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Por Marcela Millan

Androgyno, na mitologia grega

Platão já dizia, em O Banquete, que, antigamente, existiam três seres diferentes entre si: o Andros, que remetia ao sexo masculino, Gynos, entidade feminina, e Androgynos, composto por uma metade masculina, e uma metade feminina.  O ser andrógino seria quase perfeito, contendo em si todas as oposições do mundo, se bastando em si mesmo. Sua força era considerada extraordinária, e o poder, imensurável. E isso não agradava os deuses, que se viam ameaçados por essa nova e ambiciosa criatura. Parte por medo, parte para torná-lo mais humilde, Zeus ordenou que seccionassem Androgyno. A criatura, agora como Andros e Gynos, teria os corpos separados, mas, ainda assim, não perderia sua essência única, uma vez que era considerado impossível se separar uma alma.

Apesar de surgir com um novo significado, a palavra andrógino continua sendo usada. O andrógino, atualmente, é aquele que tem características físicas e, em alguns casos, as comportamentais de ambos os sexos. Assim, torna-se difícil definir a que gênero pertence uma pessoa andrógina apenas por sua aparência. “Se Andros é masculino e Ginos é feminino, andrógino é aquela pessoa que está no meio termo, que lhe deixa na dúvida”, conta GB, 21 anos, estudante de musica no CSUN. “As pessoas costumam pular a dúvida e achar que eu sou uma menina com certeza, e precisa de bastante para convencê-las do contrário”, completa. Apesar disso, GB afirma que não se sente incomodado com isso: na realidade, ele gosta dessa confusão.

“A androginia veio naturalmente. É como eu sou em minha essência. Uma vez eu pensei como eu gostaria de ser, sem influência externa, sem me importar com as outras pessoas ou ideias. Se só existisse eu e mais nada, o que me deixaria feliz? Foi então que eu percebi que não me sentia completo usando máscaras”, expõe. Desde então, GB não esconde seu modo dual de ser. Quando acha que deve, usa maquiagem. Quando quer, separa uma saia em seu guarda-roupa para vestir. “Mas mesmo quando estou de jeans e camiseta algumas pessoas pensam que sou mulher”, comenta ele, divertindo-se.

Na psicologia, a corrende Junguiana parece ser a que mais se refere à androginia. Partindo da noção de complementaridade entre a consciência e o inconsciente, ela estabelece que o homem tem uma alma feminina – a Anima – e a mulher, uma alma masculina – o Animus. “Todos os seres são andróginos, na medida em que temos características dos dois sexos em nosso psquismo”, coloca Noely Montes Moraes, psicóloga que segue essa linha de pensamento. “A gente desenvolve um sexo de identidade e esse sexo é dado por nosso corpo físico, genética, que nos dá a predominância de nosso sexo. Mas, ainda assim, temos alguns genes ressessivos no corpo, do sexo oposto. Isso, na psicologia, significa que temos, potencialmente, a capacidade de desenvolver características psicologicas que recebem o nome do sexo oposto”, completa.

Como uma fôrma, a Anima e Animus estão prontos para serem recheadas por experiências externas. A primeira influência vem dos progenitores. O pai vai ser o primeiro que preencherá o Animus de sua filha, com suas características. O mesmo acontece com a mãe e a Anima do filho. O contato com outras mulheres e homens, então, formaria uma imagem do sexo oposto que cada ser traz em si. “Mas isso são apenas fatores externos”, diz Noely. “Internamente vai ocorrendo, aos poucos, um casamento entre a masculinidade consiente do homem e a Anima, contida em seu inconsciente. Assim, também, para a mulher. Então, se o desenvolvimento de uma pessoa se dá de forma satisfatoria e equilibrada, homens e mulheres casam internamente com seus opostos, então passam a se dispor dessas características que, socialmente, se atribuem aleatoriamente à homens e mulheres”. Para a psicologia Junguiana, todos os seres humanos nascem com a tendência de se tornarem andróginos. “Isso é esperado e saudável”, completa Noely Montes.

Essa união de características masculinas e femininas não pode, entretanto, ser confundida com homossexualidade. “O que as pesquisas têm indicado é que o homossexualismo tem um componente genético. A simples inversão das características femininas e masculinas, no plano psicológico, não justificariam a homossexualidade”, conta a psicóloga.

Apesar dessa naturalidade vista na psicologia, a sociedade de atualmente parece encarar o andrógino como um ser estranho, anormal. “Ainda vejo as pessoas muito fechadas com isso. Na realidade, com relação a sexualidade em geral”, comenta GB. “Muitos heteros já falaram comigo pensando que eu era uma garota, e eu os respondia educadamente. Quando eu contava que era um homem, entretanto, essa mesma pessoa simpática se afastava de mim, isolando-se. Isso porque, na cabeça dos homens de atualmente, eles não podem sentir uma atração por qualquer pessoa que tenha cromossomos XY”.

Andrej Pejic

Parte dessa estranheza vem de uma mentalidade da atualidade, que tenta determinar papéis sexuais para cada gênero, que são incorporados na sociedade. Há uma polarização da identidade sexual de uma pessoa em dois extremos – homem e mulher – e tudo que não se encaixa nisso parece estranho ao homem. Entretanto, tal pensamento exclui o gênero psicológico de uma pessoa, que é algo particular. Ele tem a quantidade de manifestações em mesmo número de seres humanos viventes. “Não existe um homem padrão, mulher padrão, andrógino padrão. O que existe são perfis, que devem ser construidos”, diz Noely. “Acho que essa distribuição de papéis sexuais aparece por causa de uma insegurança das pessoas”, opina GB. “Homens que ficam a meu lado comportam-se de forma ainda mais masculinizada, para se afirmar. Isso me incomoda demais”.

Androginia na moda e na música

Andrej Pejic em um ensaio fotográfico

Com seus longos cabelos loiros, lábios carnudos e traços femininos, o modelo sérvio Andrej Pejic é um dos mais requisitados no mundo fashion. Apesar de polêmico, ele afirma que quer ser visto como um símbolo da transformação nas imagens de moda, em que a diferença entre atitudes masculinas e femininas não importa tanto. Assim como ele, a brasileira Carla Monfort aparece brincando com a inversão de papeis, desfilando tanto com roupas masculinas quanto femininas. No campo da música, Lady Gaga aparece como referência, já tendo posado para a Vogue japonesa como Jo Calderone, seu alter ego masculino, assim como o cantor David Bowie, que foi um dos grandes representantes da androginia nos anos 70 e 80, criando looks que se misturavam com esse universo.

Talvez por se tratar de um comportamento não convencional, muitos artistas se apropriaram da androginia para atrair atenção. Isso acontece principalmente na moda, que, além de trazer modelos como os citados, apresenta itens de vestuário que fazem clara referência à  esse dualismo – basta pensarmos na calça boyfriend, ou na nova tendência de camisa xadrez para mulheres, por exemplo. “Acho isso muito bom, apesar de um pouco frustrante”, conta GB. “Frustrante porque queria ser parte disso. É meu real objetivo. Estou estudando música em LA para ter chances de me tornar um trap-pop-artist”, completa. “Com essas pessoas na mídia, música e moda, acho que, aos poucos, a androginia vai se infiltrando na sociedade. Assim, talvez um dia o termo e imagem andrógina se torne menos estranho à sociedade”, termina.

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