitos de controle cotidiano de todos os comportamentos humanos, reduzindo-os a coisas.

Marx também ressaltou o pensamento dialético e contraditório do capitalismo nas suas obras ao apontar que o homem domina a natureza, mas é escravo do próprio homem. Até as relações fixas, cristalizadas são suprimidas. “Tudo que é sólido se desmancha no ar”, constatou. As sociedades se tornam antiquadas antes mesmo de se consolidarem.

A antiga crença na modernização brasileira, reforçada pela visão de progresso por volta de 1967, deu espaço a um pessimismo instaurador de dúvidas quanto à possibilidade de construir uma sociedade realmente moderna nos anos 80. Atualmente, alguns teóricos retomam a discussão sobre a modernidade com o olhar pessimista e instigante. O antropólogo Bruno Latour, por exemplo, defende que a modernidade deve ser definida como uma atitude e não como uma época. Ele relata que o paradoxo dos modernos se dá devido à proibição de se pensar a mistura entre gêneros híbridos de natureza e sociedade, o que aumentou a sua proliferação. Acredito que a tecnologia foi preponderante para esse aumento da proliferação híbrida. Por outro lado, o autor diz que as práticas de purificação, que são as visões ontológicas dos humanos e dos não-humanos, dos sujeitos e dos objetos, deixaram de vigorar, gerando a crise da modernidade.

Crise essa que foi evidenciada no surgimento de dois modelos de sociedade urbana advindos da modernização: de um lado, um capitalismo selvagem e plutocrático. De outro, um capitalismo domesticado pelos valores modernos da igualdade social e da participação democrática dos cidadãos conscientes, educados, autônomos e politicamente ativos.

O capitalismo selvagem e plutocrático é notável pelas suas destruições, se mostra deliberadamente, é escancarado. Já o capitalismo domesticado por valores modernos de participação do cidadão é camuflado, é uma estratégia do Estado de partilhar o poder entre a população como forma de enganá-la e de contê-la, de torná-la parceira da sua própria governabilidade, do seu próprio controle, visto nos exemplos citados anteriormente. Instala-se então um modelo de democracia participativa e não mais representativa. Tal ambiente é muito influenciado pelo uso da internet.

Nas metrópoles contemporâneas, a relação espaço-tempo foi comprimida e acelerada através do uso da técnica, o que faz com que a sociedade começasse a se configurar dentro de uma outra relação social. O cotidiano das cidades é controlado pelo capitalismo e não dá espaço para a política. O ritmo veloz dessas cidades impõe outro tipo de sociabilidade para os sujeitos, cria uma relação de fragilidade, de efemeridade entre as coisas, tudo passa a ser descartado e essa relação social fragmentada, ou melhor, a ‘liquidez da existência’, como dito por Bauman, passa a afetar as relações pessoais e a capacidade do homem de se interessar por mudanças. Aumentam-se os divórcios, o individualismo e a solidão. As grandes cidades são marcadas pelo anonimato e atitude blasé, ou seja, como não conseguimos reagir a todos os estímulos que a sociedade nos dá, a forma de sobrevivência que encontramos é o anonimato e o individualismo. As relações afetivas passam a ser transitórias, moldadas nas relações de trabalho. O indivíduo torna-se hiperativo, estressado e imediatista. E até os seus anseios começam a ser privados, os sonhos passam a ser de consumo e não mais de valores sentimentais e imateriais.

É fato que a sociedade brasileira se desenvolve com desequilíbrio e refém de uma explosão de consumo incompatível com a sua renda salarial. Embora a aparência seja a de potência economicamente viva diante de um mundo afundado em crise, as carências e desigualdades sociais e estruturais persistem. A nossa sociabilidade moderna foi marcada pelo atraso e pelo moderno concomitantemente. Apesar de parte do desenvolvimento econômico brasileiro se dever ao Estado, o ‘choque de capitalismo’ vivido no país pontencializou a primazia do privado sobre o Estado e sobre o cidadão.

Esse cenário instala-se também no jornalismo. Os grandes jornais brasileiros atuam de forma concentrada e centralizada, tornando a informação em desinformação, que é uma forma de controle. Marilena Chauí sugere que o sistema televisivo é um oligopólios que atua quase como monopólio. A televisão brasileira, por exemplo, precisa de concessões públicas, que são dadas, na realidade, a setores privados. Sendo assim, quem deveria fiscalizar tais concessões públicas passa a ser o concessionário privado que se apropria de um bem público agindo a favor de interesses particulares, monopolizando ainda mais a informação. Segundo dados do projeto Donos da mídia, 271 políticos eram sócios ou diretores de 324 veículos de comunicação em 2009. Se doze famílias controlam a mídia brasileira, não há democracia midiática. Se, por um lado, a mídia pertencente aos grandes grupos econômicos é acanhada e não acompanha as mudanças da modernidade, por outro, há uma sociedade totalmente contrária a isso. Ou seja, existe uma sociedade plural e uma imprensa aristocrática (privada), que concebe os indivíduos dentro de uma ideologia sugestiva de rentabilidade para ela, massificando o seu público. Há uma modernização que preserva os nossos déficits e uma mídia que preserva propriedades. A modernidade não chegou na imprensa de fato. Ou melhor, ela atingiu a imprensa no seu padrão de produção. Porém, a mídia exerce o seu poder de forma sutil, menos através de uma natureza performática política e mais através da cultural e dos costumes.

Com isso, a indústria cultural e a indústria da informação passam a ser controladoras da homogeneidade subjetiva das pessoas, criando um padrão de comportamento ou ‘hábitus’ no seu público e fazendo com que ele não ofereça resistência e não se organize politicamente.

Nesse sentido a imprensa, que teoricamente teria um quarto poder, o de apurar os fatos e colocá-los a serviço da opinião pública, quando levada pelos interesses particulares dos seus donos (imprensa privada), passa a ser um simulacro de quarto poder.

Diante desse cenário, cabe ao jornalista, dentro de uma atividade social e não meramente informacional, desmascarar esse enigma, escapando dos limites do poder da própria imprensa, a favor de uma informação enquanto bem social que promova a democracia e a desestabilidade dessa classe dominante. E cabe a nós, universitários, contribuir para a discussão de uma realidade pouco pensada e abordada na prática social, mas que nos convida a repensar sob uma nova perspectiva: a de que jamais fomos modernos.

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