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Como se posicionar diante de uma guerra civil como a que está acontecendo na Síria? Como a mídia contribui para que isso aconteça?

Por Heloisa Ramos

As manifestações na Síria tiveram início em 26 de janeiro de 2011, e em 15 de março a situação passou para uma revolta armada. A intensidade dos protestos foi tão grande que, para por fim, o governo Sírio mandou unidades do exército e das forças armadas. Desde então, o contexto envolve a onda de protestos intensos , vindos de uma forte oposição, reações internacionais e frentes de apoio aos rebeldes e também ao governo Assad. Mas é também, um caso que, aparentemente, parece ser apenas resultado da insatisfação de um povo contra a ditadura. De fato, é total o descontentamento de uma sociedade que, atrasada, lida com a repressão de um regime arcaico, rígido e injusto. Mas esse é apenas um dos fatores em questão e é insuficiente para que a história seja compreendida, isso porque, não é do conhecimento de boa parte das pessoas a luta de interesses e nem as razões pelas quais o regime se manteve por tanto tempo. Além das pessoas saberem de forma superficial sobre a guerra nem todos os aspectos são explicados, a mídia tem a função de esclarecê-los e apontar a responsabilidade dos grupos envolvidos.

Segundo o professor José Arbex, é necessário entender a ditadura Síria para compreender a situação atual. Arbex diz que existem pontos que devem ser destacados de forma que esclareçam como Bashar está no poder por tantos anos. E ainda afirma:  “As respostas só podem ser encontradas no quadro mais geral do jogo travado pelas potências.” O professor explica que essa é uma ditadura que se mantém através do equilíbrio entre pólos do poder mundial.

A família Assad tem o poder desde 1971, quando Hafez Al Assad assume a Presidência. Mesmo com sua morte, a ditadura e o poder foram mantidos, já que seu filho, Bashar Al Assad, assume o cargo de presidente.  Hafez esteve no poder por trinta anos e Bashar está há doze, durante todo esse tempo o povo convive com a ditadura, repressão e injustiças. Dessa falta de liberdade iniciou- se a onda de manifestos populares. Eles foram ocasionados pela insatisfação do povo e pela influência de outros países do Oriente Médio, que também reivindicavam por uma nova forma de governo. E assim, mais de 30 mil pessoas já morreram – segundo dados do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

Conflitos de intensidades diferentes aconteceram fazendo com que esse contexto de guerra se perpetue há mais de um ano. As descrições desses fatos, das consequências desastrosas, das injustiças e insatisfações ocupam espaço na mídia e chegam até nós. Nada disso é mentira e é uma realidade que deve mudar. Em pleno século 21, enquanto muitos acreditam estar vivendo um processo de desenvolvimento, ainda existem pessoas na luta por direitos.

Mas talvez, apenas esse lado seja mostrado e assim, boa parte das pessoas “cai” no senso comum por não compreender um cenário tão complexo. A questão aqui não é considerar o massacre de inocentes de forma natural, tampouco fazer uma defesa ao regime, mas, é necessário saber como um ditador se manteve por anos e saber que a mesma ditadura que reprimiu a sociedade e a deixou tão insatisfeita é a mesma que manteve o país e criou laços econômicos com muitos outros. A mídia contribui para que a compreensão desse fato seja superficial e insuficiente, já que apenas um lado é mostrado. Muitos de nós sabemos pouco ou quase nada sobre o assunto e os meios de comunicação são responsáveis para que saibamos de alguns dos problemas, mas não de como ficaria a situação sem a família Assad no poder. A ditadura Síria teve e tem até os dias de hoje um papel estabilizador, seja no plano econômico como também no religioso. E, além disso, o país conta com alianças estratégicas e históricas.

Torna-se mais fácil de perceber que de fato a Síria se “equilibra numa corda bamba atada pelos pólos do poder mundial” – como o professor Arbex faz referencia – quando percebemos as relações da Síria com cada um desses pólos e quando compreendemos quais são as consequências de um país sem a ditadura. O resultado com a ditadura  é evidente e é retratado na revolta do povo, sem ela o cenário pode mudar completamente.

