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Por Mariel Rechulski

É muito difícil lidar com uma perda, sobretudo quando se trata de alguém próximo. Não é possível comparar o sentido e o sentimento da dor nestes momentos. Esse também é o dilema diário dos que lidam com a morte trabalhando em Unidades de Terapia Intensiva de hospitais, lugares destinados ao acolhimento de pacientes em estado grave com chances de sobrevida. Os chamados intensivistas têm de confortar os parentes, lidar com imprevistos e principalmente, com o fato de muitos pacientes estarem excessivamente debilitados.

A UTI já foi uma sentença de morte quase certa. Os antigamente tão temidos corredores brancos da UTI hoje significam, acima de tudo, uma segunda chance à vida da pessoa. Sabe-se atualmente que esta especialidade da medicina é uma das grandes responsáveis pelo aumento da expectativa de vida do brasileiro. A médica Ana Maria Borges trabalha há dezenove anos como intensivista e explica que o funcionário precisa de um equilíbrio emocional muito grande, pois na UTI acontece uma emergência atrás da outra. “No começo, claro que me afetei vendo casos extremos, mas com o tempo você se acostuma. Quando você escolhe fazer medicina, já sabe que vai ter que passar por isso e muito mais”, adverte.

Qualquer situação que coloque em risco a vida ou o comprometimento de um ou mais sistemas orgânicos exige a transferência do paciente para uma UTI. Lá são aplicadas técnicas de suporte avançado como analgesia, sedação, antibióticos de última geração, além de assistência respiratória e monitoração feita por profissionais especializados e presentes em tempo integral. A preocupação em salvar vidas, utilizando recursos específicos, é cada vez maior e o número de UTIs vem crescendo significativamente no mundo todo. No Brasil existem cerca de 1500 UTIs, e em grandes centros essas unidades representam 25% dos leitos de hospitais.

Com o tempo foram surgindo profissionais de outras especialidades que praticam os cuidados intensivos. Hoje em dia, além dos médicos e enfermeiros, a equipe de funcionários em uma UTI conta também com psicólogos, fonoaudiólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, assistentes sociais, entre outros. Atualmente, as UTIs mais sofisticadas contam até com cabeleireiros e manicures para cuidar das pessoas. No Hospital Albert Einstein, por exemplo, há um serviço de hospitalidade que, de acordo com a solicitação do paciente e familiares, indica pessoas para fazerem o cabelo, unha e até maquiagem das mulheres, e barba dos homens. Também é possível chamar profissionais de confiança para os quartos e leitos que não tenham relação de trabalho com os próprios hospitais,como Dona Neide. Ela cuida da unha e cabelo de pacientes internadas, mesmo não tendo convênio com nenhum dos hospitais em que atua, e conta “eu tenho uma amiga, a Paula, que é enfermeira, e quando trabalhava, percebeu que muitas pacientes reclamavam da aparência, diziam estarem desarrumadas, não se sentirem à vontade pra receber visitas, e eu, como estava desempregada, tive essa ideia e pedi que ela perguntasse se queriam que eu fosse lá. Algumas aceitaram, e assim eu acabei ganhando a confiança delas, comecei a ser indicada de boca-em-boca e a trabalhar em vários deles.” Acabou dando certo. Hoje, há mais de cinco anos no ramo, dona Neide atende em hospitais particulares e está satisfeita. “gosto do que faço, além de poder me aproximar e criar um vínculo com muitas das clientes que estão internadas, também sinto que estou ajudando a autoestima dessas mulheres e fazendo com que se sintam melhores consigo mesmas”.

Prevenção

A concentração de aparelhos de última geração tornou a UTI um espaço onde a vida vale muito. São os “santuários” mais caros dos serviços hospitalares. Isso fez com que deixasse de ser só a última opção e assumisse também um caráter preventivo. “A prevenção passou a ser prioridade da medicina intensiva. A UTI não é, e não pode ser, a última alternativa. Muitas vezes, é nela que o paciente será monitorado mesmo que seu quadro não seja tão grave.”, diz Ana.

Porém, apesar de os hospitais estarem obtendo notáveis avanços nas regiões mais desenvolvidas, o censo feito pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB, que cruzou as informações de número de habitantes por leitos disponíveis constatou que 14 Estados brasileiros (53,8% do total) estão com médias abaixo do preconizado que é de 1 leito de UTI por 10 mil habitantes. Estados como Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Paraíba, Alagoas, Piauí, Sergipe, Rondônia, Tocantins, Acre, Amapá e Roraima figuram entre os mais defasados, o que implica, muitas vezes, que os pacientes precisem viajar quilômetros para ter acesso aos cuidados intensivos.

Ampliar as UTIs nacionais para todos os Estados e continuar investindo em tecnologia para obter hospitais de qualidade são passos necessários que ainda precisam ser dados.

Lidando com os parentes

Quando questionada sobre a parte mais difícil do trabalho, Ana Maria responde: “sem dúvida pra mim, o pior é contar para um pai, mãe ou parente em geral que o estado de saúde do paciente não é bom”. Mesmo que não enfrente risco iminente de morte, amigos e familiares da pessoa na UTI dividem os sentimentos de tensão e nó na garganta. É muito importante tanto para o paciente como para a família compreender a Unidade de Terapia Intensiva como etapa fundamental para a superação da doença.

“C” tem 28 anos, e sua tia está internada há dois no leito de atenção permanente do Hospital Nove de Julho, e domingo, na sala de espera no hospital, que ele frequenta todos os finais de semana desde então,  conta: “é uma situação muito delicada, depois que teve o derrame achamos que ela iria se recuperar e voltar pra casa, mas ela foi piorando, e depois sofreu mais um AVC, e não voltou mais”. A tia de “C” entrou em um coma irreversível, causado por lesões encefálicas irrecuperáveis. Seus movimentos voluntários e o funcionamento automático do corpo foram danificados, e agora ela sobrevive sem consciência e com a ajuda de respiradores artificiais. “A parte mais difícil é que ela está viva, mas não presente, não podemos ouvir a voz dela, mas sabemos que ela continua respirando. Depois de dois anos, já estamos mais acostumados, virou uma rotina vir aqui visitá-la nos finais de semana. Claro que ainda dói muito, mas menos que no começo”.

Ainda hoje, segundo levantamento da Amib, de cada 10 pacientes que entram na UTI, nove saem com vida. Há 40 anos, a mortalidade era de 30% – três vezes maior. “Só neste último mês, atendi cinco pacientes que tenho certeza de que não sobreviveriam não fossem os métodos e os equipamentos que utilizamos na terapia intensiva”, diz Ana. É necessário o apoio dos parentes, a força de vontade da pessoa e a competência de profissionais qualificados, mas conforme os anos passam, a Unidade de Terapia Intensiva vem mostrando uma nova face, a de recuperação e apoio.

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