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Por Carolina Piai

Sou paulistana e realmente aprecio a minha cidade, conheço-a de norte a sul, leste a oeste e acho que o espaço público deve ser preservado. O que me despertou a engrossar essa manifestação? Eu estava passando por um dos parques da cidade em um domingo ensolarado muito bonito e vi centenas de cavaletes de candidatos espalhados, o que é ilegal.”, afirmou Adriana Gragnani, que tem cerca de 60 anos, na Cavalete Parade de São Paulo.

A exposição aconteceu durante a tarde do sábado, dia 29 de setembro, no canteiro central da Av. Paulista, e também em outras 20 cidades. São elas: Rio de Janeiro, Porto Alegre, Uberlândia, Curitiba, Recife, Salvador, Campinas, Belo Horizonte, Ponta Grossa, Sorocaba, Cascavel, Londrina, São Luís, Santos, Jundiaí, Pelotas, Cuiabá, João Pessoa, Itatiba e Americana. Sua meta era retirar os cavaletes, que eram de políticos e estavam irregulares, e fazer arte sobre eles, sem utilizar e denegrir a imagem dos candidatos. Antes de os recolherem, os participantes teoricamente fotografaram essa ilegalidade, comprovando-na.

Esse tipo de propaganda política foi regulamentada com a lei nº 12 034, de 29 de setembro de 2009. As normas alteraram a lei nº 9 504, de 30 de setembro de 1997. Encontram-se no artigo 37. Segundo o quinto parágrafo, “Nas árvores e nos jardins localizados em áreas públicas, bem como em muros, cercas e tapumes divisórios, não é permitida a colocação de propaganda eleitoral de qualquer natureza, mesmo que não lhes cause dano.“. Já o sexto, afirma ser “permitida a colocação de cavaletes, bonecos, cartazes, mesas para distribuição de material de campanha e bandeiras ao longo das vias públicas, desde que móveis e que não dificultem o bom andamento do trânsito de pessoas e veículos“. Por fim, o sétimo diz a respeito do período em que essa colocação é permitida: entre às 6h e às 22h.

Adriana explicou como foi quando conheceu o evento: “Esse espaço tinha que ser ocupado pela população de São Paulo. Quando eu vi essa chamada eu falei: ‘nada melhor do que ocupar com arte!’. Isto é uma manifestação de amor à cidade.” Realizou então um dos trabalhos mais diferentes, pois fez um jardim suspenso. Além disso, colocou um bloco de post-it para os visitantes deixarem um recado para a metrópole e pendurou algumas poesias de que gosta para compartilhar com o público. “A minha proposta é mostrar que um cavalete tem mil e uma utilidades!”, disse. Quanto à sua posição política, relatou: “Eu aprovo que se readquira a discussão política. Porque hoje a gente não consegue fazer diferença de candidato algum, a não ser daqueles que colocam mais cavaletes ou que têm mais minutos na rádio. A política é mais nobre que isso. Ela é da pólis, de todos.”.

Cavalete utilizado como jardim suspenso

Foram encontrados na Paulista diversos tipos de manifestação nos cavaletes. Havia aqueles que eram arte plástica sem qualquer indício político, outros tinham frases de protesto e ainda houve aqueles que contavam (minimamente) com ambas características. Todo tipo de expressão apareceu, fazendo com que a avenida ficasse com a atmosfera de Bienal de Artes.

Fernanda Mendes, 18 anos, que foi ao Cavalete Parade apenas para admirá-lo, explicou: “Quis vir pra cá porque gosto muito de intervenções urbanas. A cidade está se movimentando e nós estamos aqui parados e unidos pela arte. Sai um pouco do cotidiano.”. Comentou ainda a importância desse movimento durante o período político em que o Brasil se encontra, que é o de eleições municipais. Esse tema foi, inclusive, abordado no evento.

Acima, cavalete produzido por uma criança que se encontrava na exposição

Outra visitante da exposição, Natalia Miliozi, 19 anos, disse: “Vim aqui porque eu acho que o paulistano precisa ver que tem pessoas que ainda se importam com a cidade. Tem muita gente que olha o cavalete e fala ‘Nossa que horrível! Não devia estar aí’, mas não faz nada.”. Em seguida, acrescentou: “Então vem esse pessoal que faz a arte em cima da sujeira. Isso é demais!”. A arte, por vezes, pareceu até ser de profissionais – o que acabou ainda mais com a sujeita que Natalia mencionou.

N.R., 25 anos, demonstrou outro motivo para comparecer a essa intervenção: “Eu vim por curiosidade.”. Ao explicar que na época de seu pai era muito comum lutar pelos direitos dos cidadão, afirmou que acha que a geração atual perdeu isso: “É um jeito de revolução contemporânea que está faltando nos jovens.”. Também comentou a respeito do cenário político brasileiro: “Tem que ter propaganda eleitoral sim, porque você tem que saber o que o candidato está querendo propor. O problema é o exagero. Os cavaletes sujam a cidade inteira!”. Apesar disso, afirmou que ultimamente a propaganda se baseia mais em briga entre os candidatos do que em propostas efetivas.

Um grupo de jovens chamado “Brasileiro Anônimo”, que se uniu devido ao descontentamento com o contexto político brasileiro, participou dessa manifestação. Assemelhando-se à ideia de Adriana, mostraram o que pode ser feito com cavaletes. Montaram uma cadeira, uma rampa para deficientes físicos e uma casa para cachorro. Usaram também o cavalete do modo convencional, mas colocaram-no sobre um garoto, o que é feito muitas vezes nas propagandas.

A primeira ação do “Brasileiro Anônimo”, entretanto, não foi essa. A atitude foi denominada por eles como “Urna Anônima” e consiste na colocação da representação de uma pequena urna (feita de papel) sobre uma lata de lixo que diz “Dessa vez vote no Brasil, e não no lixo”. Com isso, o grupo teve a intenção de inquietar a população, questionando seu voto. No dia 29 ela apareceu no Masp, próxima ao Cavalete Parade.

Ao fim, os visitantes que quisessem podiam levar os cavaletes e os que não fossem levados deveriam ser recolhidos pelos artistas. Houve ainda quem pegasse apenas a obra, recortando-a da estrutura de madeira. Assim, sobraram poucos pedaços no canteiro central.

Na página do Facebook do evento há a seguinte frase: “Já que os políticos não respeitam o espaço público e o poluem com seus cavaletes, vamos deixar a cidade mais bonita com o Cavalete Parade”. Ela expressa seu objetivo, que, apesar dos restos de madeira que sobraram, foi cumprido. São Paulo certamente ficou mais bonita naquele sábado.

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