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por Luciene Sudré

O ditado popular: “tempo é dinheiro” parece estar interligado com o raciocínio dos publicitários que invadem as telas durante a programação infantil para anunciar seus produtos: criança é dinheiro. Desde 2001, corre na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei para disciplinar e controlar a publicidade infantil, criado pelo deputado estadual e presidente nacional, Rui Falcão. Especialistas que estudam o desenvolvimento do processo socioeducativo nas crianças e nos adolescentes afirmam veementemente que a publicidade direcionada a esse público deve passar por um controle maior do Estado. Afinal, ao utilizar artifícios que misturam realidade e ficção, as propagandas atraem as crianças, as manipulando e norteando para o consumismo subjetivamente, interferindo em seu desenvolvimento infantil como um todo, tanto o psicológico, quanto o físico.

Dados do Painel Nacional de Televisores do Ibope, de 2007, mostram que as crianças brasileiras, entre 4 e 11 anos, passam, em média, 5 horas por dia em frente à TV, com acesso aos intervalos comerciais. O artigo de número 37 do Conar (Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária) diz que deve se respeitar especialmente a ingenuidade e a credulidade, a inexperiência e o sentimento de lealdade dos menores. Deve haver cuidado igualmente para não ofendê-los moralmente ou tornar implícita uma inferioridade do menor, caso não detenha o produto comercializado, e não permitir que a influência do menor, estimulada pelo anúncio, leve-o a qualquer posição social fora dos padrões.

Devido à grande preocupação com as propagandas manipuladoras e abusivas foi promovido o “1º Seminário Infância Livre de Consumismo”, em agosto, pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, de acordo com o site oficial da Câmara dos Deputados. O Seminário pautava a proteção do público infantil e adolescente frente aos apelos de consumo em excesso que a mídia veicula constantemente. O presidente da comissão, deputado Domingos Dutra, disse que as crianças do nosso país, atualmente, são atingidas e vítimas de um bombardeio publicitário. “Há uma propaganda direcionada que leva principalmente ao consumo de alimentos de baixo valor nutricional e, em consequência disso, a obesidade”, diz Dutra, que defende a tese da regulação pelo Estado, em entrevista ao site oficial do governo.

Os veículos de comunicação, principalmente a televisão, são mantidos pela publicidade e propaganda de diversos tipos. Por muitas vezes, o tempo dos intervalos comerciais tornam-se maior do que o tempo do programa de entretenimento, ou de qualquer outro gênero. A sociedade contemporânea constitui-se e desenvolve-se imprimindo aos indivíduos o consumismo, com a finalidade de movimentar o mercado e gerar lucro. A questão principal é que vivemos cercados por meios de comunicação que priorizam a mercantilização de qualquer coisa, ao invés de aumentar a qualidade cultural e intelectual de sua programação. Além dos  intervalos comerciais, as propagandas ocupam o espaço até mesmo dentro da atração televisiva. São os famosos patrocinadores presentes de forma mais direta e invasiva ainda.

Se é possível percebermos que a publicidade interfere nas ações dos adultos, pois acabam por impor o que esses devem comprar ou não, maior ainda é a interferência da publicidade no público infantil. A imagem da criança e do adolescente tornou-se uma fonte de lucro. Elas estão em todos os lugares da mídia: nas novelas, nas propagandas de brinquedos, nos programas de auditório e até mesmo em concurso de beleza. Em meio a isso, as crianças são submetidas a um processo de “adulterização” que se imiscui em seu desenvolvimento natural, psicológica e fisicamente.

O departamento de Psicologia da UnB (Universidade de Brasília) fez uma pesquisa que elencou as estratégias de persuasão utilizadas no ramo. Segundo dados do site da Universidade, o estudo analisou 182 propagandas e entrevistou 691 pais de crianças de até 12 anos. No resultado da pesquisa, consta que os pais e responsáveis acreditam na capacidade psicológica e maturidade de seus filhos para não serem influenciados pelo marketing. Este é um dos argumentos usados a favor daqueles que defendem a publicidade infantil, assim como a liberdade de expressão por meio da propaganda para qualquer público referente a qualquer faixa etária, além de defenderem que a educação dos filhos só sofre interferência dos pais e familiares. A pesquisa identificou 21 estratégias de convencimento e persuasão em 54 propagandas exibidas nos intervalos de um programa infantil de alta audiência, dentre elas, propagandas de calçados, roupas, brinquedos e lanchonetes.


Marcelo Jatobá e Ana Grilo/UnB Agência

O estudo foi financiado por uma parceria entre a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) com o Instituto Alana, um Instituto que atua na comunidade, na educação e na defesa e para o futuro das crianças, principalmente criticando a publicidade voltada a esse público. Assim, demonstraram-se as estratégias usadas pela publicidade direcionada ao publico infantil, como modelagem e consenso social, critério de decisão e contagem de histórias. Também ficou claro que existe diferença entre os gêneros; cerca de 40% dessas propagandas é voltado para o público masculino, 22% para o público feminino e o restante para ambos.

O psicólogo Regis Mesquita publicou uma matéria em seu blog Psicologia Racional, onde afirmou: “A propaganda é eficiente porque entra na cabeça das crianças e impregna seus sentimentos e pensamentos. A propaganda compete com os pais para influenciar as crianças”. Seguindo essa linha crítica da publicidade infantil, Raymundo de Lima, formado em Psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, escreveu um artigo chamado “A publicidade infantil é ética?”. Ele toma posição no debate e relata o que há do outro lado, aquele a favor desse tipo de propaganda. “Do outro lado, na defensiva, as tvs e empresas de mídia, no Brasil, organizam-se para boicotar qualquer iniciativa que regule a propaganda visando influenciar as crianças. Evocando palavras como ‘direito’ e ‘liberdade’, o lobby das empresas ligadas à mídia entende que não é imoral usar crianças como se fossem objetos para vender este ou aquele produto ou serviço e, portanto, ignoram o exemplo dos países de primeiro mundo e das pesquisas científicas que denunciam a imoralidade e os malefícios deste tipo de publicidade”.

Tudo que a criança “quer” é determinado pela Sociedade do Consumo

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