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Por Bruna Mello e Thaís Folgosi

Templo mórmon em Oakland, Califórnia

Os mórmons são devotos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, religião que tem como fundador Joseph Smith, considerado um Profeta, pois teria recebido a revelação de Deus para ensinar e liderar seus fiéis. Foi um dos mais influentes doutrinadores na história religiosa dos Estados Unidos e tem, até hoje, milhares de seguidores por todo o mundo. Os adeptos estão em aproximadamente 14 milhões de pessoas, dentre os mais famosos seguidores está o concorrente de Barack Obama, nas eleições presidenciais norte-americanas, Mitt Romney. A religião tem cerca de 1 milhão de adeptos no Brasil.

A ligação entre o dogma e a memória é antiga. Em 1820, Joseph Smith Jr. ficou em dúvida sobre qual seria a verdadeira igreja e pediu uma orientação a Deus. Foi orar em um bosque quando Deus e Jesus Cristo apareceram e disseram para que não pertencesse a nenhuma igreja, mas que organizasse a Igreja de Cristo na Terra. Essa passagem é considerada como “A Primeira Visão do Mormonismo”. Em 1823, Joseph recebeu “A Segunda Visão Celestial” quando um anjo chamado Morôni lhe falou sobre um registro antigo.

Já em 1827, teve permissão para obter esse registro traduzindo-o para o inglês, que resultou no Livro de Mórmon, publicado em 1830. Depois disso, organizou a igreja e se casou com Emma Hale. Foi assassinado em 1844 por defender sua fé, juntamente com seu irmão. O livro de Mórmon relata a história e surgimento dos primeiros moradores da América, antepassados dos Incas. Também “expõe as doutrinas do evangelho, delineia o plano de salvação e explica aos homens o que devem fazer para ganhar paz nesta vida e salvação eterna no mundo vindouro”, segundo o próprio livro sagrado.

Joseph Smith, o profeta dos mórmons

A igreja foi organizada em 6 de abril de 1830 em Fayette, Nova York, para depois se mudar para o estado de Utah, EUA. Ela se estabeleceu em outras cidades e enviou missionários para várias partes do mundo, estando presente em mais de 172 países, incluindo a República Popular da China, que levou 30 anos para obter a autorização legal do exercício religioso. Para eles, Jesus Cristo é o líder da igreja e ao se converterem são chamados de “santos” por seguirem a Jesus Cristo.

As crenças básicas do Mormonismo são a palavra de sabedoria, arrependimento, as escolhas e as responsabilidades do mormonismo, batismo, caridade, castidade, dez mandamentos, dízimo, dom do Espírito Santo, fé, jejum, o dia do Senhor, obediência, oração, perdão, sacerdócio, sacrifício, testemunho e trindade.

Polêmicas

A Igreja Mórmon praticou a poligamia nos primeiros anos (1852) e sofreu muita perseguição. Mesmo não sendo praticada desde 1890, os mórmons continuaram a serem acusados. A Igreja se distancia de grupos que a praticam e excomunga seus membros que adotam tal ato. Embora, atualmente, a poligamia seja proibida em sua prática, a Igreja Mórmon nunca a renunciou como doutrina, e acredita que esse casamento será válido na eternidade. Entretanto, se há grupos ou pessoas que praticam a poligamia hoje, não são membros da Igreja. Por exemplo, Abraão, Isaac e Jacó tiveram mais de uma esposa, e para aquela época em que viveram era comum casar-se com mais de uma mulher, a lei era outra da que existe atualmente.

Em São Paulo, o bispo da Ala de Perdizes, Ariel La Mar, acredita que“muitos profetas da antiguidade tinham várias esposas, mas será que eles eram pecadores? Muitas vezes confundimos a poligamia como uma zona, porém não é nada daquilo. A visão do ser humano é diferente da de Deus, pois cada lei é diferente em determinada época… Teríamos que entrar em muitas doutrinas para explicar. O termo poligamia é muito preconceituoso, dando uma impressão pejorativa”.

