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Por Rosa Donnangelo

As feiras livres permanecem vivas na capital paulistana. (Foto: Divulgação)

Pode até ser que as feiras livres perderam público para os sacolões e supermercados, mas em decorrência da sua história e da tradição que as cerca, a chance de acabarem é remota. Apesar de já existirem dados que comprovem a existência de feiras na região metropolitana desde o século XVII, a primeira feira livre oficial ocorreu no Largo General Osório, com 26 feirantes. Depois disso, o número de feiras só aumentou  e a necessidade de leis e regras que permitissem melhor relação da prefeitura com os feirantes e, por consequência, com os fregueses, foi determinante para que houvesse esse tipo de comércio, hoje tão influente.

Seja por cultura ou por pura necessidade, os adeptos da feira não a deixam para trás. Pastel, caldo de cana, frutas e legumes. Tudo muito fresco, a maioria dos produtos com uma qualidade alta, que o mercado não consegue oferecer por falta de tempo e de logística de distribuição. Talvez aí esteja o segredo de tanto sucesso. Dona Beatriz, 66, e feirante há quarenta e sete anos, acha que a feira decaiu um pouco, mas de qualquer forma, ainda possui os produtos mais frescos. Contou ao Protottipo que a feira tem o produto bom para as classes mais altas e o médio para a população que não tem tanta condição assim e acrescentou: “A feira deu uma decaída, antes a mulher e o marido vinham à feira, compravam juntos. Hoje, as coisas são diferentes, as pessoas trabalham muito e quem vem pra feira é a empregada, então ela acaba optando por ir ao sacolão, ao mercado, por ser mais prático. Antigamente era a família na feira. Por isso que eu gosto da feira de domingo, é marido e mulher juntos pra comprar”, explica.

Se antes as feiras possuíam apenas frutas, verduras e peixes, as de hoje se modernizaram: as barracas variam seus produtos, desde os de limpeza e apetrechos domésticos até flores, panos de prato, bijuterias e DVDs. E essa modernização trouxe outros tipos de fregueses para o comércio e as donas de casa não são mais a maioria. O senhor mecânico vai, a criança comparece mais, a senhora que gosta de assistir a filmes vai compra-los na barraquinha e assim por diante. A feira não para, atende a qualquer tipo de público.

Não se pode deixar de lado o fato de os feirantes terem uma espécie de ‘contrato’ com a Prefeitura, a começar pelo imposto pago pelo tamanho da barraca: uma barraca de quatro metros paga, em média, 120 reais por mês. Existe também, sempre muito polêmica, a lei de início e encerramento das feiras. De acordo com o Decreto nº 51.199, de 22 de Janeiro de 2010, as feiras devem começar as 7:30h e os feirantes tem o dever de finalizar os trabalhos as 12h30min. Sendo que, a partir do horário estabelecido para o encerramento, começa-se a recolher todas as cargas e lixo e os caminhões e pessoas devem deixar o local até, no máximo, 14h00min. Porém, de acordo com os proprietários das casas que próximas ou de frente para as feiras, não é bem isso que acontece.  Os donos das barracas chegam de madrugada para montá-las e acabam por fazer barulho excessivo. Depois vem a questão da gritaria, daquela agitação para vender, o que também ultrapassa a lei do silêncio. Portanto, essas leis colocam os feirantes e os compradores como opostos, sendo que, de uma forma ou de outra, uns dependem dos outros, tanto na colaboração, como no próprio comércio.

É o que acontece com Nilva, 68, que há 20 anos compra produtos na feira, que já acontece há mais de quarenta anos, na Rua Ministro de Godoi, em Perdizes. Diz que prefere a feira ao mercado pela qualidade dos produtos. Mas, quando questionada sobre as dificuldades que uma feira traz para os moradores da rua e para os pedestres ela não nega: “Atrapalha sim, a liberdade de entrar e sair dos carros é diminuída, tem o mau cheiro que fica, mas não tem como.” Nilva acrescentou que nem os preços interferem, ela continua a preferir a feira: “às vezes, a feira é até mais barata, e mesmo que não fosse, os produtos são melhores, de mais qualidade, vale a pena”, garante.

Por mais que haja polêmicas, as feiras continuam a ser um tipo de comércio bastante procurado pelos consumidores. A qualidade dos produtos não deixa a desejar. (Foto: Divulgação/Prefeitura)

Dona Rosa, 56, não divide a mesma opinião de Nilva. Pelo contrário, Rosa não enxerga as feiras como algo realmente necessário, ela diz que “mais atrapalha que ajuda”. Rosa é proprietária de um salão de beleza, que é sua casa também,  na Rua Ministro de Godoi, e, as terças, dia de feira, o salão sofre e Rosa se sente privada de algumas coisas. A senhora relatou ao Protottipo que a feira atrapalha muito: “Eles não respeitam o horário, fazem muito barulho e atrapalham tudo aqui em casa”. A cabelereira contou que acaba comprando algumas coisas na feira sim, mas foi sincera: “Eu preferiria que não tivesse mais feira livre. Olha só, meu marido tem que tirar o carro antes em dia de feira porque quando chega três horas da manhã, os feirantes chegam e se meu marido tiver que sair com o carro, não dá, ele fica ‘preso’ (…) Hoje tem um monte de sacolão bom, a maioria das minhas clientes compra só em sacolão, não tem mais esse negócio de feira. Até os supermercados colocam o dia de feira”, lamenta.

Ainda longe de ser um tema de consenso entre feirantes, moradores e poder público, a feira-livre resiste às pressões dos hipermercados. Os feirantes ainda garantem o sustento com a venda de seus produtos nas ruas e dona Beatriz não concorda com o horário de encerramento das feiras: “É muito complicado, é muito pouco espaço! “Meio dia é a hora que nós temos para abaixar os preços, é o horário que o pessoal tá chegando à feira ainda”, reclama.

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