Home

Por Juliana Bittencourt e Luisa Jubilut

foto por: Heloisa de Barros

Depois de quinze rápidos minutos de viagem, você se depara com essa maravilhosa vista. É o tempo necessário para que a balsa saia de São Sebastião e chegue na Ilhabela, transportando os turistas e os moradores locais. O município-arquipélago de Ilhabela possui um território de 348,3 km² (IBGE) e suas principais ilhas são, pela ordem em termos de área, a de São Sebastião, a dos Búzios, a da Vitória e a dos Pescadores – todas habitadas .A Ilhabela está localizada no litoral norte de São Paulo. Sua população estimada é de 28.176 mil habitantes. Ela possui todas as características de relevo jovem. A ilha tem 36km de praias, tais como a Praia da Fome, Praia do Pinto, Praia do Sino, Praia da Feiticeira, Praia do Viana, entre tantas outras.

foto por: Heloisa de Barros

foto por: Heloisa de Barros

Historiadores confirmam que pelo menos quatro ilhas do aquipélago já eram habitadas antes dos colonizadores chegarem ao Brasil. Essa descoberta foi possível pois foram encontrados sítios arqueológicos pré-coloniais chamados “concheiros”, “abrigos sob rocha” e “aldeias indígenas”. Esses sítios levaram a conclusão que os primeiros habitantes foram chamados de “homens pescadores-coletores do litoral”, que eram indígenas que não conheciam técnicas de agricultura e nem sabiam produzir cerâmica, vivendo então da natureza, principalmente usando animais marinhos.

foto por: Heloisa de Barros

A economia do arquipélago é baseada no turismo, comércio e construção civil. Em segundo lugar estão a pesca e o artesanato. A fauna é composta por mamíferos como o macaco-prego, a jaguatirica e a paca ainda são vistos, embora muito raramente. O caxinguelê, por outro lado, é bastante comum. Tucano, maritaca, tiê-sangue, macuco, gavião-pega-macaco, apuim-das-costas-amarelas, jacu e jacutinga, entre outros, compõem a avifauna.

Dentro das dezenas de espécimes da flora destacam-se o jequitibá, o jatobá, o guapuruvu, o cedro, o louro-pardo, a bicuiba, a figueira, a canela-moscada, o pau-d’alho, o pau d’arco, os ipês branco, amarelo e roxo encontrados na ilha.

Flora da Ilhabela (Foto por: Edson Persch)

Durante a alta temporada o turismo é o ápice da economia da Ilhabela. A população chega a multiplicar em cinco vezes nessa época. O local é conhecido por suas praias, cachoeiras, trilhas e os mosquitos, chamados borrachudos que são o maior incômodo presente na paisagem maravilhosa. A Ilhabela possui cerca de 360 cachoeiras registradas, mas apenas 30 podem ser aproveitadas para o turismo. A quantidade de hotéis e restaurantes que povoam a ilha é enorme e é muito difícil encontrar lugares vazios durante a temporada.

Cachoeira dos Três Tombos

COMUNIDADE CAIÇARA

O arquipélago abriga cerca de 18 comunidades tradicionais isoladas na Ilha de Vitória, Ilha de Búzios e na própria Ilhabela. Esses povos vivem da pesca, do turismo e do artesanato e mantém as tradições de seus antepassados. A maioria ainda vive em casas de pau-a-pique e não possui energia elétrica e nem telefone. O atendimento médico acontece uma vez por mês quando o profissional vai até a vila. Eles encontram certa dificuldade para sair de suas casas por conta de condições climáticas como temporais ou o mar bravo, entretanto, vivem uma vida saudável em um lugar paradisíaco.

Casa na comunidade caiçara de Castelhanos

CULINÁRIA CAIÇARA

A culinária tradicional da Ilhabela é bastante diferente daquela que é servida, atualmente, nos restaurantes. A comida caiçara típica não levava os temperos que hoje em dia fazem parte da culinária praiana da ilha, como alho, azeite, margarina etc. Seu Adalton reside na Ilhabela desde pequeno e aprendeu com seus familiares as dicas e temperos que constavam na culinária caiçara. Cresceu pelas praias e aprendeu a pescar pequenos peixes, ainda criança. Hoje, casado com dona Almara e com três filhos pequenos, relembra com saudade da infância. “Era complicado encontrar os alimentos básicos, que hoje vemos em supermercados. Arroz, açúcar, pão, e outros alimentos eram de difícil produção. Lembro que eles usavam limão, pimenta e farinha de mandioca.”

Quando questionado sobre a carne que preferia comer, o pescador diz, sem muito pensar, que carne de boi é a sua favorita. Entretanto conta que, no passado, a carne apreciada e mais fácil de ser encontrada era o peixe, os frutos do mar e alguns passarinhos da região. “Peixe e farinha-da-terra eram o “nosso basicão”. Comíamos em todas as refeições e não me lembro de reclamar, adorava tudo e sinto uma saudade imensa da infância”, conta. A tradição era bastante machista, os homens caçavam e as mulheres cozinhavam.

