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Por Luciene Sudré e Flávia Kassinoff

Friedrich Nietzsche disse que “Sem a música, a vida seria um erro”, e que “A música oferece às paixões, o meio de obter prazer delas”. Não há quem nunca tenha escutado uma música ser ter se lembrado de uma pessoa ou de uma situação do passado. A música, independente do gênero, a partir do momento que agrada a alguém, causa-lhe uma série de sensações. Com suas letras, harmonias e sintonias, nos emergem de uma forma que nenhuma outra arte quando comparada a ele, consegue realizar tal feito. A música carrega em si, certo sentimentalismo, que pode não estar conectado de fato a um sentimento específico do indivíduo que a escuta, mas resulta-lhe uma sensação. No mínimo, a música ocupa o maior espaço de entretenimento na sociedade moderna contemporânea. E em ainda utilizando palavras de Nietzsche “Aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não conseguiam ouvir a música”.

“Jazz singer” foi o primeiro filme com aúdio.

Inúmeras pesquisas estudam o efeito que a música exerce sobre nós. Após vários estudos, neurologistas, psicólogos e filósofos ainda não chegaram a uma resposta padrão. Isac Azimov abordou uma vez o tema em uma de suas ficções científicas, na qual, hipoteticamente os seres extraterrestres, ao estudarem a espécie humana, conseguem compreender todo o nosso funcionamento, menos o sentido de nós agirmos tão estranhamente sobre interferência de determinadas ondas sonoras. A definição de música é: combinação de sons com o silêncio de maneira organizada ao longo de um tempo. A palavra deriva do grego musiké téchne, que significa a “arte das musas” – seres que para os gregos inspiravam os artistas a compor. Desse modo, podemos perceber que a música esteve presente na evolução de nossa civilização em todos os cenários, até mesmo Pitágoras escreveu que as chaves para os segredos do universo eram a música e a matemática.

O psicólogo e linguista canadense Steven Arthur Pinker, defende em uma de suas teorias que referente a efeitos biológicos, a música é inútil. Afirma ainda que a música poderia desaparecer da nossa espécie deixando o resto do nosso estilo de vida praticamente inalterado. Mas, subjetivamente, isso é algo que não aconteceriam. Majoritariamente, a música faz parte da vida de todos, em seu cotidiano, marcando presença e fazendo diferença. Apesar de uma elitização cultural enraizada em nossa sociedade, a música cumpre seu papel social, pois está ao alcance de todos. Independente de etnia, crenças ou classe social, ferramentas como a Internet promovem o acesso fácil para a grande maioria da população aos diversos gêneros musicais.

O filósofo da Escola de Frankfurt, Theodoro Adorno, foi criador da Sociologia da Música. De acordo com um artigo publicado pelo jornal a Folha de S.Paulo, no dia 11 de março de 1988, intitulado “Adorno formulou a mais abrangente, a mais estimulante e a mais frustrante reflexão sobre a música neste século”, ninguém depois dele já demonstrou semelhante vocação analítica, vocação essa, resultante de uma mistura explosiva entre a composição e a dialética. O fato é que mais do que qualquer outro tipo de arte, a música conversa diretamente com nossa emoção. E nada pode ser melhor do que essa ferramenta para passar a mensagem necessária em uma produção audiovisual. Existe um belo casamento entre a música e o cinema.

Mesmo no cinema mudo, a música estava presente.

Desde quando o cinema era mudo, as projeções já eram acompanhadas por pianos e ao longo da história, música e cinema construíram uma relação mútua. Na década de 50, por exemplo, o cinema servia como um laboratório para a música experimental, já que essa era de difícil divulgação.  E atualmente a trilha sonora como conhecemos representa facilmente cerca de 50% da carga emocional de um filme. Portanto é algo a ser bem estudado e pensado em uma produção, por que afinal não há como definir o que seria do cinema sem a música.

O casamento do cinema com a música        

           Não como se lembrar do filme Psicose, sem ouvir mentalmente o rasgar das cordas do violino sincronizados com as facadas no chuveiro. Do mesmo modo, pensar em Titanic, sem que se inicie os acordes da melodramática “My heart will go on” na sua mente é impossível. Agora o mais difícil, olhe para uma imagem e Darth Vader e não pense na “marcha imperial”, ou olhe para Indiana Jones e não lembre do tema de John Williams.

Música e cinema hoje em dia são inseparáveis, porém nem sempre foi assim. No nascimento do cinema as projeções eram silenciosas e era preciso contar a história apenas com as imagens. Com a introdução do som em um filme, com “O cantor de Jazz”  primeiro filme com áudio, a maneira de se contar uma narrativa mudou completamente, e a música entrou como mais um dos elementos que permitiam essa mudança.

A trilha dos filmes Disney

Rei Leão – Cena ♫ “The Circle of Life” ♫

           Quando nos lembramos de músicas que marcaram nossa infância muitas delas estão relacionadas aos filmes com os quais crescemos assistindo. O estúdio Walt Disney é responsável pela criação de trilhas incríveis, entre elas a trilha de “Rei Leão”, criada pelo grande compositor Hans Zimmer e com canções de Elton John que é uma das trilhas mais vendidas do mundo. São diversas as canções destes filmes que são lembradas com nostalgia por aqueles que já cresceram. Esse estúdio porém não é somente o criador de músicas que marcam a infância de muitos, como também é o produtor de um filme que é um marco na história das trilhas sonoras.

