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Por João Monteiro

Ao andar pelas ruas e vielas da Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, é possível ouvir diversos tipos de músicas diferentes: o rap é toca alto em um bar, enquanto uma lojinha de CDs te leva de volta para os anos 60 com o padrinho do soul, James Brown. Andando um pouco mais, moradores dançam em um mercadinho ouvindo forró, e ao continuar pelas muitas ruas do bairro, é possível ouvir de tudo um pouco.

No entanto, a trilha sonora da Brasilândia, que parece exalar das paredes, é o funk. A música é ouvida por onde quer que se passe, sem saber ao certo de onde está vindo. Pessoas dançam nas calçadas enquanto carros passam com o porta-malas meio aberto, deixando a mostra seus potentes alto-falantes, com a música em uma altura exorbitante. São músicas tocadas nos bailes funk, ou “fluxos”, como são chamados pelos moradores. O fluxo pode acontecer em qualquer lugar, e a receita é simples: uma rua e um carro com um aparelho de som potente. O problema é que essas aglomerações têm em quase todos os casos um final trágico.

A Brasilândia é um dos piores bairros da zona norte de São Paulo para se morar, e vários moradores não vêem nenhum aspecto positivo do lugar. Além disso, a violência é concentrada nessas festas de rua, onde há sempre o consumo de bebidas alcoólicas, o uso de drogas e o porte de armas. O tema em si é tratado com cautela entre os moradores, tanto que nenhuma das pessoas entrevistadas quis divulgar seu nome. “Se a gente falar sobre os fluxos a gente toma tiro (SIC)”, diz um morador, que as freqüenta diariamente.

Uma menina de 17 anos, que mora no bairro desde que nasceu, diz que os fluxos são a única coisa que dá para se fazer: “Não tem nada para se fazer na Brasilândia. Os fluxos são de graça, acontecem em quase todas as ruas e a gente acaba não gastando nada”. Quando é perguntada se acontecem problemas, a adolescente é breve em sua resposta: “Sempre”.

De acordo com os moradores a violência quase sempre é causada pela polícia, que sempre aborda os bailes com violência, não poupando esforços em reprimir, violentar e abusar de todos os presentes. Um grupo de jovens e adultos sentados em uma calçada adota cautela e certo receio ao falarem sobre o assunto. Eles dizem que a polícia sempre acaba com os fluxos. “Eles já chegam com bombas (de efeito moral) e dando tiro pro alto, batendo em todo mundo”, diz um jovem, enquanto o outro completa o pensamento do amigo: “Ontem eu tinha acabado de chegar ao baile e já começou tiroteio de polícia”, reclama.

A polícia se defende dizendo que os bailes funk fecham a rua ilegalmente, além de ser um ponto de venda de entorpecentes e de reunião entre traficantes e ladrões.

O funk, além de ser a única diversão dos moradores da Brasilândia, graças a uma falta de planejamento de lazer e cultura da prefeitura para o bairro, é também a expressão e o desabafo dos problemas como a fome, a violência e a miséria, que existem em todas as periferias e favelas de São Paulo. É a preferência musical do bairro refletida nas ruas e nos moradores. O problema é que a violência, tanto marginal quanto policial, leva a uma taxa exorbitante de tragédias, deixando uma mãe preocupada se seu filho voltará ou não para a casa ao fim da noite. Essa é a realidade dos chamados “fluxos” da Vila Brasilândia. E a realidade, nesse caso, tem trilha sonora: tiros, explosões, e o silencioso pesar de quem fica.

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