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Por Julia Teixeira

Ir à padaria todos os dias, nem que seja só para comprar um simples pão quentinho, faz parte da cultura paulistana. Os motivos dessa “visita” podem ser muitos e o hábito tem produzido desde simples até sofisticados locais para um bom café da manhã. Segundo o site da ABIP (Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria), ainda que desatualizado desde 2009, funcionam, só no estado de São Paulo, 12.764 padarias, tornando São Paulo o estado que mais concentra locais desse ramo no país. Um dado interessante, ainda desta associação, e que ilustra o alto e forte público das padarias no Brasil inteiro é que, em nosso País, são consumidos per cápita 33,5 quilos de pão por ano, atrás do Chile (que consome 93 quilos), Argentina e Uruguai mas na frente do Peru e do Paraguai (23 quilos). Além disso, 86% dos pães consumidos pelos brasileiros são artesanais..

Entretanto, um questionamento muito importante e que raramente vem à cabeça das pessoas é o porquê desse ato ter virado um costume tradicional paulista. Tanto os dados acima como certos elementos históricos podem ser utilizados como auxílio na elaboração de uma resposta, extrapolando, muitas vezes, até o âmbito nacional. É interessante percebermos também que nem sempre as padarias foram como conhecemos hoje, com wifi, happy hour e quase como um “mini supermercado”.

A história

No ano de 2002, arqueólogos descobriram no Egito vestígios da padaria mais antiga do mundo. Nela, era produzido o chamado “pão de sol”, um tipo de pão típico do denominado Alto Egito (faixa de terra entre o atual Assuão e o atual Cairo) que não leva fermento e cresce quando exposto ao sol, ainda hoje fabricado na região. No local onde estes primeiros restos foram achados se encontrou também vários utensílios de cozinha, como uma espécie de forno e várias bandejas. Os egípcios, inclusive, são uma parte muito importante na história das padarias, afinal foram eles que cultivaram o levedo que fermenta a massa do pão e a faz crescer.

Ruínas da primeira padaria no Egito, encontradas no ano de 2002.

Já no século II (mais especificamente no ano 140 a.C), ocorreu um marco essencial nessa história: foi criado, em Roma, um primeiro modelo de uma padaria. Até este momento, nunca havia se tido um local específico para a fabricação do pão. Por conta da queda do Império Romano, por volta de 470 a.C, esses lugares tiveram uma curta fase de decadência, ascendendo novamente no período medieval (em torno do século XII), passando a ganhar o mundo.

No Brasil, este tipo de ambiente começou a ser instalado em 1835, com a construção do primeiro comércio de pães feitos com trigo no Rio de Janeiro, a então capital do Brasil. Por conta da crescente procura e interesse neste ramo, os instrumentos utilizados tiveram que ser aprimorados, como o forno (que se tornou elétrico). Esta “modernização das padarias” ocorre por volta do ano de 1915, iniciando o que hoje conhecemos como ambiente da venda do pão.

Por que o Brasil?

Com toda essa trajetória, as pessoas podem se perguntar o motivo pelo qual a população brasileira especificamente se tornou assídua frequentadora das padarias. A elaboração dessa resposta pode ser iniciada ao serem relembrados certos momentos da história brasileira. Um dos mais importantes é o período em que nosso país teve uma forte influência francesa. Esta se deu em diversos âmbitos, desde o cultural até o alimentar (essencial nesta discussão). Nesse último, o hábito dos intelectuais franceses de frequentar cafés e bares como fonte de inspiração foi importado e, obviamente, adaptado para nossa realidade. Os empórios (um desdobramento mais sofisticado e abrangente das padarias) também começaram a ganhar força nesse período, como uma forma de atrair de forma mais ampla a sociedade brasileira.

A entrada destes costumes franceses no Brasil se tornou mais perceptível na cidade de São Paulo na virada do século XIX para o XX. O fenômeno da urbanização com a chegada dos imigrantes e a consequente atmosfera de desenvolvimento ajudaram o desenvolvimento deste hábito. Até os dias de hoje os paulistas são considerados a população que mais frequenta este tipo de ambiente no País.

Para Ana Carolina Mirandez, responsável pela área de comunicação e marketing da tradicional padaria paulista Dona Deôla, não se pode dizer exatamente como este interesse se iniciou, mas se pode ter certeza que a relação entre os habitantes de São Paulo e as padarias passou por uma grande evolução. Segundo ela, as padarias eram, até algum tempo atrás, o local onde se comprava o pão, o leite e os frios de todo dia ou no máximo se tomava um “café da manhã”, composto por um pão na chapa e um café expresso. Atualmente, além de oferecerem todos os itens de padaria, esses estabelecimentos vendem também alguns dos outros itens culinários cotidianos, denominados neste caso de “itens de conveniência”. “Hoje o paulistano toma café da manhã, almoça e janta na padaria, o que faz o interesse aumentar cada vez mais.”, diz Ana. Na opinião dela, essa rotina de comer em padarias não é algo temporário, variando somente quanto aos segmentos adeptos a este “vício”. “A famosa ‘padoca’ dos paulistanos nunca sairá de moda, pois já faz parte do dia a dia de todos nós” fala Ana Carolina.

Visão de cima de uma das filiais da padaria Dona Deôla.

Futuro

É inegável que os paulistas não conseguem ter um cotidiano normal sem as padarias. Esse hábito é mais antigo do que se pensa (ou se pensava) e se originou nas partes mais remotas do globo. Do antigo Egito até chegar ao Brasil, passando claramente pelo Império Romano e pela França (entre outros países), esse costume, conforme foi passando de geração em geração, de sociedade para sociedade, foi se intensificando cada vez mais. A influência francesa foi tanta no País que até isso se perpetuou, tornando mais especificamente os paulistanos quase que dependentes do “Pão nosso de cada dia”.

Um pensamento em “Pão nosso de cada dia

  1. Excelente matéria que nos faz aprender e compartilhar da delícia de comer o pão nosso de cada dia . Parabéns!

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