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Por Clara Badaró e Mariana Luísa

“Porque o fascínio e o horror que ela exerce são imorredouros. Mais que decorar o corpo, a tatuagem decora o cérebro, a imaginação e, se é o seu caso, o espírito. O resto é com você: senso de pertencimento, vontade de chamar atenção, celebração secreta da intimidade, medalha autoconcedida – qualquer motivo é bom. Diz-se que tatuagem é para sempre. O que não é verdade. Da perspectiva histórica, é. Da individual, não é. Uma parte de nós não a deixa morrer, mas ela sempre morre conosco.”  Toni Marques (jornalista e autor do livro O Brasil e Outros Mundos Tatuados)

Vive-se em uma época na qual a primeira impressão realmente permanece. O “culto” ao corpo tem como consequência a disposição para moldá-lo através de dietas, academia e cirurgia plástica. Além desse segmento para obter um resultado aceito pela sociedade, também há outro no qual as pessoas o “recriam”, tornando-o um suporte da arte. É o caso das pessoas que usam vários recursos, como piercing, preenchimento corporal, escarificação e tatuagem, para se mostrar de uma forma diferente  para o outro. Considerado por muitos um recurso apenas estético, por outros uma “aberração”, essas expressões corporais estão sendo cada vez mais frequentes pelas ruas.

Essas expressões, muito ao contrário do que se pensa hoje em dia, não são uma revolução moderna. Já na Era Neandertal, 700.000 a.C, existiam históricos de cultos nos quais se desenhavam nos corpos dos mortos. Quase 600.000 anos depois, foi encontrado na Itália Ötzi – o Homem do Gelo – considerado o pai de todos os tatuados. Em seu corpo existiam linhas paralelas ao longo da coluna, uma cruz embaixo do joelho esquerdo e faixas no tornozelo. A partir de Ötzi, segue-se o que continua sendo um apagão na história europeia, até os gregos e os romanos da antiguidade, os quais deixaram registros por escrito do costume. Na Grécia clássica, por exemplo, os escravos eram tatuados com o nome de seu Senhor ou com mensagens em suas cabeças para servirem de mensageiros quando o cabelo crescesse. Durante o período ocidental de escravidão negra, muitos países adotaram essa prática da tatuagem, ou “stigmatas” como eram chamados, e marcaram seus escravos a ferro quente com as iniciais de seu proprietário para identificação em casos de fuga, e com outras marcas no caso de eventuais “delitos”.Em 1769 d.C, James Cook, explorador, navegador e cartógrafo inglês, fez a primeira referência a palavra tatuagem. Após viagem aos Mares do Sul, apresentou a Europa a expressão tattow (ou tatau) ao conhecer as tribos tatuadas. O nome origina-se da onomatopeia do ato de tatuar.

Chefe da tribo Maori à esquerda; James Cook à direita

Com o tempo, essas marcas foram usadas já como forma de preconceito. A discriminação sexual, por exemplo, foi marcada a ferro quente durante o reinado de Luís XIV (1651), no qual se imprimia com essa técnica uma flor-de-lis no peito da prostituta. Durante a Primeira Guerra Mundial, os desertores ingleses foram marcados com a letra D. Além das incontáveis tatuagens carcerárias, acentuava-se as matrículas dos campos de concentração nazistas. Código numérico antecedido de letra, ou pequenas figuras geométricas, tatuado no antebraço esquerdo, contava e classificava, logo na entrada, toda população de judeus, ciganos, homossexuais e prisioneiros políticos que ali chegavam. Por exemplo, o psiquiatra Moraes Mello, já no começo dos anos 20, trabalhando na Casa de Detenção, no Carandiru, São Paulo, SP, registrou e classificou mais de três mil diferentes marcas tatuadas entre os detentos daquele estabelecimento. Essas marcas, algumas vezes voluntárias, outras impostas, registravam lideranças ou estigmatizações e serviam como um verdadeiro código social entre os detentos.

Se o prisioneiro tivesse marcas pontilhadas no dorso da mão, significava que ele pertencia a uma determinada quadrilha. Caso esses pontos fossem entre o polegar e o dedo indicador, o sentido era outro: um ponto para o batedor de carteira, dois para o estuprador, três para o traficante e quatro ou cinco para os assaltantes. A imagem de um coração com a frase “amor de mãe” revelava uma homossexualidade passiva. Na França, cinco pontos indicavam “só entre quatro paredes”, ou seja, quando seu portador é um detento antigo.

Em 1900, Nova York tornou-se a capital mundial da tatuagem por surgir as primeiras lojas nas quais frequentavam os marinheiros. Cinquenta anos depois, nasce fábrica de equipamentos para tatuagem, Spauling&Rogers, nos Estados Unidos. O Tattoo You, primeiro estúdio de tatuagens de São Paulo, foi criado em 1979 por Marco Leoni, um tatuador italiano que chegou ao Brasil para divulgar seu trabalho artístico.

Estúdio Tatto You em 2012, agora no bairro do Itaim

A tatuadora do estúdio Melissa Khouri apresentou seu portfólio, com intermédio de Camila Rocha, para a tatuadora Kate Von D, protagonistas dos reality’s shows Miami e L.A. Ink, e em 2011 passou uma temporada em seu Studio- High Voltage, em Los Angels.

