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Por Amanda dos Anjos e Rosa Donnangelo

 O simples andar pelo bairro da Luz, em São Paulo, remete qualquer ser humano, dotado de pelo menos um pouco de sensibilidade, a uma reflexão sobre os percalços da vida. Na região conhecida por Cracolândia, em que está previsto o projeto Nova Luz, o cheiro forte de urina parece inerente às ruas. Não há qualquer vestígio de alegria, os entornos da estação Luz do metrô são tomados por pessoas sem perspectiva, as drogas os consomem, todo o tempo, por dias, meses, anos.  Caminham como zumbis.

A sujeira e o cheiro, porém, não são o que causam incômodo maior aos adictos. A presença de policiais depois da desocupação da Cracolândia é constante e as abordagens, segundo os próprios usuários, passam longe da pacificidade e dos bons costumes. O respeito é secundário. Em janeiro deste ano o Governo do Estado iniciou a Operação Integrada Centro Legal, que visava retirar os usuários dali e acabar com a Cracolândia. Agora, 10 meses após o início da ofensiva, o quadro que se vê naquela região continua sendo devastador.

Regiões conhecidas como cracolândias são ambiente propício para o uso de drogas. (Foto: Divulgação)

A população, influenciada por programas sensacionalistas e pelo consequente preconceito, esquece ou simplesmente não quer enxergar que por trás daquelas pessoas, existem histórias de vida, problemas inimagináveis, que na maioria das vezes, foram base para a inserção dessa pessoa no mundo do crime e do tão temido crack. A maioria dos usuários entrevistados pelo Protottipo contou que fumavam apenas maconha no começo: “é mais leve”, disseram. Depois, a necessidade de fugir da realidade só aumentou e a sensação que a maconha causa do indivíduo já não era mais suficiente, “a gente precisa de alguma coisa mais forte”, e é nesse momento que eles começam com a cocaína. “A brisa é muito maior”, disse A.R. de 36 anos, usuário de drogas há 24 anos. Quando a cocaína não oferece mais o efeito de que os usuários precisam, o vício muda: eles partem para o crack. Nesse momento, o cérebro já está totalmente adaptado e viciado, a quantidade de droga precisa sempre aumentar. O crack é uma das drogas que causa dependência mais rapidamente, pois chega ao sistema nervoso central quase que imediatamente após o fumo, demora cerca de 8 a 15 segundos, a cocaína em pó, por exemplo, leva em torno de 15 minutos para chegar ao cérebro. Esse é um dos motivos pelos quais é tão difícil largar o crack, “A tentativa de sair do crack é complicada, pois ela é uma das drogas de maior efeito sobre o sistema nervoso central. Tem um efeito muito destrutivo”, comenta o psiquiatra Manoel Mascarenhas.

Mistura de pasta de cocaína com bicarbonato de sódio e água, o crack age no cérebro durante cerca de 10 minutos. Os sintomas são facilmente percebidos: agitação, ansiedade, algumas vezes, agressividade e tremores. Os viciados vão adquirindo outros sintomas ao longo do tempo de uso, o corpo e a mente são tomados pelo vício, e o que for preciso para obter a droga, o usuário faz. Dos adictos que foram entrevistados, nenhum confessou roubo. Eles disseram que muitos deles trabalham durante o dia como catadores e a noite, fumam. “Nem todo mundo aqui é bandido”, comentou A.R.

 Falta de perspectiva

 São diversos os motivos que podem levar uma pessoa ao mundo do crack, e nas ruas da Cracolândia o que não faltam são histórias que nos fazem parar para pensar nos problemas que assolam nossa sociedade. O contexto social vivenciado pelo usuário, a disponibilidade da droga, más influências e questões psicológicas, como depressão, são apenas alguns dos fatores que podem levar alguém a se afundar no crack, além, é claro, da mera curiosidade pela experiência, especialmente em adolescentes.

E., 37, que prefere não se identificar, conhece o crack desde 1994. A sua história de vida é bastante conturbada. Conta que o seu pai era muito ignorante,não estudou e conhecia muito pouco de cultura, mas, mesmo assim, o devia respeito pela pessoa que era. Segundo E. seu pai conseguiu tudo na vida sozinho e com muito esforço. Quando questionado sobre quem o influenciou a experimentar o crack, E., hesita e confirma: “Ninguém me obrigou, mas o lugar que eu morava ajudou um pouco.” O dependente confessou ao Protottipo que já passou por quatro internações, porém, não obteve resultados. Já ficou bastante tempo sem usar, mas acabou voltando. E. acrescentou que, “se pudesse voltar no tempo, jamais usaria crack. Jamais”. E. nos pergunta: “Você imagina isso aqui no frio? A gente fica andando, vemos as luzes dos apartamentos acesas e eu imagino: ali tem uma família feliz, um casal e um filho assistindo filme, comendo pipoca. E a gente aqui, nessa vida. É difícil!”.