Hoje, ainda, existem comunidades tradicionalmente caiçaras no arquipélago, onde é fabricada a farinha de mandioca. A mesma que era servida junto ao peixe em todas as refeições caiçaras. Entre histórias e lembranças, seu Adalton explicou o preparo de duas receitas da culinária caiçara. A primeira se chama “Azul-Marinho” e seus ingredientes são o peixe e a farinha de mandioca. Ele explica, passo a passo como se faz, mostrando quais temperos usar em cada etapa, finalizando o prato típico com pimenta e arroz.

Receita:

A porção rende para até três pessoas

Ingredientes: o Peixe (garoupa, badejo, olho-de-boi, a cavala e bijpira)o Farinha de Mandioca

Preparo: Não há medidas certas para a receita do azul marinho, elas variam de acordo com o gosto e a prática de cada.

Corte o peixe em pedaços fatiados não muito finos

Ferver água em uma panela de barro ou de ferro

Acrescentar sal à gosto, bananas com cascas, tomates picado, cebolas em rodelas, coentro e a alfavaca. Tudo crú. (as cascas que darão a coloração dando originalidade ao prato)

Deixar cozinhar por 5min

Acrescentar as fatias do peixe na panela

Depois de um tempo veja se o peixe está no ponto com o garfo. Se o garfo penetrar o peixe com facilidade já estará bom.

Quando estiver pronto separe um pouco do caldo em outra panela

Descasque a banana e esprema com o garfo

Misture a banana espremida com farinha e o caldo que foi separado até se tornar uma papa grossa. (famoso pirão. este pirão deve ser misturado com bastante caldo ao ponto de ficar pouco sólido)

Por último pode-se adicionar pimenta malagueta à gosto e um pouco de arroz branco

Receita do Azul-Marinho, tradicional da culinária caiçara

Já a segunda é chamada de “Receita do Xarelete na Brasa”. Para efetuá-la é necessário um peixe Xarelete e 500g de sal.

Receita:

Ingredientes: 1 peixe Xarelete pequeno de 500g e sal

Preparo:Abrir a barriga com uma faca afiada e fazer dois talhos, um de cada lado do peixe.

Temperar com sal por fora e por dentro.

Peixe Xaralete, usado para preparar o prato “Xaralete na Brasa”

 FESTAS DA CULTURA CAIÇARA

Seu Adalton não se esquece das comemorações que já festejou junto aos familiares e amigos. Uma delas é a Festa de Nossa Senhora D’ajuda e do Bom Sucesso. Essa santa é a padroeira da Ilhabela e a festa acontece no dia 2 de fevereiro na Vila, centro histórico. A santa seria carregada pelos navegantes portugueses para proteger os barcos. Essa história chegou no Brasil por meio dos colonizadores.

Festa de Nossa Senhora D’ajuda e Bom Sucesso

Outra tradição caiçara da Ilhabela é a famosa Festa de São Pedro. Ela acontece aos domingos mais próximos do dia 29 de junho. Esse santo é o padroeiro dos pescadores e eles, todos os anos com o apoio da prefeitura, realizam uma festa que conta com missa campal e quermesse, que acontece na Vila, o centro da cidade. No final da missa, uma embarcação local de algum pescador é escolhida para levar o santo em procissão marítima que vai pelo canal de São Sebastião e Ilhabela. Todos os barcos ficam enfeitados com bandeiras e papéis coloridos.

Festa de São Pedro

LENDAS

Seu Adalton, animado com a entrevista não se esquece nem dos mínimos detalhes de sua vida. Um pouco antes de nos despedirmos, ele sorriu e começou a contar as histórias da sua cultura, as chamadas “lendas da cultura caiçara” que contam com explicações para várias dúvidas que rondam o arquipélago.

Pedro Jacinto, um antigo pescador conta a Lenda do Peixe Tapa. Ele conta que um dia, o peixe virou-se para enxergar o sol e ficou com a boca torta. O peixe tapa vive na lama das profundezas do mar e tem o “fundo” branco e as costas pardas.

A lenda da Toca da Serpente é famosa nos arredores da Praia da Armação. Conta a história que havia uma serpente aterrorizando os moradores da região da Armação, então, pediram para um padre amaldiçoar essa serpente. Não se sabe ao certo o motivo, mas a serpente fugiu para o mar e deixou a marca de seus dentes na pedra, lugar que ainda é conhecido como a Toca da Serpente.

Entre uma e outra risada, Seu Adalton permaneceu sério e com um ar sábio terminou te contar todas as histórias mais que conhecia. Lembrou de seu avô, de seu pai e hoje, conta para os filhos, torcendo para que essas lendas nunca morram e sejam levadas adiante, de geração em geração.

“A nossa cultura é antiga, mas vale a pena ser ouvida.” é como Seu Adalton termina a conversa, com os dedos calejados e um sorriso simpático e sincero que mostra a serenidade de alguém que fez o seu trabalho bem feito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s