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Por Juliana do Prado e Rosa Donnangelo

É na vida noturna que o jovem busca na bebida, uma fórmula para esconder a inibição, para então buscar a “diversão” (Foto: Reprodução).

Em meio a uma sociedade em que o consumo de bens é incentivado, o jovem é receptor de uma “enxurrada” de comerciais publicitários, que visam o mercado consumidor de novidades do setor alimentício, eletrônico e principalmente o de bebidas alcoólicas, que é um fator preocupante para essa nova juventude. Mas o problema essencial do jovem é que cada vez mais ele consome álcool em níveis inaceitáveis para a saúde.  Muitos estudiosos, pais e até filhos tentam entender a razão deste problema que está preocupando e abalando laços familiares. Fato que, em tempos atrás, o alcoolismo – um dos problemas apresentados- era tratado como um assunto para “adultos”, e hoje é possível presenciar em faixas etárias menores.

Estatísticas

Em pesquisas realizadas pelo Organização das Nações Unidas (ONU), foi constatado que o Brasil, comparado com os países da América Latina, aparece em terceiro lugar no consumo de álcool entre os adolescentes. Dentre os 347.771 estudantes de 14 á 17 anos entrevistados, 48% deles admitiram consumir a bebida etílica. No ano de 2009, a pedido da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, foi realizado uma coleta de dados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no qual demonstrou que, 554 mil jovens brasileiros estão com problemas sociais e de saúde decorrentes do uso do álcool.

Já em outro dado divulgado pelo Cratod (Centro de Referência em Tratamento de Álcool, Tabaco e Outras Drogas de São Paulo) em 2011, foi investigado que para os 40% dos jovens pacientes que foram diagnosticados com o alcoolismo, o primeiro contato com a bebida ocorreu antes dos 11 anos de idade. E isto, foi devido a influência de exemplos domésticos, como os familiares.

Perfil

A juventude de hoje convive com a liberdade, seja de expressão, cultural ou comportamental, mas mesmo assim, muitos buscam a auto-afirmação e o desejo de demonstrar para as outras pessoas a “felicidade”. Porém, essa felicidade é marcada internamente pelo vazio de relações familiares, traumas sofridos na infância e pré- adolescência e incertezas que rondam essa fase,  e na maioria das vezes, quando chegam na adolescência, o primeiro passo para extravasar esses sentimentos é na “balada” (casa noturna), em que na maioria das vezes é lá que são apresentados formalmente a bebida.

Festas em universidade estimulam o consumo de bebidas alcoólicas, principalmente quando vendem combos convites para festas + bebidas, á vontade a preços acessíveis.(Foto: Reprodução).

O que pode ser vivenciado nesses locais é a competição e ansiedade do jovem pela bebida, já que em muitas vezes não degustam e não aguçam o paladar que o álcool proporciona,e sim bebem pelo simples ato de ingerir, tudo em busca da curtição e divertimento. Porém, péssimos exemplos de consumo podem ser encontrados por muitos, dentro do próprio ambiente de convivência, como nos inocentes almoços ou festas típicas culturais. Mas em diversos casos, muitos se sentem intimidados pelo simples fato de estarem em um ambiente de conhecidos, e na transição de uma nova fase de vida, como a entrada em uma universidade, são abertas as portas para a desinibição de uma timidez existente ou usa-se como pretexto a desculpa para ser aceito em novos grupos de amizades, e assim, nos famosos trotes ou jogos universitários é apresentado a este ambiente.

Este é um perfil totalmente destoante, comparado com os tempos dos “Anos de Chumbo” – ditadura militar brasileira ocorrida no período de 1964 á 1985 – em que as lutas e objetivos eram voltados para o coletivo e não para a ascensão individual, em que não há um interesse por uma perspectiva de mudança de situações vivenciadas atualmente. De fato, há uma inversão de valores, que vai muito além da questão do comportamento em relação ao álcool. Isto, de uma forma sucinta, é o que pode trilhar possivelmente este novo perfil, que preocupa os veteranos em relação ao futuro.

