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Por Fernanda Cerri

A ascensão da mulher na sociedade tornou-se um tema muito batido na mídia.  Mesmo assim, é necessário analisar esse conceito para compreensão do papel das mulheres que tomaram o poder na América Latina e mudaram um pouco a visão de mundo conservadora e machista. A argentina Eva Perón foi a primeira figura feminina na América do Sul a ser reconhecida como uma importante figura política, já que assumira o papel de primeira dama casando-se com Juan Domingos Perón. Evita, como era conhecida pelo povo Argentino, foi fundadora do Partido Trabalhista, o qual que levou o seu marido à Presidência. Dedicou sua vida para a melhoria das condições da população: lutar pela participação política das mulheres argentinas, dedicar-se ao Peronismo, que acreditava na participação política de trabalhadores e sindicatos, e criar lares para idosos e mulheres sem condições, foram algumas de suas contribuições.

Eva Perón em discurso – Reprodução

O mesmo presidente, Juan Perón, casou-se, pela terceira vez, com María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como Isabelita. Foi ela a primeira mulher no continente sul americano a assumir a Presidência da República em 1974, após a morte do marido. Entretanto, a falta de liderança política, culminou no golpe militar argentino, que a depôs dois anos mais tarde. Isabelita foi presa e condenada por corrupção pelos militares.

Isabelita Perón – Reprodução

Lidia Gueiler Tejada tinha poucos anos quando Isabelita foi deposta. Ela assumiu a Presidência da Bolívia durante somente oito meses, porém sua vida política e militante começou muito cedo. Ela lutou pela libertação dos prisioneiros políticos em 1951, juntamente com mais 27 mulheres. Esquerdista, batalhou para um mundo mais igualitário, que garantissem o direito e oportunidade para o povo boliviano.

Em 1978, Lidia foi eleita presidenta da Câmara dos Deputados e um ano mais tarde, ao ser revogado o mandato de Guevara Arze pelo Congresso, ela é nomeada presidenta da Bolívia. Porém, as dificuldades enfrentadas no seu governo, numa época de intabilidade e de violência e com a moeda desvalorizada, fizeram com que em 1980 ela sofresse um golpe de estado e renunciasse a candidatura.

Lidia Tejada – Reprodução

Essas três mulheres que chegaram a ocupar cargos importantes e que fizeram a diferença na participação política do sexo femenino, lutando não só pelas mulheres, mas também pelo seu povo, demonstram o exemplo que os outros países seguiram mais tarde. O Chile, um dos paises mais importante na América Latina, atualmente, teve a sua primeira presidenta em 2006, com Michelle Bachelet.

Indo mais além do que as figuras anteriores, Michelle incorporou o chileno que viveu desde a ditadura de 1973. Filha de um general torturado e morto pela ditadura, desde que cursava medicina na Universidade do Chile já militava pela Juventude Socialista. Depois de voltar do exílio que ela e se sua mãe foram submetidas, participou de ONGs que davam apoio a famílias com entes de desaparecidos e torturados.

Passou de sua ocupação do Ministério da Saúde para o Ministério de Defesa, após ter cursado um Colégio em Washington. A partir de 2004 dedicou-se inteiramente a sua candidatura e começou a ser reconhecida pela população, já que praticava resgate de desabrigados. Com 53,49% dos votos, a esquerdista Michelle venceu seu adversário da direita, Sebastião Piñera, no segundo turno, sendo a primeira presidenta mulher do Chile.

Em seu governo ela propôs diversas reformas, que não se realizaram em sua plenitude pelo caráter ainda consevador da sociedade chilena. Uma de suas mais famosas frases é: “La política entró a mi vida destrozando lo que más amaba, porque fui víctima del odio, he consagrado mi vida a revertir su garra y convertirlo en comprensión, tolerancia y, por qué no decirlo, en amor”. (“A política entrou em minha vida destroçando o que eu mais amava, porque fui vítima do ódio, eu consagrei minha vida em reverter sua garra e convertê-la em compreensão, tolerância e, por que não dizer, em amor”).

Atualmente, Michelle é a diretora da ONU mulheres, que foi criada em 2010 para sustentar a tese de que a igualdade de gênero é fundamental para o desenvolvimento. A organização garante a maior participação feminina e liderança, eliminação de violência contra mulheres e meninas, o engajamento nos processos de paz e segurança, o aprimoramento do poder econômico e a garantia da igualdade entre homens e mulheres.

Michelle Bachelet na ONU – reprodução

O país considerado pelos mercados como o mais progressista da América Central, a Costa Rica, teve a primeira presidenta eleita em 7 de Fevereiro de 2010. Laura Chinchilla foi eleita com 49% dos votos, poucos meses antes da presidenta Dilma Rousseff se eleger. A presidente da Costa Rica afirmou durante o discurso no Hotel Crown Plaza Corobicí que não decepcionaria o seu povo. Em sua campanha ela disse que garantiria uma melhoria na educação e a igualdade de gêneros no país.