Ser um adepto da religião mórmon e ser poligâmico são dois pontos polêmicos difíceis de explicar, pois “teríamos que entrar em doutrinas, e entrar nelas é polemizar. O homem deve se tornar fiel a sua esposa, e ser excomungado caso seja infiel a ela”, afirma Ariel. Outro assunto a ser tratado com cautela é o da política. O princípio básico das leis que governam o universo de Deus, como explica Ariel, é o livre arbítrio. “Os homens podem decidir em que acreditar, e na forma que quiserem escolher uma religião, crer em vários deuses, etc. ou apoiar-se em algo, deve ser respeitado. Os líderes das Igrejas não podem em momento algum falar mal de outra religião, nem apoiar ou falar de algum partido político, pois a verdadeira Igreja dentro da face da Terra não pode influenciar nenhum ser humano nas decisões em sua vida”, diz. Isso mostra que a Igreja Mórmon demonstra certa tolerância quanto à opção ideológica de seus praticantes ao não interferir em suas escolhas políticas.

O propósito da Pesquisa Genealógica

Os mórmons desenvolvem uma ampla pesquisa de genealogia da família, sendo capaz de descobrir e reconhecer os antepassados de um indivíduo, a partir de arquivos e documentos. Porém, é preciso ressaltar, que os membros da religião não buscam conhecer seus ancestrais apenas por curiosidade, e sim, em busca da salvação dos parentes mortos. Este é um dos valores pregados pela religião, o da salvação dos desconhecidos. Além de que segundo, Dallin H. Oaks, membro do Quórum dos Doze Apóstolos, “o processo pelo qual identificamos nosso lugar em nossa família é chamado de genealogia”.

Para isso, os membros da Igreja praticam o ritual sagrado da “ordenança para os mortos” ou “salvação dos mortos”, que consiste no batismo pelos ancestrais, isto é, em favor dos antepassados. “Na igreja primitiva de Jesus Cristo já havia o batismo pelos mortos, ou seja, uma doutrina do Cristianismo. Então, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias considera que deve dar continuidade a essa doutrina”, completa Ariel.

Descubra seus antepassados em familysearch.org

Os mórmons acreditam que os antecessores podem não ter tido a oportunidade de ouvir a verdade absoluta, seja porque não seguiam a religião ou porque não respeitavam as doutrinas, e o batismo seria uma chance de recebê-la. O bispo decreta que “todos deveriam ser batizados e ter a oportunidade de aceitar, ou não, o evangelho. Mas e os que morreram sem serem batizados? Como Deus é justo, Ele criou o batismo vicário, em que uma pessoa se batiza em nome de um falecido”. Portanto, para salvá-los é primordial conhecer os dados de cada ancestral da família do fiel.

  Ademais, no tal batismo, o morto, em um plano espiritual, tem liberdade de aceitar ou não a palavra de Cristo, mas independente da escolha não causará nenhum efeito aos familiares que decidiram batizá-lo

O procedimento

O trabalho de registrar as informações que adquirem não é feito por um grupo de especialistas, e sim, por qualquer indivíduo que quiser colaborar. “Não é necessário ser formado em Antropologia ou História para contribuir. Os participantes se tornam especialistas pela experiência que teve na sua própria vida. Não é uma questão de formação acadêmica, e sim, de vivência”, comenta Ariel. Porém, formam-se equipes especializadas que se colocam a disposição para ajudar os interessados.

 Os registros úteis para a pesquisa vão desde atestados de óbito, testamentos, livros de batizados, casamentos, até matrículas, arquivos bancários, passagens de navio, entre outros.Segundo o que pregam, o amor é a principal motivação para este serviço. Todos os mórmons estão comprometidos com o trabalho de fornecer informação e ajudar a recuperar qualquer tipo de documento ou arquivo, sejam de seus ancestrais ou de outras pessoas, que sirvam para a pesquisa. Para eles, todo nome deve ser registrado.

 Além disso, não é necessário ser mórmon, como confirma o bispo, “mais de 50% das pessoas que pesquisam no Centro Histórico da Família não são membros. Até parece contraditório, quem é membro participa menos do que quem não é membro. Há muita gente fora da Igreja que usufrui desse trabalho”.

Centros de História da Família

O principal Centro de História da Família se localiza em Salt Lake City, em Utah, nos Estados Unidos, e segundo engenheiros, está protegido em um abrigo (uma montanha de granito) à prova de ataque nuclear. Desde o início da sua existência, no ano de 1894, responsáveis pela Biblioteca buscaram arquivos ao redor do mundo. O primeiro meio que encontraram de registrar tal documentação foram os livros, depois encontraram uma maneira mais duradoura e menos suscetível a perdas e danos, através das microfilmagens. “Há bilhões de nomes guardados em microfilmes sendo que estes últimos eram disponibilizados em rolos de filmes”. Enfim, existem centenas de milhares de registros de documentos graças a esse trabalho.

