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Por Marcela Millan

Não se pode negar: com a modernidade, valendo-se das tecnologias, uma nova forma de interação humana começou a acontecer. A sociabilidade, antes sempre pautada pelo contato direto, presencial, reconfigurou-se, tornando-se, agora, predominantemente virtual. A troca de cultura tornou-se mais intensa, uma vez que os limites de tempo-espaço deixaram de existir –  principalmente por conta da Internet –  proporcionando uma verdadeira globalização cultural, que levou a uma grande interação entre países. Com identidades virtuais, as pessoas puderam criar vários alter-egos, perfis, identidades, originais ou não, interagindo entre si. Mas o que acontece quando alguns desses alter-egos saem do plano virtual e tomam forma de um personagem de carne e osso?

Da contração das palavras costume e play, cosplay é um hobbie, normalmente associado à cultura japonesa, em que pessoas se vestem como personagens de seus animes/games/mangás favoritos, interpretando-os por um dia. A prática se assemelharia a um teatro, em que os atores encarnam as personalidades, manias e estilo dos personagens por um dia inteiro. No Brasil, cada vez mais cosplayers (aqueles que fazem cosplay) começaram a surgir, popularizando, ainda mais, esse hobbie tão peculiar.

Keita, com o cosplay feminino de Ciel Phantomhive

“Comecei a fazer cosplay porque eu nasci, literalmente, nesse mundo”, comenta Keita, 14 anos. “Os meus primos faziam cosplay quando eu ainda tinha sete anos e achei que se vestir e incorporar o seu personagem favorito era – e é – uma coisa fantástica! Por isso meu primeiro cosplay foi do meu herói naquele tempo, o Pikachu”.

Conhecendo-se, principalmente, pela Internet, os cosplayers começaram um movimento silencioso que, aos poucos, conseguiu difindir a cultura pop japonesa – a circulação de bens culturais nipônicos já ocorria no Brasil desde 1908, quando os primeiros imigrantes chegaram, entretanto, foi só agora que ela se popularizou. Hoje, fala-se até mesmo em uma nova tribo urbana – os otakus – que se uniram por serem fãs da cultura pop oriental.

Essa denominação, entretanto, parece gerar uma polêmica no Brasil. Originalmente, otaku designa uma pessoa fanática, que vive “fechada em um casulo”, isolada do mundo real para se dedicar, exclusivamente, à um hobbie. No japão, pode se referir até mesmo a uma patologia. Apesar disso, no Brasil, o termo foi resignificado, se espalhando de forma positiva. “Como aqui no brasil ‘otaku’ significa fãs de anime e cultura nipônica, não vejo problema ou acho ruim ser chamada assim”, conta NeeYumi,  cosplayer. Diferentemente dela é Keita, que, enfaticamente, coloca: “Não acho um bom termo para se usar do modo que usam aqui. Se as pessoas gostam tanto da cultura japonesa, porque não a entendem melhor? Lá no Japão isso é um xingamento bem forte. Quem é otaku, no japão, sofre bullyng por isso, pois chega a ser uma doença”.

Apesar de menos forte, o preconceito com os otakus, no Brasil, é existente. “Já sofri preconceito por ser cosplayer, tanto por acharem estranho (pessoas que jugam antes de conhecer o hobby) e também por falarem que isso é coisa de criança”, diz NeeYumi. Concordando, Bárbara, 18 anos, acrescenta: “Eu me lembro de uma cena engraçada do meu primeiro cosplay, Hades, da mitologia grega. Eu voltei para casa vestida como ele e uma criancinha quis se aproximar sorridente de mim, mas sua mãe puxou-a pelo braço. Pela expressão dela, parecia que ela achava que eu era alguém para se temer”. Agora, Bárbara recorda do fato com sorriso divertido no rosto, mas diz que sentiu-se um pouco magoada com a reação extrema da mãe.

NeeYumi e alguns de seus cosplays

Ponto máximo da representação da admiração pela cultura pop japonesa, o cosplay parece ser um hobbie que, a cada dia, torna-se mais conhecido. Entretanto, como um país tão conservador, não é possível, pelo menos num primeiro momento, pensar como um costume recente como este pode representar o Japão. “Poucos sabem, mas foram os Estados Unidos que começaram com a ideia de cosplay”, conta Bárbara. “Essa prática não é bem uma essência do Japão – eles apenas gostaram e a aprimoraram. Assim, não pelo fato de ter ligação com as tradições, mas sim por ser algo que vemos muito mais por lá do que em qualquer outro lugar, as pessoas ligam diretamente os cosplays com o Japão. E como a maioria dos animes são de lá, as características dos personagens, o jeito, acaba sendo deles”, completa.

Bárbara e um de seus cosplays

Por interpretar o personagem por um dia, muitas pessoas olham com desconfiança para os cosplays, imaginando que tal prática pode ser prejudicial para a formação da identidade de alguém. “Conheço pessoas que só aceitam serem chamadas pelo nome do personagem do cosplay”, conta Carla, 19 anos. “Eu gosto da cultura japonesa, assisto animes e leio mangás, mas acho que não faria um cosplay. Acho que existe um exagero na hora de assumir o personagem”. Opinando sobre o assunto, Bárbara parece convicta de que, com ela, isso é algo que jamais aconteceria. “Eu me visto, incorporo, me divirto. Mas apenas ali, no momento. A vida real é outra coisa”, diz. “Infelizmente, existem os ‘cabeças fracas’, que não se dão conta da diferença da brincadeira e da realidade, e agem feito bobos em todos os lugares, o que faz a nossa fama cair por água abaixo”, reintera.

Talvez o principal problema desse hobbie seja, entretanto, o custo. Investindo em roupas complexas, lentes de contato, peruca, os cosplays nem sempre são assessiveis para todos. “Até agora não fiz cosplays tão elaborados”, diz Keita. “O mais caro me custou 700 reais, mas futuramente vou fazer um que vai sair por mais de R$ 5 mil. O sacrifício é grande, mas vale a pena fazer isso por algo que amo”.

Apesar de bem representada pelos cosplays, a cultura pop japonesa não se resume a eles. Tendo sua definição atual criada por Roy Lichtenstein, ela leva em conta aspectos da pop art, englobando músicas, vídeos, games, filmes, sempre considerando o modismo e influência no mundo. Segundo Cristiane A. Sato, “em qualquer parte do globo, a cultura pop é baseada em consumo, e isso faz com que o pop seja essencialmente um fenômeno cultural e comercial”.

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