Para Paraty, como é conhecido há 14 anos pelos seus clientes, vendendo bebidas alcoólicas há 14 anos em frente á PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e ao longo desses anos presenciou a mudança no perfil do jovem, que é preocupante e envolve problemas pessoais que se acentuam quando chegam a universidade, se deparam com o mundo da bebida: “De uns cinco anos pra cá, os jovens tem adotado a bebida como a primeira droga. Quando entram na faculdade com 17,18 anos, a primeira coisa é o trote. Ele chega e se embebeda. Essa é primeira relação da faculdade com a bebida”, afirma.

Para ele, a essência do problema é o limite que não é imposto pelos pais, além da lacuna das relações familiares e em várias situações já presenciou exageros, em que ele precisou realizar intervenções para socorrer  os clientes: “A maioria dos jovens que fazem faculdade, principalmente na PUC-SP, eles já vem com um problema: eles não têm limite. Eles são “crianças” que estão saindo da adolescência, mas que na maioria das vezes são cuidados pelas babás, em que os pais não são presentes,então já vem pra cá, sem limites. A nossa relação com esses adolescentes é mostrar para eles que na vida você precisa respeitar um limite. Pelo menos aqui no meu bar, eu imponho limites. Como dono de bar, me sinto promovendo o consumo do álcool. Apesar de ser liberada a venda, é uma droga. Mas acredito que a educação vem de casa, não adianta vir para cá tentando arrumar o mundo com a universidade. Você não vai conseguir”, dispara.

Ponto de vista

Dois jovens, que possuem a mesma classe social e idade, foram entrevistados pelo Protottipo. Um deles bebe e o outro não. Diante da entrevista, é possível perceber até que ponto o jovem tem conhecimento dos malefícios das doses exageradas de álcool e por qual caminho preferem seguir, seja para agradar aos amigos, para esquecer os problemas ou por não gostar de beber. Fica claro que a educação familiar é de extrema importância para a construção de valores e até mesmo de barreiras, que podem impedir que os jovens deem preferência ou não para caminhos que os levem ao álcool.

J.C.,19, que não quis se identificar, contou que começou a beber quando fazia cursinho e que o gosto pela bebida surgiu naturalmente. Não discorda de que o álcool traz problemas, mas o julga essencial, em seu caso particularmente, para conviver no meio social de forma mais leviana: “Então, eu acho que o prazer nesse caso não é o gosto, mas sim a sensação que o álcool proporciona, entende? Acho que o jovem bebe para se “soltar”, para fazer coisas que ele seria tímido demais para fazer sóbrio”, confessa.

Já Bruna Santos, 19, vê o álcool com algo não vital e diz não se sentir deslocada por não beber, mesmo quando a maioria das pessoas com quem convive é adepto da bebida: “Me sinto bem e sempre saio porque hoje todas as pessoas da minha idade bebem, não tem como eu me sentir deslocada, é um costume ver as pessoas bebendo, e eu não gosto, mas eu não tenho o pensamento de que ‘não vou sair com essas pessoas porque eles bebem’, eu deixo beber, não ligo, é uma escolha de cada um”, conta.

Problemas

Os problemas cotidianos que assombram os jovens que mantém esta relação intimista com a bebida, são os trágicos acidentes automobilísticos, a violência sexual, o comprometimento do desenvolvimento emocional, mental que podem levar até ao suicídio. Além disso, há o surgimento de problemas biológicos que estão interligados pela utilização do uso precoce do álcool, como, a intoxicação, que pode levar ao coma alcoólico, cardiopatias, acidentes vasculares, hepáticos, gastrite etc. Outro problema preocupante são os “apagões”, que é quando as famosas lembranças da noite anterior, são esquecidas, e isso pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo do jovem. No caso das mulheres, essas manifestações aparecem precocemente.

