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Por Isabella Prado

Para os moradores (e amantes) das grandes metrópoles, o conceito de ecovila pode soar muito estranho ou eco-chato. O barulho da britadeira logo de manhã, a multidão aglutinada nos ônibus ou o caos do trânsito que consome horas do dia de um motorista são pequenos gestos que compõem a rotina dos paulistanos. Porém, alguns decidiram abrir mão do caráter insano de São Paulo e decidiram, longe dela, viver em comunidades como ecovilas. Ainda desconhecidas, são basicamente grupos sociais de 50 a 2.000 pessoas, que unidas, procuram alinhar os aspectos ambientais, sociais, econômicos e espirituais. A meta principal é a sustentabilidade, seja ela na produção dos alimentos orgânicos, na utilização de energias renováveis ou com a contribuição de todos para efetivar uma economia autossustentável.

 A primeira comunidade do mundo a ser denominada como ecovila é Findhorn, no Norte da Escócia. Em 1962, Peter e Eileen Caddy e Dorothy Maclean criaram a comunidade com a intenção de tornar a espiritualidade uma prática diária e construir jardins desenvolvidos em solos arenosos e áridos. As comunidades já são pauta há muito tempo nas conferências das Nações Unidas e em 1965, as ecovilas foram lançadas e discutidas em proporções globais num encontro histórico que a Fundação Findhorn realizou.

Vista da primeira ecovila do mundo, Findhorn, na Escócia – Reprodução

O site Global Ecovillage Network agrega as comunidades espalhadas pelo mundo. É possível cadastrar e procurar uma ecovila, tanto um projeto rural como urbano, além das técnicas de cultivo desenvolvidas na permacultura. Os seus criadores, os australianos Bill Mollison e David Holmgren, começaram na década de 1970 a pensar maneiras possíveis de aproximar a disposição dos vegetais dos ecossistemas naturais. A partir de um plano estético e a aplicação dos princípios básicos da natureza é possível integrar plantas, animais, construções e pessoas em um ambiente que seja produtivo. O termo “permacultura” surge a partir desse conceito, uma cultura permanente, como diria o idealizador do modelo Bill Mollison, “um sistema evolutivo integrado de espécies vegetais e animais perenes úteis ao homem”. Ou seja, dentro de uma propriedade, não entra e não sai nada, tudo que entra nela continua lá, pelo sistema de reciclagem.

A ecovila nasce, portanto, do princípio de cooperativismo, uma associação onde todos obtêm benefícios com os resultados. Provavelmente, a parte mais estranha para um novato que está pensando em aderir à comunidade. As cidades estão em um processo de colapso, onde não é mais possível crescer, pois não existe mais espaço. As construções que já existem devem ser restauradas e o meio urbano deve se adequar ao momento em que estamos passando. Para isso, algumas pessoas foram procurar o sentido da vida longe da metrópole, lá no interior.

 Um deles é o jornalista Edilson Cazeloto, que há um ano está morando na ecovila Clareando, entre Piracaia e Joanópolis, perto de Atibaia. Localizada em uma área de preservação ambiental, em duas horas percorre o trajeto de moto, o que de carro duraria muito mais visto o trânsito imprevisível de São Paulo. Na casa, ele e sua esposa Giuliana Capello, que é jornalista ambiental e autora do blog Gaiatos e Gaianos, desenvolveram um laboratório de bioconstrução, com técnicas mais naturais e de baixo impacto. Na casa que construíram existem 11 paredes diferentes, que são feitas desde técnicas mais naturais, como o pau a pique, que é uma trama de bambu fechada com barro, até outras técnicas mais contemporâneas, como o coordwood que são toquinhos de madeira. “Nós fomos experimentando. Minha casa tem um banheiro seco e eu faço a compostagem das fezes. Ela é armazenada de uma forma específica, que não produz cheiro nem moscas, de mais ou menos 6 a 8 meses, vira um adubo que eu posso colocar nas minhas plantas. Tenho um telhado verde, que tem grama, faço a captação da água de chuva. Tem uma torneira em casa com água potável de uma mina perto de onde eu moro — todas as outras são com água de chuva”, conta Edilson. A horta também faz parte do dia a dia da comunidade, estão caminhando para o grande objetivo: agricultura sustentável. Em 2013, Edilson espera tirar 40% da sua alimentação de lá.

