Home

Por Marcela Millan

Imagine uma realidade em que as mudanças são regra. Uma pessoa que, um dia, deseja ser apenas uma estudante e, no seguinte, aventurar-se pelos mistérios das artes místicas, agora, tem um espaço para si. Com o crescimento da Internet, as formas de se comunicar mudaram e evoluíram. Através dos computadores, as pessoas ficaram conectadas em rede, experimentando novas sensações por meio de programas imersivos, gerando um grande debate em torno das novas e diversas formas de vivências online. Nesse tipo de espaço, a possibilidade de uma fragmentação da realidade tornou-se real, e  as pessoas desenvolvem várias personalidades, para poder experimentar. Vários perfis começaram a ser criados, com isso, em diversas plataformas, e é então que um novo mundo começou a se configurar: o chamado mundo fake.

Fake, do inglês, quer dizer “o que é falso”, e a ideia desse tipo de perfil não foge muito a isso. Aparecendo em massa nas redes sociais, esses perfis configuram uma segunda vida para aqueles que o detém. “Fake nunca foi um termo que eu gostei muito”, comenta Lyra*, usuária desse tipo de perfil desde 2006. “São personagens, criadas por você ou não, que você usa para interagir com outras. Internacionalmente, isso é chamado de RP Profile (de Role Play). Aqui que acabou ficando como ‘fake’”, completa.

Em alguns casos, os fakes apresentam-se com imagem de alguém existente, uma foto de famoso ou pseudo-celebridade. Entretanto, o que parece vir crescendo atualmente, se popularizando com os animes (desenhos animados japoneses), são os perfis de fakes interpretativos. Por meio da escrita, os esses perfís criaram uma nova forma de se jogar o famoso RPG (Role-playing game). Criando diálogos, descrição de aparência, estado, personalidade e cenário, a ação nesse tipo de perfil teria como resultado uma narração escrita em coletividade. Interpretando em redes sociais – principalmente Orkut e tumblr – essas pessoas acabam trocando informações, aprendendo sobre cultura e estimulando a criatividade, uma vez que, diferentemente de um RPG convencional, no RPG orkutiano, o cenário não é visível, mas imaginário. “As experiências que tive em fake ocupam grande porcentagem das coisas que me fizeram parar pra pensar nas minhas atitudes ou no que vou falar”, diz Akuma*. “ Inclusive me fizeram ter um grande amor pela leitura. Porque quanto mais livros você ler, mais rico vai ficando teu vocabulário, e logo melhores serão suas interpretações”, conclui.

Descrição de uma das principais comunidades de orkut destinadas à interpretação

Mesmo que diferente do fake que é criado para depreciar a imagem de alguém, os perfis interpretativos ainda sofrem com a estigma. A maioria das pessoas que mantém um desses personagens acabam escondendo-o, com medo do julgamento que podem receber por essa prática. Apesar disso, talvez a maior crítica externa vá  de encontro a fragmentação da realidade. O fato de possuir um perfil, sendo ele falso ou não, em uma rede social, se tornou tão comum na sociedade que, de maneira direta ou indireta, acaba afetando e modificando o modo de pensar e agir de seu usuário. “Tive alguns problemas”, conta Perk*, que tem fake ha 3 anos. “Depois de um tempo que criei meu primeiro fake, deixei minha vida quase de lado. Eu deixava de sair com uns amigos pra poder ficar conversando na internet. Teve um tempo em que a vida on e off ficou muito desequilibrada”. Entretanto, hoje Perk parece saber como dividir seu tempo de modo saudável, e conta que fez muitos amigos com seu personagem. Diferentemente dela, algumas pessoas parecem só ter crescido com o uso desses perfís. “O que mais me marca nisso é como ter um fake melhorou minha relação interpessoal”, assume Lyra. “Aprendi a me expressar muito melhor, a compreender os outros melhor, a conhecer novas pessoas, aceitar outras culturas e ideologias”. Nisso, Lella, que tem fake ha 6 anos, concorda. “Antes eu era muito tímida, é até engraçado falar isso. Acho que o fake talvez tenha me ajudado a ser mais comunicativa com as pessoas a minha volta”, diz ela.

Ainda que com essa divisão de comportamentos, uma das características do fake interpretativo é a separação do mundo online do offline. Não é raro encontrar nas descrições dos personagens avisos de que não há a troca de informações sobre a pessoa que está por trás do computador, e que o que esta em jogo,  ali, é apenas a identidade do personagem. “O relacionamento fake é incrível, mas é o seu personagem que esta se relacionando, não você”, comenta  Lella. Para ela há, evidentemente, a preocupação com afastamento do “on” e “off” –  fake e pessoa que o controla.  Entretanto, a maioria das pessoas parece concordar que, mesmo com isso, uma parte offline da vida é afetada pelo uso do fake. “Impossível não ter mistura on e off. Quando você não consegue ser você num personagem, a graça de sê-lo quase desaparece. Nem que esse “você” apareça em alguns detalhes mínimos. Você não consegue ser outra pessoa completamente”, conta Perk. Lyra parece estar de acordo. “Mesmo quando você não está tentando, sempre tem uma mãozinha do off na vida on”, diz Lyra. “Por exemplo: você quer um perfil para Role Play do Bruce Wayne, Batman. Você tem sua própria interpretação do personagem, para encaixá-lo em novas e diferentes situações, “criando” como ele agiria de acordo com o que você acha fazer sentido com a personalidade dele”, explica. “
Além disso, nada impede que você comece a se interessar em conhecer o ‘off’ da pessoa com quem joga”, termina.