Em uma fase mais avançada do problema, é quando há a ocorrência do alcoolismo, que atualmente, facilmente é possível encontrar depoimentos de jovens em sites de busca ou até mesmo são freqüentadores de grupos que auxiliam na superação do problema. Para a psicóloga Elza Ferreira da prefeitura de São Paulo (PM DST/AIDS): “É muito comum a fala: ‘Eu não uso droga….só álcool…’. Concordo que o fenômeno droga tem a ver com o meio social, família, indivíduo e não simplesmente a droga em si. E como digo, álcool na maioria das vezes não é considerado droga. Pesquisas nos mostram que além de ser droga, é a mais usada.”

Não há como negar: os jovens de hoje bebem excessivamente e cada vez mais cedo. Segundo pesquisa do Senad (Secretaria Nacional Antidrogas), 22% dos jovens correm risco de desenvolvimento do alcoolismo. O número é alto e a tendência dos jovens de hoje é de aumentar ainda mais essa porcentagem. A quantidade de lugares onde a bebida é liberada e os famosos ‘open bar’ (termo inglês que significa o bar aberto, livre) estimulam o jovem a beber, ainda mais quando se cobra pouco ou nada por isso. As entradas VIPs nos estabelecimentos são um exemplo de como o que realmente passou a ser importante é o consumo do álcool e o dinheiro que se ganha, deixando de lado a preocupação com a saúde da juventude. Festas de faculdades como a “Leônidas”, promovida pela FEA PUC (Faculdade de Economia, , Administração, Contabilidade e Atuária da PUC-SP), são bons exemplos: os estudantes pagam entre R$ 50 e R$ 80 para entrar na festa e a quantidade de consumo de álcool dentro do local é irrestrita.

Tiago, 22, que prefere usar pseudônimo, se encaixa na estatística do Senad. Em entrevista ao Protottipo, delatou o momento em que começou a sua história com a bebida: “Eu comecei a beber com frequência aos meus 16 anos de idade, quando comecei a andar com amigos mais velhos do meu irmão. Na época eu não tinha muitas amizades, como essas saídas envolviam idas a bares e outros locais que serviam bebidas

A bebida em muitos casos, serve para mascarar problemas emocionais que rondam a fase da adolescência. (Foto: Reprodução)

alcoólicas, eu os acompanhava. (…) Quase sempre desrespeitava meu limite, na maioria das vezes era uma questão de se auto afirmar, afinal era o mais novo da turma e queria provar que aguentava o tranco.” Tiago revelou que chegou, como ele mesmo disse, “no fundo do poço”: “Eu sou o que a maioria dos AA (alcoólicos anônimos) chama de cruzado, além da dependência do álcool tenho problemas com outras drogas, no meu caso, cocaína(…). Na época, não me via nem como um dependente químico nem como um alcoólatra, mas a falta de dinheiro para manter meu vício e outros problemas pessoais acabaram por me levar a tomar uma decisão nada interessante que resultou em uma internação numa clínica de psiquiatria e posteriormente em uma de reabilitação.” O jovem teve contato com o AA dentro da clínica e o seguiu posteriormente. Diz-se sobreo há um ano e dez meses. Uma história que se repete cada vez mais, sem esse “final” feliz, para muitos jovens.

Reflexão de ideias

O problema do alcoolismo merece ser tratado como uma questão de saúde pública, já que é um vício como outras substâncias, e para Elza: “Enquanto a sociedade não considerar o álcool como droga e das mais consumidas, teremos dificuldade em lidar com o problema.” Outra questão de suma importância, são as relações de esclarecimentos entre pais e filhos, que necessitam conversar sobre o assunto, rompendo tabus e explicando que acima de tudo, é necessário respeitar os limites do próprio corpo e mente. Já o jovem deve se impor e demonstrar opinião própria sobre o assunto não deixando influenciar pelas atitudes dos “amigos”, finaliza.

 

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