Essas questões abrem caminhos para discussões bastante relevantes no que diz respeito às internações, obrigatórias ou não, e o período pós-desintoxicação. O tratamento para o viciado em crack vai depender do caso, e não envolve apenas a desintoxicação e o controle da dependência, o acompanhamento psicológico e o apoio da família são fundamentais para ajudar na recuperação do indivíduo, além da vontade do próprio usuário em deixar a droga. Internar e não oferecer apoio psicológico e métodos que insiram o indivíduo novamente na sociedade vai acarretar em recaídas. É o que diz o psiquiatra Mascarenhas: “é uma luta constante, o ser humano está todo dia na navalha.” O doutor conta que vê o crack como um problema médico-social e de bastante complexidade. Existem alguns projetos do governo focados nesses fatores, mas com certeza, não é limpando, ocupando ou desagregando os usuários como se esses fossem animais e construindo campos de futebol no lugar de prédios ocupados. O problema é de saúde pública, não se resolve na força. ONGs são bem-vindas e associações também, são iniciativas, que de um modo ou de outro, ajudam a combater esse vilão chamado crack. O difícil é manter a instituição. Segundo o INPAD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas do Álcool e Outras Drogas), em pesquisa realizada em setembro/2012 constatou que há, no Brasil, 2,6 milhões de usuários de crack e cocaína.

Crack: problema de saúde pública. (Foto: Apu Gomes/Folhapress)

Curiosidade. Esse foi o motivo que levou A.R., a entrar para o mundo do crack. Usuário de crack há 16 anos, ele diz que teve seu primeiro contato com drogas aos 12 anos, e como é o caso de muitos usuários, ao experimentar maconha. “Eu tinha tudo na vida, cursei 2 anos de Propaganda e Marketing e larguei, eu poderia ter trancado a faculdade pra voltar depois, mas larguei. Hoje muita coisa me impede de voltar a estudar, há outras prioridades”. Após 12 internações, A.R. diz que já ficou 8 meses sem consumir crack, e que nesse tempo ficou com a ex-mulher e com os 4 filhos. Questionado se nem pelos filhos ele gostaria de largar o vício, A.R. responde: “A questão não é nem essa. Meus filhos estão bem cuidados, estão com a mãe, não falta nada à eles. Ela (a ex-mulher) é uma pessoa maravilhosa, escolhi a mãe certa para os meus filhos, ela não fuma e não bebe. Ás vezes o mais velho, de 12 anos, diz que quer vir passar um dia comigo. Eu falo que não dá, que o lugar onde eu moro tem muita gente, ele acha que moro numa pensão”. Nenhum dos filhos sabe que ele é usuário de crack.

Durante a reportagem alguns policiais militares se aproximaram do grupo, e notavelmente os usuários sentiram-se incomodados com a presença da PM. “A presença deles incomoda, eles não chegam conversando, chegam enquadrando, batendo, na desocupação muita gente apanhou. Eles esquecem de onde viemos e para onde todos vamos, esquecem que o mesmo verme que vai me comer também vai comê-los”, desabafa A.R. O usuário diz que não tem passagem pela polícia, “Nunca roubei ninguém, nunca fui preso, mas já trafiquei. Tudo que eu tinha perdi com advogados, paguei 15 mil reais para não ser preso por tráfico”.

Os usuários também não se sentem bem quanto ao tratamento recebido pela mídia que, segundo eles, chega sem conversar, apenas filmando e tirando fotos e depois publica apenas um lado da história, o lado da polícia. “Eles (os repórteres) vem aqui filmar com a polícia, fotografam a gente e depois publicam do jeito que querem, não quero ver meu rosto estampado no Globo Repórter dizendo que sou um marginal. Eu mesmo já joguei pedra em repórter”, conta A.R.

Aos 27 anos, mãe de 8 filhos, E.N. vive sem rumo pelas ruas da Cracolândia. A jovem diz que começou a fumar crack com 23, mas antes já consumia cocaína. “Eu saia, ia pras baladas e cheirava farinha”. Assim como muitos que vão parar no mundo do crack, E.N. tem uma trágica história de vida, seus pais foram mortos pelo ex-marido e os filhos ficam com um parente. Ela diz que tenta contribuir de alguma maneira, “às vezes dou 20, 40 reais. É o que dá”. Depois de viciados, os usuários fazem de tudo para conseguir a droga. E.N. diz que nunca roubou, mas para manter o vício pede dinheiro nas ruas e faz programa.

Emblema de uma campanha religiosa contra o crack. (Foto: Divulgação)

Outros tantos como E.N., A.R. e E. vagam pelas ruas da Cracolândia sem perspectiva alguma de futuro, de vida. O crack não é um problema apenas de quem convive de perto com ele, nem apenas do Estado, a triste realidade daquela região nos faz abrir os olhos para enxergar o imenso problema social que rodeia a sociedade como um todo. O drama dos usuários de crack ainda é  ignorado. Ao contrário do que muitos pensam, a droga não atinge apenas os menos avantajados economicamente, hoje o crack está presente em todos os níveis sociais.

O crack é uma realidade, mas nem todos o enxergam assim. “Limpar” as regiões das cracolândias não é suficiente. (Foto: Divulgação)

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