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Por Harumi Visconti

07h30min. Inicia-se no quartel do Corpo de Bombeiros a rendição de parada de duas equipes dos oficiais. Após terem escutado com atenção as informações dadas pelos comandantes, troca-se o turno das equipes. Os oficiais que iniciarão mais uma vez o trabalho no quartel se dirigem até as viaturas para conferir e repor materiais utilizados em outras operações, e aqueles que passaram o dia anterior no quartel retornam às suas casas.

Pausa para o café no refeitório.

Após a refeição matinal, os oficiais iniciam o treinamento básico unificado, que é aplicado igualmente em todas as outras bases do estado. O procedimento consiste basicamente em simular acidentes e incêndios e instruções de nós e voltas. Essa é a rotina diária dos bombeiros. Porém, com apenas um som – o da sirene – ela pode ser completamente e imediatamente quebrada.

Quando se pensa em bombeiro, logo vem à cabeça a imagem de grandes labaredas sendo apagadas por um grupo de corajosos oficiais que, com o famoso caminhão vermelho e a capa amarela, apagam pouco a pouco as chamas com as mangueiras. Entretanto, essa imagem deu lugar a uma nova função da corporação, que hoje em São Paulo é a mais recorrente: o resgate no asfalto. Na cidade que não pára e que movimenta diariamente centenas de milhares de automóveis, acidentes de trânsito com vítimas são as principais ocorrências dos bombeiros todos os dias.

Com o serviço de Resgate, uma viatura com três integrantes do Corpo de Bombeiros – diferentemente do Samu, um serviço da prefeitura com funcionários públicos da área de saúde – a corporação ganhou notabilidade com o sucesso obtido nos salvamentos. Devido ao seu visível profissionalismo, o Corpo de Bombeiros ganhou a confiança dos brasileiros, tornando-se a profissão em que eles mais confiam.

O 1º sargento Jadiel do Corpo de Bombeiros da Lapa, zona Oeste de São Paulo, já está há 31 anos na profissão. Ele conta que se preocupa com o status alcançado pela corporação: “Quando você ganha um título, você tem que ostentá-lo. Há uma preocupação individual de cada bombeiro em manter essa responsabilidade”. Mas diz, com alegria visível no rosto, que sente muito orgulho do que faz. E não é para menos. O sargento ganhou uma medalha ao salvar uma mulher de uma tentativa de suicídio. “Quando chegamos ao local, ela estava para se jogar da Ponte do Morumbi. Eu e um outro oficial negociamos com ela por uns 30 minutos. Durante esse tempo, fui me equipando e me prendendo à ponte. Quando ela se jogou, eu a segurei”. Além disso, comandou a equipe que em setembro foi escolhida como a Equipe do Mês pelos superiores e, como retribuição, foram convidados para tomar um café de manhã com o comandante do Corpo de Bombeiros na Praça da Sé, no centro, já que mostraram brilhante desempenho e rapidez na chegada a três acidentes: na queda de um helicóptero, na queda de um caminhão na linha de acesso da Anhanguera e em um incêndio numa favela da capital paulista.

Apesar dos bombeiros nunca saírem do quartel quando não há ocorrências – são uma tropa aquartelada – há sempre uma equipe preparada para atender a qualquer momento um chamado. Quando o alto-falante informa aos oficiais detalhes da ocorrência, eles têm apenas 30 segundos para deixar a base durante o dia, e 40 segundos durante a noite.

Lidando diariamente com acidentes e incêndios – situações de alto risco e de forte apelo emocional – os bombeiros precisaram desenvolver aquilo que o sargento Jadiel diz ter adquirido ao longo do tempo: frieza. “Cada ocorrência lida com um tipo de emoção diferente. Essa frieza é consequência da situação de controle.” Para ele, é a partir do controle e do domínio da situação que se adquire a frieza e a calma necessárias para operar nas ocorrências. “Quando eu chego ao local do acidente, faço uma triagem dele, ou seja, um teatro da ocorrência. A que velocidade o carro estava, se a vítima estava com ou sem cinto, capacete etc.” Entretanto, o sargento confessa que a cada chamado existe aquela tensão presente desde os primeiros dias no quartel. “A tensão bate, mas faz parte da rotina. E ela diminui ao longo dos anos na profissão”, garante o oficial.

Com mais de 30 anos na corporação ele diz que a ocorrência mais complicada para o trabalho dos bombeiros são os incêndios em apartamentos. “O acesso é difícil e o apartamento se torna um labirinto para nós. É um lugar desconhecido, não sabemos o que há lá dentro. Além disso, a visibilidade lá dentro fica comprometida e, apesar de um apartamento só estar em chamas, todo o prédio fica comprometido. Então precisamos nos preocupar com todos os outros moradores.”. Além disso, ele conta entre risos as ocorrências menos corriqueiras que ele cobriu durante esse tempo: “Já socorri um homem que foi mordido por uma capivara no joelho, já socorri uma mulher que havia sentado num escorpião, já capturei uma cobra que estava dentro de uma mala de viagem de uma família”, relata divertidamente o oficial.

A conversa foi para um tom mais sisudo quando o sargento Jadiel contou sobre a experiência de perder colegas de trabalho em ocorrências. “É difícil. Éramos amigos dentro e fora do quartel. Perdi dois em um mesmo incêndio, em 2001, na Nestlé. E perdi um amigo lá de São José dos Campos que ao tentar resgatar um homem que havia caído no poço, caiu lá dentro.” Os bombeiros têm acompanhamento com policiais militares formados em Psicologia para ajudar na superação de possíveis traumas vividos na profissão. Porém, esse acompanhamento não é obrigatório, nem rotineiro. Os oficiais devem requisitá-lo ou serem mandados pelos comandantes.

Conforme a conversa com um dos mais experientes oficiais da sede do Corpo de Bombeiros da Lapa foi chegando ao fim, era perceptível no rosto do sargento Jadiel um tímido sorriso. Prestes a se aposentar, ele conta com orgulho – mesmo que escondido por uma extrema humildade – de suas importantes ações dentro da corporação, ou melhor, dentro da família Corpo de Bombeiros, que além de ser composta por corajosos profissionais, é também formada por verdadeiros amigos que, literalmente em qualquer situação, fazem de tudo para salvar a vida dos outros e de uns dos outros.

A sirene tocou e mais uma viatura saiu para o trabalho.

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