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Por Harumi Visconti

Sete meses de transmissão. Lucro de dois bilhões de reais com publicidade. 46 milhões de telespectadores. Esse é o fenômeno Avenida Brasil, a novela das 21h da Rede Globo, que teve seu último capítulo exibido no dia 19 de outubro tendo atingido a marca de 51 pontos de audiência – maior que a final da Taça Libertadores deste ano.

Segundo a revista americana Forbes, especializada no mundo dos negócios, o sucesso da novela deve-se à protagonista da trama: a classe C. Ela é formada, segundo dados do governo federal, por 94,9 milhões de brasileiros com uma renda média mensal de R$ 1.064,00 a R$ 4.561,00 e correspondem a 50,5% da população brasileira. Em 2009, a classe C consumiu 881 bilhões de reais, do total de 2,2 trilhões de reais do País.

Com os programas sociais da gestão de Lula (2002-2010), a classe C se consolidou no Brasil com números expressivos.  Detentora de 46% do poder de compra, o novo setor da classe média pode agora ter acesso a serviços e produtos antes exclusivos das classes A e B. Viajar de avião, por exemplo, que há muitos anos era restrito a essas duas categorias, tornou-se prática frequente entre os brasileiros da classe C. Além disso, televisão a cabo, assinatura de Internet banda larga, compra de aparelhos eletrônicos, viagens de férias, gastos com vestuário, fazem parte da rotina desse novo grupo social. A classe C também tem acesso a setores privados de Saúde, Educação e Transporte. Eles agora podem pagar convênio médico. Podem colocar seus filhos em escolas e faculdade particulares. Podem comprar seu carro zero.

Mas esperem. Saúde, Educação e Transporte, setores tão priorizados nos discursos eleitorais, deveriam ser garantidos pelo Estado. Embora no governo Lula novas políticas para a Educação, tal como o Novo ENEM e o ProUni, além da implantação de dezenas de universidades federais em todo o Brasil e o do avanço do ensino técnico em muitas escolas tenham trazido novas perspectivas à área, ela precisa – e muito – de melhorias. Além disso, um sistema público eficiente de saúde se faz necessário em um País em que muitos ainda não podem pagar por seus tratamentos. A questão da mobilidade urbana é crucial em um País em que muitas cidades sofrem com o mau planejamento, impossibilitando a locomoção de seus moradores, ou melhor, trabalhadores.

 Vladimir Safatle, professor livre-docente do departamento de Filosofia da USP resumiu a gestão de Lula em sua coluna semanal no jornal Folha de São Paulo: “Entre outras características, o lulismo definiu-se pela aliança política de setores da esquerda brasileira e alas de políticos conservadores à procura de sobrevida ou em rota de colisão com a hegemonia PSDB-DEM. Tal aliança permitiu, por um lado, a constituição de um sistema de seguridade social de extensão até então inédita no Brasil. Por outro, ela consolidou a ascensão econômica de largas parcelas da população brasileira através, principalmente, da ampliação das possibilidades de consumo. Note-se que tal ascensão econômica, com seu consequente sentimento de cidadania conquistada, não passou pelo acesso a serviços sociais ampliados e consolidados em sua qualidade. Afora a importante expansão das universidades federais, ascensão significou: poder pagar escola privada, plano de saúde privado, celular, eletrodomésticos e frequentar universidade privada. Ou seja, os direitos da cidadania foram traduzidos em direitos do consumidor”.

O fenômeno da ascensão de mais de 90 milhões de brasileiros à classe C foi importantíssimo para a economia nacional. Além disso, contribuiu para uma maior diversidade cultural e étnica num setor social antes restrito a um grupo praticamente homogêneo. Entretanto, ele não pode ser considerado somente nesses quesitos. O Estado ainda não se faz presente nas principais áreas e ainda não dá completa assistência àqueles que realmente necessitam. A mobilidade social ocorrida alguns anos atrás fez com que serviços privados substituíssem o papel do Estado nos principais setores. As outras classes sociais, que não se encaixam no título de classe média e estão bem longe disso, ainda sofrem com o descaso e abandono dos governos, mas continuam assistindo novelas.

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