Biblioteca da história da família em Salt Lake, Utah

Além da biblioteca principal, há cerca de 4 mil locais de pesquisa pelo mundo, dentre eles, no Brasil. “Há diversos centros de pesquisa em São Paulo, e praticamente, em cada cidade do país. Eles estão localizados nas estacas, que são regiões, como Perdizes, Ipiranga, Pirituba, etc. Em cada estaca há um centro de pesquisa genealógico. Em São Paulo, há mais ou menos, 10 estacas e, portanto, 10 centros”, diz o bispo. Já a principal sede e centro de microfilmagem e arquivo, na capital do Estado, encontram-se na Avenida Prof. Francisco Morato (nº 2390/2430), no bairro de Caxingui.

Acesso

 A Igreja e a Biblioteca, devido à tecnologia, desenvolveram tal programa de microfilmagem, extenso e ao redor do mundo, que contêm, hoje, aproximadamente, 8 bilhões de nomes. Além disso, a tecnologia facilitou a distribuição de informação da história da família para os outros centros de pesquisa genealógica. Desde que o site Family Search foi criado, ele vem auxiliando tanto a pesquisa genealógica em si, quanto os indivíduos que estão pesquisando.

Hoje, a maioria da documentação se encontra na Internet, pois o material está sendo digitalizado e disponibilizado, e, portanto, o acesso livre se torna um atrativo, até para curiosos que não sejam necessariamente mórmons.

  É simples usar os serviços do Family Search que funciona como uma rede social e que em momento algum apresenta um discurso religioso. Enfim, basta fazer um cadastro, e esperar a confirmação via e-mail (que por sinal é rápida), e é totalmente gratuito assim como seu uso. A partir disto, é possível ter acesso a todo o conteúdo que o site proporciona e de forma descompromissada. “Para fazer uma busca é preciso palavras-chave para identificar um documento, por exemplo, local, nome, sobrenome, cidade, etc., pois simplesmente uma imagem não te proporciona nenhuma informação”, explica Ariel.

Exemplo de um microfilme do site Family Search

Os cadastrados também podem colaborar no trabalho de indexação, que se trata de transcrever as informações contidas nas imagens e microfilmes. Para o bispo “o trabalho de indexação está começando a crescer. Em nossa região, conseguimos fazer 40 mil nomes, no último mês, ao transcrever imagens, nem sabemos de quem se trata. Eu sou indexador; quando tenho tempo, entro na minha conta e ajudo”.

Além disso, o site localiza todos os centros de pesquisa do mundo, podendo informar ao interessado o lugar de pesquisa mais próximo. A única coisa que pode prejudicar a busca é que grande parte do site está em inglês, só há versões em outras línguas na página de cadastro e na simulação de como preencher a indexação (o banco de dados).

Ao contrário nas antigas pesquisas genealógicas para se coletar dados era preciso viajar longas distâncias, fazer requerimentos em cartórios etc. Como as dificuldades enfrentadas pelo próprio bispo Ariel quando buscou a história de sua família. “Na época, eu estava na Bolívia (já que sou boliviano), e era o início da Internet. O procedimento era o seguinte: como todos os microfilmes foram enviados para Salt Lake City, para serem preservados, havia o índice de todos os que existiam da Bolívia. Logo identifiquei que havia determinados microfilmes com imagens de igrejas, de 1850 a 1900, da cidade de Coquechacua, no estado de Potosí. Com tais informações, eu fiz um pedido para a sede da Igreja, nos Estados Unidos, que me mandassem uma cópia de tais microfilmes, então eles me remeteram por correio, e eu paguei somente o envio, que custou cerca de 1 dólar. Em 20 dias, um mês, chegaram os microfilmes, onde os coloquei em uma máquina que transmite rolos de filmes”, conta, e depois conclui, “procurei por semanas se eu poderia identificar algum antepassado, e consegui 25 nomes: o nome do meu avô materno e de todos os seus irmãos. Localizei, primeiramente, meu avô, depois os pais dele, os padrinhos, e então, identifiquei os outros filhos”.

Um pensamento em “Mórmons: igreja como memória

  1. Parabéns! Gostei da matéria. O tema é interessante, bastante informativo e está muito bem redigido. Beijos. Kátia

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