Participar de um fake interpretativo exige envolvimento. Essa é uma prática imersiva, que faz com que as pessoas tomem o lugar de um personagem para, então, conseguir escrever como ele.  Nesse sentido, alguns participantes afirmam que se arriscam viver de verdade os relacionamentos fakes, estendendo-os para sua vida em off, apesar do tão preservado distanciamento. “Conheci várias pessoas de fake em minha vida real”, conta, animada, Lyra. “E acho que isso é uma experiência fantástica que todos deveriam vivenciar uma vez. Porque você conhece coisas íntimas da personalidade da pessoa, mas não sabe como é seu jeito de agir na vida real. E, às vezes, olhando a pessoa que conheceu, pensa: “Nossa, o jeito de andar dele é realmente tudo a ver com ele” só julgando pelo que sabe de sua personalidade”. Há, então, uma espécie de entrelaçamento entre a vivência fake, posta como também influenciadora de emoções, e a vida real da pessoa. Não é raro observar usuários que, apesar de afirmarem realizar a separação dessas, relataram experiências em que se viram misturando ambas. “Conheço pelo menos meia dúzia das pessoas com quem me relaciono no fake, e foi quase um milagre saber que elas não moram do outro lado do país e que eu conseguiria encontrá-las”, conta Akuma, divertindo-se ao lembrar da primeira vez que encontrou alguns de seus amigos. “O primeiro encontro é sempre tenso”, confessa Lyra. “Você está indo para o lugar combinado, pensando como a pessoa é, como ela vai agir, pensando o que fazer se vocês ficarem sem assunto… E assim vai. Mas, até hoje, não tive nenhum encontro em off que eu tenha me arrependido”.

Esse ainda é o maior debate que ocorre dentro e fora do mundo fake, podendo ser potencializado de muitas formas. “As divisões de amigos no fake são parecidas com as da vida fora do computador”, comenta Perk. “Existem os amigos pra ficar rindo durante meia hora, os colegas com quem você conversa de vez em quando – ou raramente. Tem aqueles que você gosta mais de conversar coisas sérias. Mas, quanto a serem levadas para fora do mundo virtual, é diferente pra cada um”. Sobre isso, Lyra parece ser um exemplo: “Eu já tive relacionamentos em fake que não significavam nada na vida real, ao mesmo tempo que tive alguns que balançavam minhas estruturas”, diz. “Algumas vezes, acontece que você conhece alguém que te atrai muito, em muitos sentidos. E você começa a querer conhecê-la mais e mais, tudo dela lhe interessa e… você pode acabar se apaixonando”.

Não são raros os casos que o envolvimento on e off acaba sendo tão intenso que leva ao namoro. Muitos alegam que, mesmo sendo algo virtual, a relação que se estabelece com uma pessoa é verdadeira, e envolve sentimentos reais. “ Você começa a querer saber quem são os outros perfis dessa pessoa, querer saber se eles estão em algum relacionamento e assim vai”, conta Lyra. “Todo aquele turbilhão emocional é sentido. Você sabe a rotina da pessoa, vocês conversam diariamente, trocando SMS, fotos, ficam conversando por webcam, skype… Brigam, choram, voltam. Claro, a parte física jamais é comparável. Mas nada impede que você se envolva e se apaixone por alguém, mesmo de outra cidade, outro país, e aja de uma forma que seja perfeitamente um relacionamento”. Diferentemente dela é Perk, que não vê sentido namorar em fake. “Não é muito boa a sensação de gostar de alguém que você talvez não veja nunca”, confessa. Akuma concorda com isso, apesar de assumir já ter namorado uma vez. “O problema acaba sendo a distância, mas tem gente que consegue superar isso”, coloca ela. Lella, por sua vez, diz que, quando um namoro de personagem se estende para a  vida offline da pessoa, há o risco de se perder a magia que, antes, envolvia a história. “O namoro on é praticamente perfeito, os personagens tem toda aquela magia, toda aquela química, mas quando passa a misturar off, a coisa começa a ficar monótona”, diz.

Apesar de envolverem-se em graus diferentes com os personagens e as pessoas que os controlam, as entrevistadas foram unânimes em dizer que gostam da experiência de possuir um fake. “No fake você pode ser o que quiser”, expõe Lella, ressaltando que, nessa vida paralela, os campos de escolha são infinitos. “Desde um humano normal que vive uma vida agitada, ou até um cientista maluco, um vampiro, um gato, um cachorro, aquilo que vier na sua mente, ou algum dia teve vontade de ser ou fazer”, comenta. Sobre isso, Akuma ainda acrescenta: “Ser outra pessoa, ter outra vida, fazer coisas que eu gostaria de fazer mas não me é permitido. Na verdade, ser fake é algo bem próximo de ter uma vida ideal”, conclui.

*nome fictício, usado em um fake da pessoa, que preferiu não ter seu verdadeiro nome revelado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s