Primeiramente, a queda do regime seria uma vitória aos “rebeldes”, um passo para a conquista de direitos. Um novo tipo de governo poderia fazer com que a Síria perdesse sua posição estratégica na geopolítica do petróleo, isso porque Bashar Al Assad fez com que o país fosse um dos maiores exportadores de petróleo. Ele criou uma estratégia que fez com que o petróleo passasse pela Síria e fosse transportado para outros países, é a chamada “estratégia dos quatro mares”, nesse contexto o presidente assinou contrato com Irã e Iraque. A Tunísia, por sua vez, apóia essa estratégia desde que seja o destino desse transporte para posteriormente fazer a distribuição na Europa, o que diminuiria a dependência européia do petróleo vindo da Rússia. Ou seja, além de dar apoio ao “corredor de transporte sírio”, a Tunísia beneficia a Europa, já que, por fazer parte da OTAN, redistribuiria o petróleo aos países europeus e diminuiria a dependência que ela tem com a Rússia. Então, a estratégia beneficiou a Síria, Tunísia e Rússia e fortificou laços de alianças entre eles.

Síria e Irã mantêm uma boa relação, um novo tipo de governo poderia fazer com que isso fosse abalado e poderia te dificuldades em reconquistar a confiança dos iranianos. A relação entre os países, Síria e Irã, está ligada a questões religiosas, pois a família Assad é Alauíta, um ramo xiita, e os iranianos são de maioria xiita. José Arbex cita a necessidade de um novo governo oferecer garantias ao Irã.

Além desse abalo, a queda de Assad poderia fazer com que os Alauítas criassem uma resistência, pelo fato que existem dutos que vem do Iraque que passam por territórios deles. O regime manteve equilibrada a relação com os Alauítas, de forma que os Sírios conseguissem passagem dos dutos em lugares controlados pelo ramo xiita. Existe a chance dos Alauítas se revoltarem de alguma maneira caso essa relação fosse desequilibrada, fazendo com que esse acordo não existisse mais.

A presença dos curdos é um ponto fundamental para compreender o cenário. Qualquer outro tipo de governo deve tomar o cuidado para que não aconteça nenhum tipo de ataque comandado por eles. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão luta por independência e no território em que eles habitam há petróleo sírio e iraquiano. Mesmo com os ataques e com a luta pela independência, a situação esta sob controle com a ditadura síria, e desta forma, um novo tipo de governo deve fazer com que isso se mantenha

A queda dessa ditadura poderia interferir no apoio que a Síria recebe da Rússia e da China. Ambos têm a preocupação de que nenhum tipo de governo relacionado a Casa Branca assuma o poder, ambos querem que o controle dos EUA seja pequeno para que eles não percam os benefícios alcançados com a aliança Síria. Na Guerra de Yom Kippur o apoio que os Estados Unidos deram para Israel fez com que a Síria fosse derrotada. Dessa maneira ela se “aliou” a União Soviética, e por conta disso, teve o controle da base naval de Tartus. A base foi construída durante a Guerra fria e é o acesso que a Rússia tem ao lado ocidental do Mediterrâneo.  Se algum país aliado dos EUA assumisse o poder com a queda de Bashar, tanto a Síria quanto a Rússia, teriam seus interesses interferidos. No caso da China a dependência está no petróleo do Irã, que são aliados da família Assad.

José Arbex aponta que tanto Moscou quanto Pequim têm como objetivo diminuir o controle de Washington, já que, mesmo que por razões distintas, acreditam que algum “aliado” da Casa Branca – como ele mesmo se refere – pode limitar o poder e liberdade de cada um dos países. As razões pelas quais as pessoas desejam a saída da família Assad e o fim da ditadura são fundamentas e não são resultado apenas da insatisfação, está em jogo os direitos de um povo. E como foi visto, o regime não se manteve por tanto tempo por simples razões. Mesmo que sem nenhum rumo certo pra o país, visualizar e compreender o cenário atual da Síria facilita para que todos nós possamos pensar em como gostaríamos que ele ficasse futuramente. 

Um pensamento em “Guerra de direitos e interesses na Síria

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