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   Por Bianca Benfatti e Vanessa Ramos

O medo é um alerta natural aos perigos que se aproximam um sentimento saudável, de defesa e de autopreservação quando nos encontramos diante de uma situação que possa apresentar algum perigo real.
Mas se por um lado o temor natural nos ajuda, o medo excessivo ou patológico gera sofrimento.

  • Como distinguir os medos? Quando é necessária ajuda?

Segundo a psicóloga e integrante da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Deise Maria Basso, o medo é um sentimento comum que pode ajudar na sobrevivência do homem, porém quando ele é exagerado e não possui um objeto específico de temor o tratamento torna-se mais difícil: ”é o que chamamos, na linguagem mais comum, de “síndrome do pânico”. É comum encontrarmos atrás da “síndrome do pânico” uma depressão” afirma a especialista.

A fobia, por outro lado, tem como sintoma principal o medo exagerado, mas diferente do descrito anteriormente, há um objeto ou situação que gera a fobia, “Limita a vida porque para evitar o objeto fóbico temos que evitar certas situações, animais, etc. É de mais fácil tratamento quando comparada com o “pânico””. Mesmo com essas diferenças básicas, a solução mais indicada e eficaz nos dois casos é a psicoterapia, “A medicação é indicada somente nos casos em que a patologia ganhou tamanha força que impede a pessoa de poder desenvolver as atividades básicas do dia-a-dia como trabalhar, estudar, dormir, comer, sair de casa, estar com outras pessoas.”

Mas qual é dos dois é pior? Para a doutora Deise o medo é o mais difícil de ser detectado e tratado, pois como não tem algo específico para temer, o tratamento é mais longo, pois demanda um tempo maior para descobrir como a pessoa adquiriu esse medo. No caso da fobia esse processo está iniciado, os pacientes geralmente sabem a origem desse sentimento e o que acarretou.

Deise relata alguns casos que já tratou: “Os tratamentos de fobias como medo de elevador, de dirigir, de ir à escola, etc, desde que o paciente se comprometa com o trabalho psicoterápico, sempre tem um bom resultado. O prognóstico é sempre mais favorável. O medo faz parte do quadro psicopatológico, é apenas um dos sintomas. Quando vamos ampliando o trabalho deixando de focar apenas no sintoma, e sim na vida da pessoa como um todo, o sintoma do medo assim como outros sintomas, tende a desaparecer. E já tratei casos muito mais graves, onde a pessoa com medo expressa corporalmente seu medo através de sudorese, respiração ofegante, etc, mas não consegue expressar verbalmente o que se passa com ela. São tratamentos mais difíceis e mais longos e que depende mais ainda do compromisso do paciente com o tratamento”.

Mais difícil que o próprio tratamento, no entanto, é a aceitação da patologia. Geralmente quando estes medos e fobias atrapalham o cotidiano, quem sofre busca ajuda. Como regra, quando os objetos ou situações que causam o medo podem ser evitados (como por exemplo, a Coulrofobia − medo de palhaços) não se procura ajuda− o que pode ser um erro, pois além do próprio medo há também sintomas que oferecem risco: falta de ar, taquicardia, entre outros. O problema é que as pessoas com essas fobias deixam de procurar um médico com medo do diagnóstico ou por não considerarem necessária a busca por uma terapia. Marina M. é uma adolescente de 14 anos que possui a Coulrofobia, ela contou que seu medo já atrapalhou a sua vida: “muitas vezes deixei de sair com amigos, como para ir a circos e festas, pois haveria palhaços nesses locais”, mesmo isso não sendo frequente, por não encontrar sempre coisas relacionadas ao seu medo. Quando perguntada se alguma vez pensou em procurar ajuda, Marina respondeu: “houve um tempo que eu tive muito medo e pensei sim em procurar ajuda para enfrentar meu medo”.

J.P. é uma pessoa que não quis se identificar, a qual sofre com esse tipo de medo, aparentemente normal, mas que implica em diversas questões profundas, ela relatou sua experiência: “Trabalho e estudo com muitas pessoas, mas mesmo assim, me sinto sozinha. A solidão é o meu maior medo, tanto que quando estou sozinha em casa, ligo a televisão só para não ouvir o silêncio, que por sinal, me incomoda muito. Não sei ao certo quando surgiu, mas me assusta chegar ao fim da vida, sem ter alguém para me acompanhar em todos os momentos.”.

As fobias mais comuns são: a agorafobia (multidão em lugares abertos), fobia social (ansiedade de situações que envolvam muito convívio social), a homofobia (preconceito sexual, a partir da compreensão de sua origem e das dimensões desse mecanismo de defesa).   Dentre as celebridades, a fobia mais comum é a Ptesiofobia, ou seja, o medo de avião. Como é o caso de Aretha Franklin, Michael Jackson, Cher e muitos outros.