 No Brasil, de uma maneira geral, as iniciativas para reduzir impactos ambientais estão crescendo. Sejam elas, um conjunto de atividades tecnológicas, como painel solar e outras que são chamadas de bioarquitetura, que nada mais são do que construções de baixo impacto, por exemplo, as construções de casas e paredes com barro, madeira sem tratamento, e alguns elementos que consigam alinhar o paisagismo e a função. O que pode ser denominado como arquitetura verde, pode ser tanto um prédio totalmente high-tech com algumas tecnologias de proteção ambiental. A sustentabilidade, palavra que muito se ouve e pouco se sabe a respeito, representa, acima de tudo, continuidade. Não está relacionado apenas com o seu aspecto ambiental, e sim, econômico, social e cultural. Portanto, o desenvolvimento sustentável é aquele capaz de suprir as necessidades reais da sociedade nesse exato momento, sem que interfira no futuro, onde as próximas gerações precisarão de outras necessidades.

 As próximas gerações já estão começando a pensar nas suas prioridades, a partir dos 18 anos, já procuram saber sobre o funcionamento das comunidades construídas a partir do cooperativismo. Existe cerca de 20 mil ecovilas no mundo, o que consta na rede da GEN. Em torno de 250 estão localizadas no Brasil e ainda não existe um exemplo de espaço que tenha durado por muito tempo. Apesar de ser um número ínfimo perto dos outros países, temos certa garantia que projetos como esse ainda funcionem de forma harmoniosa em São Paulo, pois as pessoas ainda procuram pelo conforto do interior.

 A oferta para se viver em outros lugares nunca pareceu tão atrativa, as pessoas estão encarando o fato da cidade de São Paulo estar em colapso para procurar condições menos nocivas de vida. A Casa dos Hólons, no Campo Belo, e a Morada das Florestas no Butantã, são exemplos de ecovilas urbanas. Oferecem workshops, palestras e visitas que inspirem moradores dos grandes centros urbanos a pensarem na causa e, posteriormente, adotarem algumas medidas no seu cotidiano. A mudança, apesar de radical, é benéfica. Edilson desabafa “hoje eu me pergunto como passei tanto tempo nesse inferno! A qualidade de vida é excepcionalmente boa lá, tem algumas coisas que são os maiores luxos que um ser humano pode ter: arte, tranquilidade, cultura, silêncio, passarinho cantando na minha porta e segurança com a minha casa aberta a maior parte do tempo. Isso pra mim é riqueza, luxo. Não é morar num apartamento de 6 milhões de reais no Morumbi, sair de casa e pegar trânsito. Foi a realização de um modelo de vida, do qual a casa faz parte, mas não é tudo. É uma mudança de vida”.

 “Se a casa não é uma expressão de coisas que essa pessoa está trazendo para si, ela não vai adiantar em nada” declara Edilson. O mercado imobiliário hoje tem vendido prédios com conceitos sustentáveis. Existem casos, também, de pessoas que sensibilizadas pela tomada de consciência ecológica, resolvem se mudar para um apartamento, com uma série de tecnologias que reduzem o impacto ambiental. Porém, não adaptam o seu modelo de vida para racionalizar energia, o que acaba não significando nada. O termo “greenwashing” traduz esse momento, onde o marketing se aproveita para passar a imagem de uma empresa ecologicamente correta, quando na verdade, a construção não irá alterar o estilo de vida da pessoa que mora dentro dela. As casas e prédios “green”, “eco-friendly” e todas as outras nomeações dadas pelo mercado são muitas vezes um engano para o consumidor. Diversos eletrodomésticos ligados ao mesmo tempo e  banhos de 45 minutos não serão compatíveis com as mudanças ambientais que a casa representa.

Equipe Clareando

Uma das casas construídas na Ecovila Clareando em 2010 – Reprodução

Equipe Clareando

“Um belo lugar para morar”, os moradores da ecovila contribuindo para a construção de uma casa – Reprodução

Equipe Clareando

A casa de Edilson e Giuliana, com o telhado verde que ajuda na captação de água das chuvas – Reprodução

Equipe Clareando

Edilson acompanhando visitantes em uma explicação sobre a construção de sua casa – Reprodução

Equipe Clareando

O começo da ecovila Clareando: “consiste num condomínio rural que reúne pessoas com um mesmo objetivo (…) com 23 hectares, sendo dois de mata nativa, quatro nascentes e muitas araucárias, ela está a apenas uma hora e meia de carro da cidade de São Paulo” – Reprodução

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