As duas mulheres hoje, no poder na América do Sul, são Cristina Kirchner, da Argentina, e Dilma Rousseff, do Brasil. O governo de ambas está no foco das discussões, tendo em vista os protestos argentinos e os debates políticos brasileiros. As únicas semelhanças entre as duas presidentas é o forte poder de argumentação e que são ambas do sexo feminino.

Cristina Kirchner chegou a presidência da Argentina em 28 de Outubro de 2007, sendo a primeira eleita por decisão popular. Com a morte de seu marido em 2010, seu governo passou a ser questionado e o clima no país esquentou. Ela que começou na política após a prisão de alguns colegas de faculdade, se mudando da cidade onde residia e passando a ocupar cargos parlamentares. Isso também foi motivo de questionamento pela oposição, já que a atual presidenta não possuía experiência com cargos executivos.

No começo de seu governo, Cristina teve problemas com a inflação e teve de encarar a crise provocada pelos EUA. O aumento do preço internacional dos grãos fez com que os agropecuários se opusessem à diminuição das exportações. Nessa época ocorreram os panelaços no centro de Buenos Aires, protestos contra as medidas governamentais da Casa Rosada que permanecem até hoje. Porém, por outro lado, a Argentina viver um boom econômico neste segundo mandato da presidenta, que conseguiu uma alta no PIB de 37% desde 2007.

A queda na popularidade do governo de Kirchner atualmente se deve ao aumento da inflação e da política de controle na compra de dólares. As manifestações mais recentes foram consequência da redução dos salários das forças de segurança do país.

Em agosto deste ano, a presidenta Dilma Rousseff foi eleita pela revista Forbes como a 3ª mulher mais poderosa do mundo e a primeira da América latina. A primeira mulher eleita no governo do Brasil é reconhecida pela sua ambição de transformar o Brasil em uma potencia, em continuação ao governo anterior de Luiz Inácio Lula da Silva.

Dilma Rousseff, no dia 21 de setembro do ano passado, inaugurou o Debate Geral das Nações Unidas em Nova York, sendo a primeira mulher ao abrir o debate. Ela colocou sua visão sobre diversos assuntos, como crise global e a ascensão da mulher na sociedade. “Enfrentamos uma crise econômica que, se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social. Uma ruptura sem precedentes, capaz de provocar sérios desequilíbrios na convivência entre as pessoas e as nações.” afirmou. A Presidenta defendeu, ainda, que as nações deveriam se unir mais do que nunca, pois seria a única maneira de saírem vitoriosas, criticando assim o monopólio dos países e bancos europeus de resolverem o futuro das nações, concentrando em suas mãos uma resolução que deveria partir da participação de todos.

Dilma acrescentou que os países não estavam vivendo somente uma crise na economia, mas sim na política e na ideologia. “O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo” disse durante o discurso. Assim, criticou o modelo de vida capitalista que o mundo vive, que em ciclos se mostra ultrapassado, pois não visa o bem da população. Acrescentou ironicamente: “É significativo que seja a presidenta de um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego, que venha falar, aqui, hoje, com cores tão vívidas, dessa tragédia que assola, em especial, os países desenvolvidos.”.

O Brasil realmente vive uma fase de crescimento econômico significativo diante dos países desenvolvidos. Não é a toa que os desempregados europeus, asiáticos e americanos estão imigrando para cá em busca de uma oportunidade que não é possível lá fora. O governo Dilma, segundo a própria presidenta, estabeleceu a meta de um Brasil de classe média, reduzindo a pobreza no país e a desigualdade. Porém, o Brasil está longe de atingir essa meta, sendo um dos países mais desiguais do mundo.

A popularidade de Dilma no Brasil, ao contrário da presidenta argentina, aumenta cada vez mais, chegando a 70% este ano. Enquanto Dilma Rousseff parabeniza o processo democrático eleitoral da Venezuela que elegeu Hugo Chávez, a presidenta Kirchner questiona a liberdade de expressão da imprensa argentina, criando mais um motivo para manifestações. Em dezembro do ano passado, a presidenta argentina ameaçou de fechar o jornal Clarín se ele não se adequasse a Lei de Mídia sancionada por ela em 2009.

Apesar das diferenças governamentais dos países latino americanos, é importante o destaque a figura das mulheres que conquistaram o poder. Retomando o discurso da presidenta Dilma Rousseff na ONU em 2011, ela sumamente descreve esse sentimento feminino de vitória: “Além do meu querido Brasil, sinto-me, aqui, representando todas as mulheres do mundo. As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos; aquelas que padecem de doenças e não podem se tratar; aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar; aquelas cujo trabalho no lar cria as gerações futuras. Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje. Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.”.

* para acessar o vídeo do discurso seguir o link: http://www.youtube.com/watch?v=fnDreVbha3Y

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