Travis Barker (baterista do blink-182) também possui esta fobia, entretanto no caso do músico, este medo exacerbado atrapalha sua rotina de shows. Os integrantes da banda contaram à BBC que Travis faz a travessia dos Estados Unidos à Europa de navio e depois pega um ônibus ou trem até o local do show, tudo para evitar o voo. M.D., outra pessoa que sofre com fobia e que também preferiu não revelar sua identidade, descreveu o que sente: “Acho que o que eu sinto não é mais medo, é pavor. Não consigo ver, de jeito nenhum. É mais forte que eu. Antigamente era menos, mas hoje em dia piorei. Penso seriamente em procurar tratamento médico, apesar de que em São Paulo, capital, é muito mais fácil lidar com o meu medo, porque não se encontra com facilidade uma cobra pelas ruas! Mas estamos sujeitos a tudo, e eu não quero nem pensar nessa possibilidade.”

Um exemplo famoso pertencente ao mundo da ficção é do Cascão, personagem da Turma Da Mônica. Ele possuía uma fobia de água, foge de banhos, chuva e qualquer coisa que envolvesse seu medo. Maurício de Sousa o criou em 1961, baseado nas suas próprias histórias da infância. Representa um caso de hidrofobia, medo excessivo de água. O filme “Aracnofobia” de 1990 dirigido por Frank Marshall, também cita uma fobia muito comum: o medo de aranha. Por possuírem objetos tão específicos esses tipos de fobia são frequentemente tratados com o enfretamento direto. Nesse caso, aranhas podem ser colocadas na mão do paciente, ou pra quem tem a acrofobia (medo exagerado de altura) os pacientes podem ser expostos a lugares altos.

  • Apagando memórias de medo

    Outro tratamento possível foi descoberto pela comunidade científica pelos estudos da universidade de Uppsala na Suécia, e mostra resultados positivos quanto à tentativa de, literalmente, apagar as memórias ruins, que estariam associados aos medos, da mente humana. Isso seria possível porque segundo especialistas, antes de formar uma lembrança, a memória deve ser consolidada com a ajuda de proteínas, o tratamento então interrompe a consolidação de novas memórias emocionais, evitando que as pessoas associem eventos negativos com o sentimento de medo. Possibilitando o esquecimento do medo e da situação que pode ter causado.

  • Atendimento na Rede Pública de saúde

    Quantos já não ouviram que “psicólogo de pobre é louça pra lavar”? Essa e outras inverdades são reproduzidas, em muitos casos, porque quando se ouve falar desse tipo de tratamento (psicológico), os pacientes são sempre celebridades ou pessoas de classe social mais elevada. Portanto, consultas ao psicólogo ou psiquiatra formam uma realidade distante do cotidiano das populações carentes. Além deste preconceito, podemos perceber que o acesso a este tratamento não é fácil para quem mora na periferia. Desde a implantação do Programa de Saúde da Família (PSF) foi determinado que cada micro região ou centro de saúde deve ter uma equipe de saúde mental disponível.

Em relação aos profissionais e instalações da rede pública de saúde uma pesquisa realizada pelo Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP) mostrou que 73% dos serviços públicos prestados possuem leitos psiquiátricos, e que 72,7% dos médicos que atuam no SUS possuem pós-graduação, sendo que destes 77,2% são especialistas. Apesar dos números favoráveis, falta que estes benefícios sejam perceptíveis com a realização efetiva destes projetos e atendimento de qualidade.

Esta reportagem percorreu a Zona Sul da cidade São Paulo, em busca de consultas gratuitas pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Na periferia, proximidades da M´boi Mirim, as consultas foram encaminhadas para outros postos de saúde, próximos ao centro. A atendente já explica que a paciência será fundamental: as consultas, geralmente, têm uma espera de meses.

Para quem não pode esperar por tanto tempo outra opção seria recorrer a hospitais filantrópicos (que tem contrato com a prefeitura do estado) os quais atendem clientes da rede pública de saúde com uma guia do clínico geral. Além disso, muitas faculdades oferecem o serviço, mas a desvantagem em optar por estas é falta de continuidade no tratamento, já que é realizado por estudantes e os estágios são de curta duração. Quem depende desse tipo de ajuda para se tratar não encontra a atenção adequada. Dificultando a cura, relativamente simples com a ajuda de um médico especializado, e aumentando os casos de medos e fobias sem tratamento.

Quando se trata de problemas tão íntimos e complexos, como o medo e a fobia, o mais importante é procurar ajuda, por mais que os sintomas pareçam evitáveis. Se um medo ou fobia chega efetivamente a atrapalhar a vida e o cotidiano de uma pessoa, a melhor solução é buscar a terapia. Aceitar a patologia é o primeiro passo para a sua cura.  Fingir que não é tão grave ou que pode ser superada sem apoio médico, é um erro. O medo pode evoluir para a síndrome do pânico, uma doença mais difícil de ser tratada. E a fobia, independente de qual seja o objeto de temor, atrasa o dia-a-dia e as atividades do indivíduo.

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