Home

Por Luisa Jubilut

O Instituto de Advocacia Racial, o Iara e Antônio Gomes da Costa Neto, técnico em gestão educacional enviaram um mandado de segurança para o Supremo Tribunal Federal (STF) afirmando que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, apresentaria elementos racistas em suas narrativas. A questão gira em torno da obra integrar o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Justificaram afirmando que não há liberdade de expressão que ultrapasse os limites do que é considerado racista.

No trecho acusado de racismo, a personagem Tia Anastácia, a empregada negra do sítio é comparada a uma “macaca de carvão”. O mandado exige a anulação da adoção e distribuição do livro em escolas públicas, como foi decidido pelo Conselho Nacional de Educação em conjunto com o Ministério da Educação, o MEC. Foi marcada, então, uma audiência, realizada dia 11 de setembro no gabinete do ministro Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal, cujo o objetivo era chegar a um senso comum em relação ao livro.

Entre os convidados estão o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, Ana Maria Bettencourt, presidenta do Conselho Nacional de Educação, Humberto Iara, representante do IARA, Antônio Gomes da Costa Neto e Roberto Gurgel, ouvidor da Secretaria de Políticas da Promoção da Igualdade Racial. Luiz Fux liberou uma nota na qual dizia de que o a audiência tratava-se de uma “possibilidade de se inaugurar um processo de mediação capaz de ensejar um desfecho conciliatório célere e deveras proveitoso para o interesse público e também nacional”.

Porém, nenhuma conciliação não foi atingida na reunião. Foi decidido que haveria outra encontro. Uma das propostas feitas foi o treinamento dos professores que lecionariam sobre a obra de Monteiro Lobato, morto em 1948. “As personagens Tia Anastácia, Tio Barnabé, o Saci, Jeca Tatu e a menina do conto “”Negrinha”” são registros ficcionaisde tipos humanos — destaco o adjetivo, para evitar que as vozes do texto sejam compreendidas equivocadamente como a voz de seu autor, e não como a voz da ficção, aquela que tem a capacidade de se tornar “realidade” por meio da arte da linguagem.” pontua Márcia Leite, que escreve para crianças e jovens há mais de 25 anos, atua também na área educacional como formadora de professores na área de Língua e Literatura e abriu,  com Leonardo Chianca, a Editora Pulo do Gato, especializada em livros para leitores em formação e formadores de leitores.”Não conheço crianças que tenham se tornado racistas após a leitura de alguma obra de Lobato ou que tenham abandonado a leitura por terem se “indignado” com alguma fala supostamente preconceituosa do autor.  Conheço, no entanto, muitos leitores crianças que perguntaram a seus pais ou professores, como um dia meus alunos e meus filhos perguntaram também mim: “”Por que Tia Nastácia foi chamada de “macaca de carvão””? Esse questionamento, próprio de um leitor ativo, e sem preconceitos, é que abre as portas para o diálogo, que, quando realizado com respeito à inteligência da criança (sem que a doutrinação esteja colada ao objetivo de se ler um livro literário), colabora para o plantio de uma consciência crítica que busca, no conhecimento das mudanças sociais e dos valores de época em que uma obra foi escrita, as justificativas que permitirão ao pequeno leitor alargar a compreensão de sua própria realidade.”

O advogado Humberto Adami sugeriu que a obra incentivasse bullying nas escolas e disse, que além de Ziraldo, não havia ninguém que não visse traços racistas na obra de Monteiro. Porém, o professor Paulo Vinícius Baptista, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Univeridade Federal do Paraná, afirmou que, apesar de ser visível o conteúdo racista da obra, as crianças não seriam afetadas negativamente pela leitura. “Acho que, como é para crianças que ainda estão aprendendo sobre a vida, precisa explicar que aquilo não é certo, que não pode chamar, ou tratar as pessoas daquele jeito só porque elas são negras,” afirma a empregada doméstica negra Neusa dos Santos, de 60 anos “o Brasil já é racista por natureza e as crianças são o Brasil do futuro”.

Secretário de Educação Básica do MEC, César Callegari disse que censura não será aceita, pois “Caçadas de Pedrinho” seria apresentada de forma contextualizada e defendeu que o estudante deve ter direito ao acesso. O autor Ilan Brenmande também se pronunciou. Escritor do livro “A Condenação de Emília: o Politicamente Correto na Literatura Infantil”, disse que as crianças jamais absorveriam um comportamento racista, pois estão mais “interessadas nas trapalhadas que na cor de pele dos personagens”. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ivan Junqueira fez coro à Brenmande ao dizer que, caso providências sejam tomadas por casa traço racista da literatura, pois a discussão ultrapassaria Monteiro Lobato e partiria para uma série de outros escritores.

A Academia Brasileira de Letras deu sua opinião através da divulgação de uma nota oficial, que diz  “Cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica. Um bom leitor sabe que tia Anastácia encarna a divindade criadora dentro do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época. (…) Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica. (…) Seria muito melhor que os responsáveis pela educação estimulassem uma leitura crítica por parte dos alunos” pontuou.

“Negrinha” também recebeu um cartão amarelo do Iara, que entrou com um pedido de investigação da compra do livro, escrito em 1920, pois também não deveria ser adquirido com recursos públicos. Humberto Adami, afirmou que o objetivo não é censurar, mas reivindicar a contextualização obrigatória, não apenas recomendatória. O que o instituto quer é um encarte explicativo. E o treinamento de professores para tratar do assunto nas escolas, pois apenas 69 mil, de 2 milhões, teriam sido capacitados. Nessa obra, a personagem Emília narra: “É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem carne preta”. Adami afirma que não acatar aos pedidos do Instituto seria um grande erro, que deve ser, imediatamente, reparado e diz que avalia a possibilidade de ocorrência de crime de improbidade administrativa, pois a compra com recursos públicos do livro feriria a lei.

Alguns, como João Luiz Ceccantini, pesquisador de literatura infanto-juvenil e co-autor do livro “Monteiro Lobato – Livro a Livro”, que declarou em uma entrevista ao “Observatório da Imprensa” que toda a polêmica “Trata-se de analfabetismo histórico”, são contrários à discussão. Outros, como Adami, defendem a conciliação. Cabe ao público esperar para saber se Monteiro Lobato será considerado inocente ou culpado de crime de racismo na literatura brasileira.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s