        Em 1940,  os estúdios Disney lançaram Fantasia, que representou uma revolução no conceito de trilha sonora que se tinha até então.  No mesmo ano em que Orson Welles fez Cidadão Kane, filme que reinventou a narrativa no cinema americano, Fantasia completa essa ideia mostrando como a música é capaz de contar uma história.O filme consiste em oito animações acompanhadas por músicas clássicas.  Além do fato de a animação ser desenhada quadro a quadro, o que é mais fantástico no filme  é que ele consegue se utilizar de músicas tanto descritivas como absolutas também. Consegue descrever músicas que eram tidas com indescritíveis, como “Toccata e Fuga em ré menor” de J.S. Bach e “Ave Maria” de Schubert.

 

Eisenstein e Prokofiev, a função social da trilha

              Serguei Eisenstein, cineasta soviético, foi pioneiro em diversos aspectos da produção cinematográfica. Um deles foi o de tentar casar a música e o filme de uma maneira orgânica e harmoniosa que não existia ainda na década de 30. Convocou para a composição de suas trilhas compositores ilustres, grande nomes da música russa como Prokofiev e Shostakovish. Isso implicava uma reformulação no modo de projeção destes filmes, já que deviam ser acompanhados com uma orquestra toda vez que fossem exibidos. Essas produções eram influenciadas diretamente pelo governo soviético e alguns filmes e trilhas passavam a desempenhar um papel social no país. Um exemplo disso foi a obra “Alexandre Nevsky” , filme e música encomendados por Stálin para impor moral sobre aqueles que pretendiam invadir a Rússia na segunda guerra mundial e avisar a sua população sobre o possível ataque, instigando-os a resistir `a invasão. Prokofiev entrega um trabalho conciso e poderoso, com o objetivo de aflorar o espírito heróico russo. Temos um caso de uma trilha sonora com função social.

Maria Antonieta e The Strokes uma combinação que só o cinema permite

              A cineasta Sofia Coppola recebeu muitas críticas em 2006, ao se utilizar de uma trilha sonora moderna, com bandas de rock alternativo dos anos 2000 em um filme sobre a vida de Maria Antonieta. Não faltaram argumentos falando que ela estava descontextualizando a obra em seu sentido histórico. O que Coppola estava fazendo na verdade era uma recontextualização da obra,  se utilizando da trilha sonora como um meio de mostrar o que ela supõem que a personagem ouviria se vivesse atualmente.

 O poder da cena na música

                 Já foi demonstrado o quão importante a música é para uma cena, porém é preciso ressaltar que o inverso também é verdadeiro. A cena é capaz de atribuir diversos significados a uma música. São muitos os casos de filmes nos quais músicas que já existiam antes passam a ser associadas diretamente aquele filme. Como por exemplo a valsa de Strauss nas cenas da nave espacial em “2001: uma odisseia no espaço”, ou “Rapshody in Blue” de Gershwin em “Manhattan” de Woody Allen.

Alguns conceitos:

Música Diegética: Diegética vem de diegese que é a realidade própria da narrativa (“mundo ficcional”, “vida fictícia”). Portanto a música diegética é a música que está inserida no contexto ficcional. Por exemplo uma canção que o personagem esteja ouvindo no rádio, faz parte da dimensão ficcional.

Música Extra-DiegéticaAo contrário da diegética, a extra-diegética e a música que faz parte do filme, mas não do universo dos personagens, é externa à diegese, pois não está inserida no contexto da ação.

Foley: Foley é uma técnica que consiste em criar em estúdio sons de passos, portas se abrindo, entre outros com o objetivo de substituir os sons de uma cena já gravada, seja porque os sons não ficaram bons, seja para realçá-los.Essa técnica não serve para criar sons de tiros, explosões, monstros, etc. Isto é tarefa do Editor de Som e do Designer de Som.

Mickey Mousing: Frequentemente usado nas decadas de 30 e 40 por Max Steiner, o Mickey Mousing consiste em uma técnica de acompanhar e descrever as ações e movimentos dos personagens com a melodia. Constantemente usado em animações antigas.

Leitmotif: Leitmotif (do alemão, motivo condutor), em música, é uma técnica de composição introduzida por Richard Wagner em suas óperas, que consiste no uso de um ou mais temas que se repetem sempre que se encena uma passagem da ópera relacionada a uma personagem ou a um assunto. Atualmente, o uso do leitmotiv não se restringe à ópera. Também é utilizado largamente no cinema e em telenovelas, para descrever cada personagem, lugar ou coisa.

Música Programática: Música programática, música de programa ou música descritiva é a música que tem por objetivo evocar ideias ou imagens extra-musicais na mente do ouvinte, representando musicalmente uma cena, imagem, estado de ânimo ou até mesmo contar uma história.O termo é aplicado exclusivamente na tradição da música clássica europeia, particularmente na música do período romântico do século XIX, durante o qual o conceito teve grande popularidade, chegando a converter-se numa forma musical autônoma, apesar de antes já existirem peças de carácter descritivo. Habitualmente o termo é reservado para as obras puramente orquestrais (peças sem cantores nem letra) e portanto não é correto utilizá-lo para a ópera. É a percursora da trilha sonora, pois já tinha a função de passar uma história ao ouvinte. Principal representante é Wagner.

Música Absoluta: Ao contrário da musica programática, entende-se por música absoluta aquela que se aprecia por si mesma, sem nenhuma referência particular ao mundo exterior à própria música. Principal compositor desse estilo é Brahms.

Compositores & Composições

John Williams-  “Star Wars” “Indiana Jones” “Lista de Schindler” “Harry Potter”.

Hans Zimmer- “Gladiador” , “Piratas do Caribe”; Ennio Moricone- “Cinema Paradiso”, “Lenda do pianista ao mar”; Bernard Hermann- “Cidadão Kane”, “Um corpo que cai”; Nino Rota -Compositor da trilha de “O poderoso chefão”; Maurice Jarre-  Compositor da trilha de “Lawrence das arábia” e “Doutor Jivago”; Vangelis- “Carruagem de Fogo”, “Blade Runner”

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