Sendo descoberta acidentalmente pelos pintores das cavernas quando notaram que o pigmento que tinha caído numa ferida aberta nela fincou, ou por um intelectual particularmente curioso que viu na pele uma oportunidade de propaganda, a tatuagem permaneceu na curiosidade das pessoas.

Júlia Achôa, 18, foi ao estúdio um dia antes de completar sua maioridade. O artista que iria tatuá-la, disse que não poderia realizar a arte, pois ela ainda não tinha completado 18 anos, “tenho um amigo que já teve problemas com isso, fiquei com um pé atrás, e não tatuo” afirmou. Júlia não ficou sem a tatuagem, outra artista disse que faria. De acordo com a Lei Estadual de São Paulo, o Artigo 14º  é proibida a aplicação de piercings, de tatuagens e de maquilhagem permanente a não emancipados e a menores de 18 anos.

Júlia Achôa, estudante de Economia

Eric Magalhães Costa, 18, estudante de publicidade, diz que começou a ter vontade de fazer uma tatuagem aos 15 anos, porém sua mãe não autorizava. Aos 17, Eric a levou para conhecer um estúdio e ali ela perdeu um pouco do preconceito, certificando-se de que era bem cuidado, com materiais esterilizados e o acompanhou na sua primeira tatto, um dragão oriental nas costas. “Significa sabedoria, força, poder, proteção e riqueza”, conta.

Eric Costa, estudante de Publicidade e Propaganda

O estudante também tem piercings desde os 16 anos, um no tragus (orelha) e outro no nariz. Diz que fez totalmente por estética, não tendo nenhum significado, assim como os alargadores que ele tem. Eric fez recentemente sua segunda tatuagem: “É uma caveira com um par de baquetas enfincadas no crânio e rosas ao redor dela, na panturrilha da perna direita. Ela tem um significado muito importante para mim, pois toco bateria há 10 anos. É uma das coisas que eu mais amo e com certeza continuarei tocando até o resto da minha vida, por isso a caveira e rosas, que significam eternidade, até o fim”.

Eric diz já ter sofrido preconceito por suas tatuagens: “Uma vez no metrô uma senhora me parou e perguntou se eu não tinha vergonha de sair todo “pintado” na rua. Ela estava se referindo a minha tatuagem na panturrilha. Outros já me perguntaram por que eu tinha um “pedaço de ferro” no nariz. Mas esse tipo de atitude ocorre raramente, é a minoria”. Acredita que a sociedade passou aceitar com mais facilidade esse tipo de imagem. “No futuro será normal ver velhinhos tatuados”, finaliza.

Um dos locais mais frequentado por essas “tribos” é a Galeria do Rock, localizada próxima a estação República, centro de São Paulo. Allan, tatuador do estúdio “Glaucio Tattoo”, primeira rede de estúdios do Brasil, ao ser questionado sobre o preconceito que sua imagem pode trazer, ele diz brincando: “É claro que existe, ninguém gosta!” – risos. Entretanto, ele afirma que já foi pior, em sua opinião, essa imagem de “aberração” que muitos têm de pessoas tatuadas diminuiu bastante e que a tendência é futuramente não existir mais esse preconceito.

Galeria Do Rock

Atualmente, está ocorrendo na Galeria Olido, próxima a Galeria do Rock, uma exposição chamada: “Na Pele – grupos que se comunicam e se identificam pela tatuagem”. O evento aborda a história, os desenhos e as técnicas, assim como o comportamento em torno da tatuagem no Brasil, por meio de exposição, documentário e debates. Jaqueline, produtora da Galeria Olido, diz que foi procurada por Ricardo Vidal, da Feel Filmes e Produções, para a locação da Galeria. A exposição, que acontece do dia 15 de agosto até o dia 14 de dezembro, tem obtido índice de visita acima do esperado. Fátima, recepcionista do local, conta que a maior parte do público é tatuado e incentiva essa “tribo”.

“Eu não fiz jovem não. Eu fiz faz uns sete anos a minha primeira tatuagem. Já não tava brotinho mais. Mas aí eu acho legal porque tem a maturidade, tem como escolher certo, pra não ficar uma coisa que depois você queira tirar.” Maria Teresa Oliveira Alegretti, advogada.

“É que eu gosto de ser diferente. Lá onde eu moro, todo mundo imita o outro. Aí aparece uns caras com os mesmos piercings que os meus, as mesmas roupas. Aí eu falei: ah, vou meter umas tattos no rosto para ninguém me copiar.” Alan Rodrigues, tatuador.

“A primeira tatuagem eu fiz dos 17 para os 18 anos e eu estava bem numa fase complicada da minha vida. E aí eu decidi que eu ia tatuar sempre que tivesse que pontuar.” Daphine Grimaud, psicóloga.

“Eu acho que em relação a tatuagem, todo mundo coloca alguma teoria de marca da minha vida e não sei o que… É tudo papo furado! É estética, é pura vaidade!” Checo Gonzálo, cozinheiro.

 

2 pensamentos em “À Flor da Pele

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